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Jornal da Tarde, 1 de abril de 2002
Pseudologia fantástica
É da essência da nossa vida política a incoerência, a irresponsabilidade, a irracionalidade

 
 

Em seus estudos psiquiátricos, refere-se Jung a pacientes que tratou e sofriam do que, em termos clínicos, é designado como pseudologia phantastica. Trata-se da produção de mitos, visões, obsessões, idéias extravagantes e outros distúrbios da imaginação - sintomas todos que acompanham a mente de pessoas em crises epiléticas ou habitualmente afetadas por uma afecção histérica. Há 100 anos, tais casos foram estudados por especialistas como Flournoy, Janet, Delbrück, Freud e o próprio Jung. Uma mendacidade patológica se manifesta de modo que o doente não sabe mais distinguir a realidade do dia-a-dia e o desvario da alucinação ou do pesadelo. Acontece que as coletividades podem ser atingidas por um mal semelhante, uma enfermidade que se torna contagiosa. Grupos religiosos, fanatizados por líderes dotados de um carisma demoníaco, atiram-se em explosões assassinas ou suicidam-se em massa, cometendo as piores barbaridades. Um fenômeno como o do Reverendo Jones da Guiana, há uns 20 anos, o stalinismo, o hitlerismo e o comunismo agrário de Pol Pot, na chamada Kampuchea Democrática, são episódios assim explicáveis, mas que não deixam de nos horrorizar. A Pseudodoxia Epidêmica representa a manifestação coletiva da Mentira que contamina uma sociedade inteira. Esta passa a ser possuída por uma doutrina qualquer aberrante que a conduz aos maiores despautérios. Num artigo de 1945, "Depois da Catástrofe", Jung argumenta que o diagnóstico mais correto da condição de Hitler era a pseudologia fantástica, seu talento peculiar de acreditar nas próprias mentiras. A histeria psicopática afetou uma nação inteira, então considerada uma das mais cultas do Planeta e, no entanto, do mais modesto soldado a um filósofo tão eminente quanto Heidegger, ela se entregou cegamente à liderança suicida de que resultou, direta ou indiretamente, a morte de meia centena de milhões de homens.

No fundo, qual o povo, por mais civilizado que seja, que não tenha conhecido crises pavorosas desse estilo? Vejam o Terror na França de 1793/94. Recordem a crise ideológica dos anos 30. Só na Espanha fez quase 1 milhão de vítimas na Guerra Civil 1936/39. O que se pode dizer é que ninguém é invulnerável a essa espécie de irrupção de conteúdos irracionais, diabólicos e genocidas que a complexidade de condições históricas especiais pode gerar. O Fundamentalismo está, no momento, afetando os povos islâmicos com exemplos notórios de sua perversidade. A religião, infelizmente, pode determinar o próprio substrato da doença coletiva, como já salientara Lucrécio, na antiga Roma, e David Hume, um luminar do Enlightenment escocês, exemplo de bom senso irônico e penetração filosófica. Hume admitia que "a Razão é a escrava das paixões e jamais pode pretender a qualquer outro ofício do que as servir e à obedecer".

Mas o que dizer de nosso próprio país? Somos, segundo alguns eméritos sociólogos que se debruçaram sobre nossa alma coletiva, a terra do "homem cordial". Sérgio Buarque de Holanda corretamente acentuou que a afetividade e o emocionalismo que brotam "do coração" (do latim cor, cordis) não representam fundamentos apropriados para a prosperidade de uma democracia em desenvolvimento. De crise em crise escorrega o Brasil na esfera pública. É da essência de nossa vida política a incoerência, a irresponsabilidade e a irracionalidade. Inacreditáveis se tornam então, no debate, a mendacidade, o exagero, as distorções e as calúnias. Submetemo-nos a slogans tolos; aplaudimos discursos demagógicos de idiotas e quanto maior sua insensatez mais cresce a expectativa de que conquistem altos cargos públicos. Criamos mitos, obedecemos a slogans, surgem bodes expiatórios para que a imbecilidade coletiva sobre eles possa despejar seu ódio, sua inveja e frustrações. No momento, não é mais o FMI o vilão. São os próprios EUA, imperdoavelmente denunciados por serem ricos, poderosos e responsáveis pelos ataques a seus símbolos mais representativos. Que ousadia, que arrogância, que atrevimento! Invadiram o Afeganistão, a Geórgia, o Turcomenistão ou qualquer outro Ondelesestão, um abuso! O outro dia, dois dos mais eminentes disseminadores de generosas idéias "neocristãs" da CNB do PT lamentaram - um que apenas dois e não duas dúzias de aviões houvessem derrubado edifícios em Nova York, e o outro que não tenha ainda surgido o messiânico filho postiço de Che Guevara e de Santa Tereza para humilhar a inqualificável soberba do imperialismo neoliberal! Um dos mais respeitáveis jornais do País nos informa que os americanos não matam seus inimigos: torturam-nos em Guantánamo e os assassinam nos Himalaias. Em âmbito epidêmico, a pseudologia fantástica estende-se pelos media do País. Precisamos de um psiquiatra.
Urgentemente!