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Vários
colaboradores deste jornal e do ESTADO, entre
os quais os professores José Carlos Azevedo,
Olavo de Carvalho e Miguel Reale, comentaram em
tom pessismista, quase catastrófico ou
de azedo sarcasmo, o fato da Organização
para Cooperação e Desenvolvimento
Econômico, numa pesquisa internacional de
estudantes de 15 anos, haver colocado em último
lugar a qualidade do ensino médio brasileiro.
De tal modo, se confirmou o lamentável
resultado que produz a instrução
pública em nosso país. A constatação
é arrasadora, assinala mestre Miguel Reale.
"No fundo, não se ensina a pensar".
Corroborando algo que há mais de cem anos
vem sendo denunciado pelos mais lúcidos
estudiosos de nossa cultura (ou falta dela) -
a maior parte dos professores tupiniquins são
incapazes, ou por ignorância analfabética
ou por preconceito ideológico, de ensinar
aos jovens um pouco de lógica e do método
cartesiano "para conduzir o pensamento".
Desse modo, mesmo no pouco que aqui se lê,
parece existir uma espécie de repugnância
generalizada em compreender o conteúdo
de livros de ciência, história e
ética que habilitariam o futuro adulto
a se tornar um profissional eficiente e um cidadão
consciente dos interesses da nação.
Não me desesperei com o resultado da pesquisa
da OECD porque constatei que, na lista competitiva,
todos os países colocados à nossa
frente são tidos como "desenvolvidos";
todos europeus ou norte-americanos, salvo a Rússia,
a Coréia e o México. Este se coloca
em penúltimo lugar porque, justamente,
constrói a ponte entre a América
do Norte desenvolvida e a América Latina
"em desenvolvimento". A Rússia,
em que pese sua fase atual de penosa transição
para o capitalismo ocidental, depois de 70 anos
de despotismo, miséria e violência
socialistas, é um país que pertenceu
ao Ocidente e chegou a produzir, no século
XIX, uma das mais brilhantes literaturas da Europa.
Quanto à Coréia, foi ela que, há
cerca de 1500 anos, transmitiu ao Japão
o Budismo e a então já venerável
civilização chinesa. Sendo assim,
mais otimista, preferi dar a meu artigo o título
acima ao invés daquele que utilizou Azevedo:
"o primeiro da Gafieira".
Nosso problema,
na verdade, é de cultura. Numa apreciação
tão curta, não vou repetir as críticas
lapidadas por meus mais ilustres antecessores
contra o ensino oficial, nos três níveis
submetidos ao monstrengo que é o MEC. O
fato é que o problema cultural é
fundamental e mais antigo. Em obras já
publicadas tenho tentado demonstrar jamais haver
o Brasil atravessado a revolução
cartesiana que criou a civilização
moderna. Grande parte da responsabilidade caberia
à Igreja tridentina, a da Contra-Reforma
que serviu de apoio ao Absolutismo ibérico.
Obcecados com a heresia e a revolta das mentes
livres, clérigos e monarcas quase colocaramu
a própria Bíblia no Index Librorum
Prohibitorum. A educação consistia
em aprender meia dúzia de verdades dogmáticas
e preceitos morais, limitados a questões
de sexo e família, os quais, se violados,
eram perdoados no Confessionário com "Um
Padre Nosso e Três Ave-Marias". Com
essa mentalidade permissiva, a psique brasileira
não se adaptou à complexidade do
cogito, ergo sum de Descartes, fazendo opção
preferencial pelo coito, ergo sum do hedonismo
meridional. Por esta observação
e por outras é que me coloquei entre os
"politicamente incorretos", tornando-me
algo impopular ou classificado, como refere o
último Boletim da Associação
dos Diplomatas Brasileiros, uma "figura controvertida"
- sem dúvida o pior qualificativo que possa
um diplomata merecer. Roberto Campos e Gilberto
Amado que, em sua época, foram igualmente
controvertidos, insistiam em nossa incapacidade
de, como assinala Reale, "estabelecer relações
conseqüentes de causa e efeito". Donde
concluo que o que nos tornou controvertidos é
o respeito à lógica e ao método
cartesiano.
A cultura da
elite intelectual dirigente em nossa terra habituou-se
a adotar ideologias utópicas, de extremo
primarismo dogmático que inspiraram a educação.
Cabia preservar o monopólio do "pensamento"
da "classe dominante", supostamente
fria e objetiva, já que conhecimento é
poder como assinalara Bacon. A ideologia "iluminista"
de Pombal, o positivismo comteano com o primarismo
de sua "lei dos três estados"
e o Marxismo cuja doutrina se reduz a quatro ou
cinco princípios - "exploração
capitalista", "mais-valia", "exclusão
social", "imperialismo" - preencheram
sucessivamente toda a "ciência"
que legitimava o Estado patrimonialista, satisfazendo
as necessidades do ensino médio. Leiam
"Sociedade e História da Brasil",
editada pela Fundação Teotônio
Villela do PSDB, para terem uma idéia da
"miséria da filosofia" com que
um gênio do PC do B "ensina" nesta
Terra dos Papagaios... Hosana nas Alturas e paz
na terra aos homens de educação
primária!
de combate por um mundo civilizado. |