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Jornal da Tarde, 27 de maio de 2002
Terá futuro a Terceira Via?

 
 

O resultado das recentes eleições francesas levanta a questão do futuro da social-democracia, ou seja, da escolha de uma alternativa entre o liberalismo globalizante e o socialismo, hoje identificado com a forma nacionalista do coletivismo. Inicialmente, cabe definir exatamente o que é a social-democracia em confronto com o socialismo puro. Não se trata apenas de constatar que, no programa dos partidos ditos social-democráticos europeus ou, ocasionalmente, latino-americanos, assim como na ala esquerda falsamente qualificada de "liberal" do Partido Democrático americano, é inteiramente respeitado o princípio de alternância do poder, da representatividade da opinião pública e das condições que facultam uma estrutura vulgarmente considerada "democrática". Poderíamos invocar o conceito de Popper segundo o qual a Sociedade Aberta é aquela que não exige o recurso à violência, ao golpe ou uma "revolução" para derrubar um governo ou um regime intolerável.

Ora, foi-se o martelo... O próprio termo "comunismo" tornou-se politicamente incorreto. Os comunistas, e são muitos, preferem disfarçar suas convicções com eufemismos.

Se considerarmos a conjuntura no princípio do milênio, os únicos totalitarismos que sobrevivem, em espetáculo confrangedor, são o da Cuba fidelista e da Coréia do Norte. Não que se deva menosprezar o que Roque Spencer Maciel de Barros temia como a Tentação Totalitária. Ela hoje melhor se define no Islã fundamentalista, em estranho e paradoxal contubérnio com o esquerdismo das inconsoláveis Viúvas da Praça Vermelha. A social-democracia se distingue portanto do socialismo, em primeiro lugar, por repudiar o totalitarismo.

Qual então o seu destino previsível? Tony Blair, o premier britânico, propõe uma Terceira Via entre o capitalismo e o socialismo. Em termos da ideologia francesa, o ziguezague entre a esquerda e a direita, ou seja, uma espécie de misteriosa síntese na dialética hegeliana. Acontece que a alternativa certamente esvaeceu, pelo menos temporariamente, com a fragorosa derrota dos socialistas. O "cataclismo", como os mais fiéis gauchistes qualificaram o evento, não foi a vitória de Chirac, mas o número de votos conquistados pelo nacionalista, isolacionista e reacionário Le Pen (rima com Jospin). Se levarmos em conta que a social-democracia clássica alemã, historicamente a mais antiga, se encontra igualmente debilitada nas mãos do chanceler Schroeder, vemos que a sugestão da Terceira Via nos parece periclitante.

Na obra recente de Antonio Paim Do socialismo à social-democracia, (Tempo Brasileiro, Rio, 2002), nosso amigo e prestigioso filósofo político oferece uma análise, imprescindível aos interessados, de como tem sido feita a revisão do marxismo e seu desfecho; e de como evoluiu o socialismo, com a amplitude da adesão à social-democracia - apresentando uma elaboração teórica recente e avaliação crítica do fenômeno segundo a ótica liberal. Paim reserva um papel importante nesse tratamento ao pensador esquerdista britânico Anthony Giddens, mentor do premier britânico e talvez hoje o principal teórico da ideologia. Ora, é o próprio Giddens quem acentua textualmente: "A economia de mercado bem sucedida é capaz de gerar mais prosperidade do que qualquer outro sistema rival. Na verdade, não existe sistema rival"... Nessas condições, se a "Terceira Via" social-democrática não é "o caminho mais curto para o Terceiro Mundo", como observou sarcasticamente o ex-primeiro ministro e provável futuro presidente tcheco Vaclav Klaus, será pelo menos a desesperada tentativa de resistir à globalização pelo recurso sem-vergonha de continuar financiando os políticos (a Nomenklatura) e a burocracia estatal com os impostos extorquidos do produto crescente, proporcionado pelos empresários, fazendeiros e trabalhadores do mercado livre.

Em suma, a derradeira tentativa de manter, graças ao Estado intervencionista, aquilo que, há 150 anos, o grande economista francês Frédéric Bastiat denunciava como "a grande ficção através da qual todo mundo tenta viver à custa dos outros". Apreciei particularmente o livro de Paim porque completa, soberbamente, meu próprio esforço de análise histórica do desenvolvimento do liberalismo moderno na obra O Espírito das Revoluções, com prefácio seu (Editora da Faculdade da Cidade, Rio, 1997).