| Volto
novamente ao triste tema do “empobrecimento”,
teimosamente repetido em virtude de um vício
demagógico do qual os políticos,
ou os que ambicionam entrar para a política
ou fazer política, não conseguem
se abster. Em sua recente viagem à África,
o eminente e preclaro Presidente da República
mais uma vez falou em “empobrecimento”
que, segundo ele, seria o resultado da Globalização.
Ora, creio ser necessário mais uma vez
corrigir o falso conceito que, de modo algum,
é sustentado em cifras concretas. Recorro,
novamente, aos índices revelados pela instituição
imperativamente obrigada a fornecer os resultados
mais corretos e objetivos possíveis, sem
preocupações ideológicas:
o Banco Mundial. No Relatório deste ano,
baseado em dados de 2000 e 2001, o WB assinala
que o PIB do Moçambique cresceu 14%, com
um aumento líquido do percapita de 11,5%
(PIB menos crescimento demográfico). Em
outras palavras, Moçambique é um
país exemplar em matéria de enriquecimento,
após o período desastroso de guerra
civil e fome que o devastou. Angola cresceu pouco,
2,1%, mal dando para compensar o aumento populacional
considerável. Trinta anos de guerra civil
foram causados pela intervenção
predatória de mercenários cubanos
a soldo da União Soviética. Quanto
à África do Sul, e não obstante
os achaques do fim da apartheid e adaptação
às novas condições de convivência
étnica, política e econômica,
verifica-se que seu PIB de US$472 bilhões
e percapita de onze mil dólares torna o
país um paradigma para todo o malsinado
continente. Neste sentido, me cabe prestar homenagens
aos dois grandes líderes e heróis
africanos, Jonas Savimbi e Nelson Mandela.
De qualquer forma, em nenhuma das
nações citadas e visitadas por nosso
sábio, simpático e loquaz Presidente,
existe qualquer sinal de empobrecimento da população.
O fato é que o enriquecimento, este sim,
é a condição normal de qualquer
população que viva em paz, sob um
regime liberal democrático de economia
de mercado e um vigoroso Estado de Direito (rule
of law, em inglês). A Globalização
desses sistemas, inclusive nas duas mais populosas
nações do mundo, China e Índia
que apresentam um crescimento bi-anual médio,
respectivamente de 7.3% e 5.4% da renda percapita,
depõe em favor dos efeitos positivos da
abertura das respectivas economias, aumento do
comércio internacional, respeito ao direito
de propriedade e liberdade empresarial, no processo
global atualmente registrado. Em suma, não
há empobrecimento, só há
enriquecimento. E que me perdoem os não
concordam com essa opinião, ou por ignorância,
ou por preconceitos teológico-ideológicos
ou, simplesmente, por burrice – eu reitero
que a tese é inabalável e desafio
a quem pretenda desmenti-la. Para fortalecimento
de minha posição, quero recomendar
aos leitores o admirável ENSAIO SOBRE A
POBREZA, que acaba de ser publicado pela editora
da UniverCidade no Rio de Janeiro. Trata-se da
tradução de um pequeno Mémoire,
escrito por Aléxis de Tocqueville em 1835
após uma viagem à Inglaterra. Torcqueville,
o maior sociólogo francês, deixou-nos
duas obras-primas, DE LA DÉMOCRATIE EM
AMÉRIQUE e L´ANCIEN RÉGIME
ET LA RÉVOLUTION FRANÇAISE, que
são evidentemente muito mais conhecidos
e que o tornaram uma figura singular nas letras
e na ciência francesas. O pequeno Ensaio,
traduzido e publicada no Rio, está acompanhado
de cinco trabalhos de análise crítica
de Gertrude Himmelfarb, historiadora americana;
André Andrade, economista; Mário
Guerreiro e Ricardo Vélez Rodriguez, filósofos;
Arno Wehling, Presidente do IHGB, assim como de
minha Apresentação do livro. Os
comentários críticos procuram destacar
a tese do eminente pensador francês numa
perspectiva brasileira. O traço fundamental
do Paradoxo é logo explicitado no Mémoire
sur le Paupérisme quando diz Tocqueville:
“Quando cruzamos os vários países
da Europa, ficamos surpresos com uma visão
extraordinária e, aparentemente, inexplicável.
Os países que parecem ser os mais pobres
são aqueles que, na realidade, têm
menos indigentes, enquanto que, entre os povos
mais admirados por sua opulência, parte
da população é obrigada a
contar com doações dos outros para
poder sobreviver”. O que o impressionou
pode ser imediatamente ilustrado no longo artigo
do ESTADÃO, comparando o mais rico município
da capital paulista com o mais paupérrimo
do Maranhão. É na cidade mais “opulenta”
do Brasil, e não no Maranhão, que
encontramos favelas, mendigos nas ruas e criminalidade
crescente, junto com o escandaloso contraste entre
ricos e pobres que leva os tolos a falar em “empobrecimento”.
Na verdade, o diagnóstico correto se deduz
da comparação entre a riqueza da
Inglaterra, com seus inevitáveis contrastes
e desigualdades circunstanciais, e a pobreza da
Espanha e Portugal – que eram o Piorão
da Europa ocidental daquela época.
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