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O principal guru da esquerda nesta
transição de século não
é mais Gramsci, é outro italiano,
Antonio Negri. Esse personagem agitado, antigo
terrorista com um passado de violência,
cúmplice das "Brigadas Vermelhas"
dos anos 70 e responsabilizado no assassinato
do ex-primeiro-ministro Aldo Moro, surge agora
como o teórico da Nova Esquerda Festiva
antiglobalista. Suas idéias procuram mobilizar,
num ódio comum aos Estados Unidos, uma
gororoba de marxismo, ecologismo, feminismo, saddamismo,
simpatia pela Intifada palestina e por Bin Laden
ou, simplesmente, a vociferação
irresponsável de caras-pintadas na fase
bagunceira da adolescência. Negri seria
o santo patrono de manifestações
globais antiglobalizantes, como as de Seattle,
Washington, Davos, Gênova e do Foro de Porto
Alegre. É difícil caracterizar-lhes
um programa consistente. Na verdade, pertencem
apenas à velha linhagem anarquista romântica
cujos primeiros vagidos modernos foram ouvidos
nos motins homicidas dos sans-culotte de Paris
de 1789/93. Metido a filósofo, denunciado
como cattivo maestro em sua pátria, não
usando barba de estilo marxista-petista, porém
apenas uma vasta cabeleira, Negri produziu um
livro, o Império, que se tornou uma espécie
de best seller mundial depois de ser adotado nas
universidades americanas e publicado pela venerável
editora de Harvard. É um dos paradoxos
da globalização.
Na obra de David Henderson, Antiliberalismo 2000,
que a Editora da UniverCidade no Rio traduziu
recentemente, está bem analisado esse novo
milenarismo coletivista que devemos considerar
como o contraponto, normal da reação
aos avanços mais salientes destes primeiros
anos do século 21. Ou, se quiserem, como
a face "civilizada" ocidental, alegadamente
não violenta da "Guerra Civil Permanente",
cuja versão tenebrosa é representada
pelo terrorismo islâmico. A junção
oportunista dos dois movimentos, autônomos
em suas origens, se processa na base de interesses
comuns. Assim como os aliados ocidentais sustentaram,
em 1941/45, a resistência soviética
à invasão nazista, e os americanos
ofereceram apoio militar aos talibans quando da
invasão do Afeganistão pelos russos,
em 1980, assim também a conveniência
do momento explicaria a paradoxal simpatia da
esquerda do Primeiro Mundo ao que há de
mais machista, medieval e retrógrado na
atual explosão de fanatismo muçulmano.
O jogo ideológico esquerda x direita permite
essas contradições.
É evidente que Negri e seus seguidores
são muito mais sofisticados do que os velhos
adeptos do trotskismo, e mesmo do gramscismo.
Não nos damos conta disso no Brasil porque
sempre estamos algo atrasados, 20, 30, 50 anos,
na evolução de nossos pruridos ideológicos.
Negri, Michael Hardt e seus colaboradores antecipam
um futuro sombrio num supercapitalismo globalizado
e previnem contra imperialismo, que não
é o do "capitalismo tardio" das
profecias de Lenin, nem o "neocesarismo"
de Spengler. Não imaginam que se possa
criar, numa projeção extensa das
idéias de Hayek, uma Nova Ordem Espontânea
Global liberal - uma ordem "espontânea",
insisto, e, por conseguinte, de formação
democrática natural, livre e imprevisível.
Formado na teoria da ação subversiva
violenta, a que Negri não pode, provavelmente,
escapar por força de seus preconceitos
leninistas, ele imagina um futuro em que a "multidão",
monstruosa e não exatamente definida, se
rebela contra o império "vampiro"
do supercapitalismo multinacional. O choque seria
simbolizado, suponho eu, pela destruição
das Torres Gêmeas de Nova York.
Nesse sentido, as quase 500 páginas do
trabalho de Negri e Hardt misturam citações
e evocações eruditas de Spinoza,
Giordano Bruno, Deleuze, Foucault e autores marxistas,
com apelos a um novo tipo de conflito armado permanente,
de baixa intensidade, que deverá arregimentar
os descontentes graças à internet
e às contas bancárias internacionais,
paralelamente à rede terrorista da Al-Qaeda.
Desde logo poderíamos imaginar que, num
mundo onde a estrutura do Estado-nação
soberano decai e onde o modelo dos impérios
clássicos de tipo cesarista, napoleônico,
britânico, hitlerista ou stalinista não
parece capaz de ressurgir, o paradigma é
o de badernas de multidões selvagens, pipocando
aqui e ali nas grandes aglomerações
urbanas. O fantasma do "Império"
futuro serve como forma de transição
antecipatória para o protesto. O "Negrismo"
- adotemos essa expressão, que tem a vantagem
de conter um substrato anti-racista - se apresenta
assim como o arremedo de uma nova ideologia, adaptada
ao "Contra" niilista, sob cuja bandeira
vermelha as multidões arruaceiras se poderão
identificar. Espontânea será igualmente
a reação à progressiva integração
política do Planeta numa Nova Ordem Global
de que já é Washington, no momento,
o quartel-general decisório
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