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Quero abordar um problema que, no
momento, muito nos aflige, o do indivíduo
nomeado para um cargo qualquer na alta administração,
sem concurso ou qualificação adequada.
O Presidente tem distribuiu embaixadas, empregos
em autarquias e pastas em seu gordo Ministério
a uma turma de medíocres políticos
derrotados, a fim de satisfazer outros partidos
cuja cooperação requer para as Reformas
que pretende efetivar. Nos regimes de antanho,
o nobre podia "comprar" um regimento
ou uma embaixada do Rei, seu amigo. O regime patrimonialista
adota o sistema de prebenda pessoal pelo qual
o Estado (L´État, c´est moi...)
é propriedade do governante. Até
hoje, os presidentes americanos distribuem generosamente
as missões para recompensar ricos contribuintes
eleitorais. O political appointee é o oposto
do funcionário de carreira. No Itamaraty,
costumávamos descrever o método
como "entrada pela janela"
Entretanto,
nossa diplomacia pouco sofreu com a prática,
ao contrário de nossos vizinhos. A solidez
da carrière brasileira se deve ao barão
do Rio Branco e ao Instituto que lhe homenageia
o nome, assim preservando o MRE da instabilidade
política de nossa história republicana.
Certo, temos tido a experiência de personagens
qualificados como hors-concours, ainda que conseguiu
o Itamaraty, aos poucos, conquistar uma certa
imunidade contra a interferência indesejada.
Para comparação, basta
notar que a proporção dos recrutados
pelo Q.I.(Quem Indicou) da politicagem nos EEUU
chegou, em certa ocasião, a 40% do total,
enquanto a média de tempo de serviço
dos embaixadores britânicos era 33 anos
de profissão e a dos franceses, de mais
de 34 anos. Acresce que quase todos os Secretários
de Estado, Sub-secretários e Deputy Secretaries
tampouco são da carreira. Às vezes
são pessoas ilustres, intelectuais prestigiosos
como Kissinger, personagens com grande experiência
de governo em situações de guerra
como Elihu Root, com Theodore Roosevelt; Foster
Dulles com Eisenhower; e o general Colin Powell.
Bush Pai foi embaixador na China; Joseph Kennedy,
amigo de Roosevelt e pai de JFK, embaixador em
Londres em princípios da IIª Guerra
Mundial, não obstante o passado de traficante
de bebidas. Nós mesmos tivemos banqueiros
como Moreira Salles e Marcílio Marques
Moreira, em Washington, o que se justifica pela
importância das relações financeiras
com os USA. Marcílio, aliás, havia
sido da carreira. Certo é que, em muitos
casos, um homem de excepcional saber e prestígio
como Roberto Campos, precioso nas duas vertentes,
melhor pode representar o país do que qualquer
profissional.
Para Lisboa, temos mandado políticos
e intelectuais, simplesmente porque não
sabem qualquer língua estrangeira. Em alguns
casos, impomos doidos - acreditando talvez que
nossa querida "Mãe Pátria"
seja mais condescendente com nossos desmandos.
O regime militar foi muito respeitoso do Itamaraty.
Entretanto, em Bagdad e Assunção
serviram generais reformados porque os presidentes
locais também eram militares, ou porque
o pessoal do Itamaraty esnobara postos considerados
pouco confortáveis. Lamentável é,
às vezes, o resultado de gente fora da
carreira. Em 1830, no início da vida dos
EUA, John Randolf, famoso por sua retórica
sarcástica e defesa dos direitos dos estados
escravagistas, foi enviado por Andrew Jackson
à requintada Corte de S.Petersburgo. Jackson,
herói da Guerra de 1812, foi o primeiro
populista a entrar na Casa Branca e seu enviado
era tudo menos um galã, muito embora de
aristocrática família da Virginia.
Entrando no Grande Salão do Trono do Palácio
de Inverno (o Hermitage), dirigiu-se sem hesitação
ao Tzar Nikolau II, deu-lhe uma batidinha nas
costas e, num inglês altamente idiomático,
perguntou: "Howha'ya King. And how's the
Mrs." (algo como: "Que tal meu chapa!
E como vai a madama?..."). A história
não conta qual foi a reação
do austero, tenebroso e disciplinado Autocrata
de Todas as Rússias.
É dessa época, aliás,
que data o alastramento do denominado spoils system,
o sistema de despojos ou partilha do "espólio"
do (partido) vencido, tendo sido o próprio
termo usado pela primeira vez em 1832. Figura
semelhante foi nosso Assis Chateaubriand que JK
nomeou para Londres, em recompensa do apoio recebido
dos "Diários Associados". Um
embaixador americano no Rio, ao terminar a guerra,
era um fabricante de isqueiros que pretendia fazer
reclame dos produtos de sua indústria...
Seu antecessor, James Byrne, político de
prestígio e influência ao tempo de
Roosevelt, meteu-se onde não devia e suas
declarações favoráveis à
redemocratização desagradaram ao
presidente Vargas e contribuíram indiretamente
para a queda do ditador, outubro de 1945. A politicagem
tem seu preço e nós o pagamos.
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