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Jornal da Tarde 7 de julho de 2003
O sistema dos despojos

 
 

Quero abordar um problema que, no momento, muito nos aflige, o do indivíduo nomeado para um cargo qualquer na alta administração, sem concurso ou qualificação adequada. O Presidente tem distribuiu embaixadas, empregos em autarquias e pastas em seu gordo Ministério a uma turma de medíocres políticos derrotados, a fim de satisfazer outros partidos cuja cooperação requer para as Reformas que pretende efetivar. Nos regimes de antanho, o nobre podia "comprar" um regimento ou uma embaixada do Rei, seu amigo. O regime patrimonialista adota o sistema de prebenda pessoal pelo qual o Estado (L´État, c´est moi...) é propriedade do governante. Até hoje, os presidentes americanos distribuem generosamente as missões para recompensar ricos contribuintes eleitorais. O political appointee é o oposto do funcionário de carreira. No Itamaraty, costumávamos descrever o método como "entrada pela janela"… Entretanto, nossa diplomacia pouco sofreu com a prática, ao contrário de nossos vizinhos. A solidez da carrière brasileira se deve ao barão do Rio Branco e ao Instituto que lhe homenageia o nome, assim preservando o MRE da instabilidade política de nossa história republicana. Certo, temos tido a experiência de personagens qualificados como hors-concours, ainda que conseguiu o Itamaraty, aos poucos, conquistar uma certa imunidade contra a interferência indesejada.

Para comparação, basta notar que a proporção dos recrutados pelo Q.I.(Quem Indicou) da politicagem nos EEUU chegou, em certa ocasião, a 40% do total, enquanto a média de tempo de serviço dos embaixadores britânicos era 33 anos de profissão e a dos franceses, de mais de 34 anos. Acresce que quase todos os Secretários de Estado, Sub-secretários e Deputy Secretaries tampouco são da carreira. Às vezes são pessoas ilustres, intelectuais prestigiosos como Kissinger, personagens com grande experiência de governo em situações de guerra como Elihu Root, com Theodore Roosevelt; Foster Dulles com Eisenhower; e o general Colin Powell. Bush Pai foi embaixador na China; Joseph Kennedy, amigo de Roosevelt e pai de JFK, embaixador em Londres em princípios da IIª Guerra Mundial, não obstante o passado de traficante de bebidas. Nós mesmos tivemos banqueiros como Moreira Salles e Marcílio Marques Moreira, em Washington, o que se justifica pela importância das relações financeiras com os USA. Marcílio, aliás, havia sido da carreira. Certo é que, em muitos casos, um homem de excepcional saber e prestígio como Roberto Campos, precioso nas duas vertentes, melhor pode representar o país do que qualquer profissional.

Para Lisboa, temos mandado políticos e intelectuais, simplesmente porque não sabem qualquer língua estrangeira. Em alguns casos, impomos doidos - acreditando talvez que nossa querida "Mãe Pátria" seja mais condescendente com nossos desmandos. O regime militar foi muito respeitoso do Itamaraty. Entretanto, em Bagdad e Assunção serviram generais reformados porque os presidentes locais também eram militares, ou porque o pessoal do Itamaraty esnobara postos considerados pouco confortáveis. Lamentável é, às vezes, o resultado de gente fora da carreira. Em 1830, no início da vida dos EUA, John Randolf, famoso por sua retórica sarcástica e defesa dos direitos dos estados escravagistas, foi enviado por Andrew Jackson à requintada Corte de S.Petersburgo. Jackson, herói da Guerra de 1812, foi o primeiro populista a entrar na Casa Branca e seu enviado era tudo menos um galã, muito embora de aristocrática família da Virginia. Entrando no Grande Salão do Trono do Palácio de Inverno (o Hermitage), dirigiu-se sem hesitação ao Tzar Nikolau II, deu-lhe uma batidinha nas costas e, num inglês altamente idiomático, perguntou: "Howha'ya King. And how's the Mrs." (algo como: "Que tal meu chapa! E como vai a madama?..."). A história não conta qual foi a reação do austero, tenebroso e disciplinado Autocrata de Todas as Rússias.

É dessa época, aliás, que data o alastramento do denominado spoils system, o sistema de despojos ou partilha do "espólio" do (partido) vencido, tendo sido o próprio termo usado pela primeira vez em 1832. Figura semelhante foi nosso Assis Chateaubriand que JK nomeou para Londres, em recompensa do apoio recebido dos "Diários Associados". Um embaixador americano no Rio, ao terminar a guerra, era um fabricante de isqueiros que pretendia fazer reclame dos produtos de sua indústria... Seu antecessor, James Byrne, político de prestígio e influência ao tempo de Roosevelt, meteu-se onde não devia e suas declarações favoráveis à redemocratização desagradaram ao presidente Vargas e contribuíram indiretamente para a queda do ditador, outubro de 1945. A politicagem tem seu preço e nós o pagamos.