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O resultado
das recentes eleições francesas
levanta a questão do futuro da social-democracia,
ou seja, da escolha de uma alternativa entre o
liberalismo globalizante e o socialismo, hoje
identificado com a forma nacionalista do coletivismo.
Inicialmente, cabe definir exatamente o que é
a social-democracia em confronto com o socialismo
puro. Não se trata apenas de constatar
que, no programa dos partidos ditos social-democráticos
europeus ou, ocasionalmente, latino-americanos,
assim como na ala esquerda falsamente qualificada
de "liberal" do Partido Democrático
americano, é inteiramente respeitado o
princípio de alternância do poder,
da representatividade da opinião pública
e das condições que facultam uma
estrutura vulgarmente considerada "democrática".
Poderíamos invocar o conceito de Popper
segundo o qual a Sociedade Aberta é aquela
que não exige o recurso à violência,
ao golpe ou uma "revolução"
para derrubar um governo ou um regime intolerável.
Ora, foi-se
o martelo... O próprio termo "comunismo"
tornou-se politicamente incorreto. Os comunistas,
e são muitos, preferem disfarçar
suas convicções com eufemismos.
Se considerarmos
a conjuntura no princípio do milênio,
os únicos totalitarismos que sobrevivem,
em espetáculo confrangedor, são
o da Cuba fidelista e da Coréia do Norte.
Não que se deva menosprezar o que Roque
Spencer Maciel de Barros temia como a Tentação
Totalitária. Ela hoje melhor se define
no Islã fundamentalista, em estranho e
paradoxal contubérnio com o esquerdismo
das inconsoláveis Viúvas da Praça
Vermelha. A social-democracia se distingue portanto
do socialismo, em primeiro lugar, por repudiar
o totalitarismo.
Qual então
o seu destino previsível? Tony Blair, o
premier britânico, propõe uma Terceira
Via entre o capitalismo e o socialismo. Em termos
da ideologia francesa, o ziguezague entre a esquerda
e a direita, ou seja, uma espécie de misteriosa
síntese na dialética hegeliana.
Acontece que a alternativa certamente esvaeceu,
pelo menos temporariamente, com a fragorosa derrota
dos socialistas. O "cataclismo", como
os mais fiéis gauchistes qualificaram o
evento, não foi a vitória de Chirac,
mas o número de votos conquistados pelo
nacionalista, isolacionista e reacionário
Le Pen (rima com Jospin). Se levarmos em conta
que a social-democracia clássica alemã,
historicamente a mais antiga, se encontra igualmente
debilitada nas mãos do chanceler Schroeder,
vemos que a sugestão da Terceira Via nos
parece periclitante.
Na obra recente
de Antonio Paim Do socialismo à social-democracia,
(Tempo Brasileiro, Rio, 2002), nosso amigo e prestigioso
filósofo político oferece uma análise,
imprescindível aos interessados, de como
tem sido feita a revisão do marxismo e
seu desfecho; e de como evoluiu o socialismo,
com a amplitude da adesão à social-democracia
- apresentando uma elaboração teórica
recente e avaliação crítica
do fenômeno segundo a ótica liberal.
Paim reserva um papel importante nesse tratamento
ao pensador esquerdista britânico Anthony
Giddens, mentor do premier britânico e talvez
hoje o principal teórico da ideologia.
Ora, é o próprio Giddens quem acentua
textualmente: "A economia de mercado bem
sucedida é capaz de gerar mais prosperidade
do que qualquer outro sistema rival. Na verdade,
não existe sistema rival"... Nessas
condições, se a "Terceira Via"
social-democrática não é
"o caminho mais curto para o Terceiro Mundo",
como observou sarcasticamente o ex-primeiro ministro
e provável futuro presidente tcheco Vaclav
Klaus, será pelo menos a desesperada tentativa
de resistir à globalização
pelo recurso sem-vergonha de continuar financiando
os políticos (a Nomenklatura) e a burocracia
estatal com os impostos extorquidos do produto
crescente, proporcionado pelos empresários,
fazendeiros e trabalhadores do mercado livre.
Em suma, a
derradeira tentativa de manter, graças
ao Estado intervencionista, aquilo que, há
150 anos, o grande economista francês Frédéric
Bastiat denunciava como "a grande ficção
através da qual todo mundo tenta viver
à custa dos outros". Apreciei particularmente
o livro de Paim porque completa, soberbamente,
meu próprio esforço de análise
histórica do desenvolvimento do liberalismo
moderno na obra O Espírito das Revoluções,
com prefácio seu (Editora da Faculdade
da Cidade, Rio, 1997).
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