Em seus estudos psiquiátricos,
refere-se Jung a pacientes que tratou e sofriam do que, em termos clínicos,
é designado como pseudologia phantastica. Trata-se da produção
de mitos, visões, obsessões, idéias extravagantes
e outros distúrbios da imaginação - sintomas todos
que acompanham a mente de pessoas em crises epiléticas ou habitualmente
afetadas por uma afecção histérica. Há 100
anos, tais casos foram estudados por especialistas como Flournoy, Janet,
Delbrück, Freud e o próprio Jung. Uma mendacidade patológica
se manifesta de modo que o doente não sabe mais distinguir a
realidade do dia-a-dia e o desvario da alucinação ou do
pesadelo. Acontece que as coletividades podem ser atingidas por um mal
semelhante, uma enfermidade que se torna contagiosa. Grupos religiosos,
fanatizados por líderes dotados de um carisma demoníaco,
atiram-se em explosões assassinas ou suicidam-se em massa, cometendo
as piores barbaridades. Um fenômeno como o do Reverendo Jones
da Guiana, há uns 20 anos, o stalinismo, o hitlerismo e o comunismo
agrário de Pol Pot, na chamada Kampuchea Democrática,
são episódios assim explicáveis, mas que não
deixam de nos horrorizar. A Pseudodoxia Epidêmica representa a
manifestação coletiva da Mentira que contamina uma sociedade
inteira. Esta passa a ser possuída por uma doutrina qualquer
aberrante que a conduz aos maiores despautérios. Num artigo de
1945, "Depois da Catástrofe", Jung argumenta que o
diagnóstico mais correto da condição de Hitler
era a pseudologia fantástica, seu talento peculiar de acreditar
nas próprias mentiras. A histeria psicopática afetou uma
nação inteira, então considerada uma das mais cultas
do Planeta e, no entanto, do mais modesto soldado a um filósofo
tão eminente quanto Heidegger, ela se entregou cegamente à
liderança suicida de que resultou, direta ou indiretamente, a
morte de meia centena de milhões de homens.
No fundo, qual o povo, por
mais civilizado que seja, que não tenha conhecido crises pavorosas
desse estilo? Vejam o Terror na França de 1793/94. Recordem a
crise ideológica dos anos 30. Só na Espanha fez quase
1 milhão de vítimas na Guerra Civil 1936/39. O que se
pode dizer é que ninguém é invulnerável
a essa espécie de irrupção de conteúdos
irracionais, diabólicos e genocidas que a complexidade de condições
históricas especiais pode gerar. O Fundamentalismo está,
no momento, afetando os povos islâmicos com exemplos notórios
de sua perversidade. A religião, infelizmente, pode determinar
o próprio substrato da doença coletiva, como já
salientara Lucrécio, na antiga Roma, e David Hume, um luminar
do Enlightenment escocês, exemplo de bom senso irônico e
penetração filosófica. Hume admitia que "a
Razão é a escrava das paixões e jamais pode pretender
a qualquer outro ofício do que as servir e à obedecer".
Mas o que dizer de nosso próprio
país? Somos, segundo alguns eméritos sociólogos
que se debruçaram sobre nossa alma coletiva, a terra do "homem
cordial". Sérgio Buarque de Holanda corretamente acentuou
que a afetividade e o emocionalismo que brotam "do coração"
(do latim cor, cordis) não representam fundamentos apropriados
para a prosperidade de uma democracia em desenvolvimento. De crise em
crise escorrega o Brasil na esfera pública. É da essência
de nossa vida política a incoerência, a irresponsabilidade
e a irracionalidade. Inacreditáveis se tornam então, no
debate, a mendacidade, o exagero, as distorções e as calúnias.
Submetemo-nos a slogans tolos; aplaudimos discursos demagógicos
de idiotas e quanto maior sua insensatez mais cresce a expectativa de
que conquistem altos cargos públicos. Criamos mitos, obedecemos
a slogans, surgem bodes expiatórios para que a imbecilidade coletiva
sobre eles possa despejar seu ódio, sua inveja e frustrações.
No momento, não é mais o FMI o vilão. São
os próprios EUA, imperdoavelmente denunciados por serem ricos,
poderosos e responsáveis pelos ataques a seus símbolos
mais representativos. Que ousadia, que arrogância, que atrevimento!
Invadiram o Afeganistão, a Geórgia, o Turcomenistão
ou qualquer outro Ondelesestão, um abuso! O outro dia, dois dos
mais eminentes disseminadores de generosas idéias "neocristãs"
da CNB do PT lamentaram - um que apenas dois e não duas dúzias
de aviões houvessem derrubado edifícios em Nova York,
e o outro que não tenha ainda surgido o messiânico filho
postiço de Che Guevara e de Santa Tereza para humilhar a inqualificável
soberba do imperialismo neoliberal! Um dos mais respeitáveis
jornais do País nos informa que os americanos não matam
seus inimigos: torturam-nos em Guantánamo e os assassinam nos
Himalaias. Em âmbito epidêmico, a pseudologia fantástica
estende-se pelos media do País. Precisamos de um psiquiatra.
Urgentemente!
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