home
 

Considerações sobre Chávez, Fidel e El Che


Considerações sobre a guerra civil espanhola


Creta e um outro Tsunami

 
 
     

Jornal da Tarde, 7 de janeiro de 2002
Último no clube de Golfo
O Brasil jamais atravessou a revolução cartesiana que criou a civilização moderna

 
 

Vários colaboradores deste jornal e do ESTADO, entre os quais os professores José Carlos Azevedo, Olavo de Carvalho e Miguel Reale, comentaram em tom pessismista, quase catastrófico ou de azedo sarcasmo, o fato da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, numa pesquisa internacional de estudantes de 15 anos, haver colocado em último lugar a qualidade do ensino médio brasileiro. De tal modo, se confirmou o lamentável resultado que produz a instrução pública em nosso país. A constatação é arrasadora, assinala mestre Miguel Reale. "No fundo, não se ensina a pensar". Corroborando algo que há mais de cem anos vem sendo denunciado pelos mais lúcidos estudiosos de nossa cultura (ou falta dela) - a maior parte dos professores tupiniquins são incapazes, ou por ignorância analfabética ou por preconceito ideológico, de ensinar aos jovens um pouco de lógica e do método cartesiano "para conduzir o pensamento". Desse modo, mesmo no pouco que aqui se lê, parece existir uma espécie de repugnância generalizada em compreender o conteúdo de livros de ciência, história e ética que habilitariam o futuro adulto a se tornar um profissional eficiente e um cidadão consciente dos interesses da nação. Não me desesperei com o resultado da pesquisa da OECD porque constatei que, na lista competitiva, todos os países colocados à nossa frente são tidos como "desenvolvidos"; todos europeus ou norte-americanos, salvo a Rússia, a Coréia e o México. Este se coloca em penúltimo lugar porque, justamente, constrói a ponte entre a América do Norte desenvolvida e a América Latina "em desenvolvimento". A Rússia, em que pese sua fase atual de penosa transição para o capitalismo ocidental, depois de 70 anos de despotismo, miséria e violência socialistas, é um país que pertenceu ao Ocidente e chegou a produzir, no século XIX, uma das mais brilhantes literaturas da Europa. Quanto à Coréia, foi ela que, há cerca de 1500 anos, transmitiu ao Japão o Budismo e a então já venerável civilização chinesa. Sendo assim, mais otimista, preferi dar a meu artigo o título acima ao invés daquele que utilizou Azevedo: "o primeiro da Gafieira".

Nosso problema, na verdade, é de cultura. Numa apreciação tão curta, não vou repetir as críticas lapidadas por meus mais ilustres antecessores contra o ensino oficial, nos três níveis submetidos ao monstrengo que é o MEC. O fato é que o problema cultural é fundamental e mais antigo. Em obras já publicadas tenho tentado demonstrar jamais haver o Brasil atravessado a revolução cartesiana que criou a civilização moderna. Grande parte da responsabilidade caberia à Igreja tridentina, a da Contra-Reforma que serviu de apoio ao Absolutismo ibérico. Obcecados com a heresia e a revolta das mentes livres, clérigos e monarcas quase colocaramu a própria Bíblia no Index Librorum Prohibitorum. A educação consistia em aprender meia dúzia de verdades dogmáticas e preceitos morais, limitados a questões de sexo e família, os quais, se violados, eram perdoados no Confessionário com "Um Padre Nosso e Três Ave-Marias". Com essa mentalidade permissiva, a psique brasileira não se adaptou à complexidade do cogito, ergo sum de Descartes, fazendo opção preferencial pelo coito, ergo sum do hedonismo meridional. Por esta observação e por outras é que me coloquei entre os "politicamente incorretos", tornando-me algo impopular ou classificado, como refere o último Boletim da Associação dos Diplomatas Brasileiros, uma "figura controvertida" - sem dúvida o pior qualificativo que possa um diplomata merecer. Roberto Campos e Gilberto Amado que, em sua época, foram igualmente controvertidos, insistiam em nossa incapacidade de, como assinala Reale, "estabelecer relações conseqüentes de causa e efeito". Donde concluo que o que nos tornou controvertidos é o respeito à lógica e ao método cartesiano.

A cultura da elite intelectual dirigente em nossa terra habituou-se a adotar ideologias utópicas, de extremo primarismo dogmático que inspiraram a educação. Cabia preservar o monopólio do "pensamento" da "classe dominante", supostamente fria e objetiva, já que conhecimento é poder como assinalara Bacon. A ideologia "iluminista" de Pombal, o positivismo comteano com o primarismo de sua "lei dos três estados" e o Marxismo cuja doutrina se reduz a quatro ou cinco princípios - "exploração capitalista", "mais-valia", "exclusão social", "imperialismo" - preencheram sucessivamente toda a "ciência" que legitimava o Estado patrimonialista, satisfazendo as necessidades do ensino médio. Leiam "Sociedade e História da Brasil", editada pela Fundação Teotônio Villela do PSDB, para terem uma idéia da "miséria da filosofia" com que um gênio do PC do B "ensina" nesta Terra dos Papagaios... Hosana nas Alturas e paz na terra aos homens de educação primária!

de combate por um mundo civilizado.