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Jornal da Tarde 06 de janeiro de 2003
O "Império" de Antonio Negri
Sobre alguns paradoxos e questões de esquerda.

 
 

O principal guru da esquerda nesta transição de século não é mais Gramsci, é outro italiano, Antonio Negri. Esse personagem agitado, antigo terrorista com um passado de violência, cúmplice das "Brigadas Vermelhas" dos anos 70 e responsabilizado no assassinato do ex-primeiro-ministro Aldo Moro, surge agora como o teórico da Nova Esquerda Festiva antiglobalista. Suas idéias procuram mobilizar, num ódio comum aos Estados Unidos, uma gororoba de marxismo, ecologismo, feminismo, saddamismo, simpatia pela Intifada palestina e por Bin Laden ou, simplesmente, a vociferação irresponsável de caras-pintadas na fase bagunceira da adolescência. Negri seria o santo patrono de manifestações globais antiglobalizantes, como as de Seattle, Washington, Davos, Gênova e do Foro de Porto Alegre. É difícil caracterizar-lhes um programa consistente. Na verdade, pertencem apenas à velha linhagem anarquista romântica cujos primeiros vagidos modernos foram ouvidos nos motins homicidas dos sans-culotte de Paris de 1789/93. Metido a filósofo, denunciado como cattivo maestro em sua pátria, não usando barba de estilo marxista-petista, porém apenas uma vasta cabeleira, Negri produziu um livro, o Império, que se tornou uma espécie de best seller mundial depois de ser adotado nas universidades americanas e publicado pela venerável editora de Harvard. É um dos paradoxos da globalização.

Na obra de David Henderson, Antiliberalismo 2000, que a Editora da UniverCidade no Rio traduziu recentemente, está bem analisado esse novo milenarismo coletivista que devemos considerar como o contraponto, normal da reação aos avanços mais salientes destes primeiros anos do século 21. Ou, se quiserem, como a face "civilizada" ocidental, alegadamente não violenta da "Guerra Civil Permanente", cuja versão tenebrosa é representada pelo terrorismo islâmico. A junção oportunista dos dois movimentos, autônomos em suas origens, se processa na base de interesses comuns. Assim como os aliados ocidentais sustentaram, em 1941/45, a resistência soviética à invasão nazista, e os americanos ofereceram apoio militar aos talibans quando da invasão do Afeganistão pelos russos, em 1980, assim também a conveniência do momento explicaria a paradoxal simpatia da esquerda do Primeiro Mundo ao que há de mais machista, medieval e retrógrado na atual explosão de fanatismo muçulmano. O jogo ideológico esquerda x direita permite essas contradições.

É evidente que Negri e seus seguidores são muito mais sofisticados do que os velhos adeptos do trotskismo, e mesmo do gramscismo. Não nos damos conta disso no Brasil porque sempre estamos algo atrasados, 20, 30, 50 anos, na evolução de nossos pruridos ideológicos. Negri, Michael Hardt e seus colaboradores antecipam um futuro sombrio num supercapitalismo globalizado e previnem contra imperialismo, que não é o do "capitalismo tardio" das profecias de Lenin, nem o "neocesarismo" de Spengler. Não imaginam que se possa criar, numa projeção extensa das idéias de Hayek, uma Nova Ordem Espontânea Global liberal - uma ordem "espontânea", insisto, e, por conseguinte, de formação democrática natural, livre e imprevisível. Formado na teoria da ação subversiva violenta, a que Negri não pode, provavelmente, escapar por força de seus preconceitos leninistas, ele imagina um futuro em que a "multidão", monstruosa e não exatamente definida, se rebela contra o império "vampiro" do supercapitalismo multinacional. O choque seria simbolizado, suponho eu, pela destruição das Torres Gêmeas de Nova York.

Nesse sentido, as quase 500 páginas do trabalho de Negri e Hardt misturam citações e evocações eruditas de Spinoza, Giordano Bruno, Deleuze, Foucault e autores marxistas, com apelos a um novo tipo de conflito armado permanente, de baixa intensidade, que deverá arregimentar os descontentes graças à internet e às contas bancárias internacionais, paralelamente à rede terrorista da Al-Qaeda.

Desde logo poderíamos imaginar que, num mundo onde a estrutura do Estado-nação soberano decai e onde o modelo dos impérios clássicos de tipo cesarista, napoleônico, britânico, hitlerista ou stalinista não parece capaz de ressurgir, o paradigma é o de badernas de multidões selvagens, pipocando aqui e ali nas grandes aglomerações urbanas. O fantasma do "Império" futuro serve como forma de transição antecipatória para o protesto. O "Negrismo" - adotemos essa expressão, que tem a vantagem de conter um substrato anti-racista - se apresenta assim como o arremedo de uma nova ideologia, adaptada ao "Contra" niilista, sob cuja bandeira vermelha as multidões arruaceiras se poderão identificar. Espontânea será igualmente a reação à progressiva integração política do Planeta numa Nova Ordem Global de que já é Washington, no momento, o quartel-general decisório