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Alguns recentes acontecimentos internacionais
foram testemunhos de extraordinária exibição
de impostura. Não que esteja a desfaçatez
sempre ausente da diplomacia: ela pode, por definição,
configurar o uso polido da mentira e da hipocrisia
quando a fragilidade humana transforma os fariseus,
na frase de Cristo, em sarcófagos pintados
de branco. Vejam as ocorrências resultantes
da famosa Resolução 1.441 do Conselho
de Segurança (CS) da ONU.
No austero cenário de seu mais alto órgão,
encarregado da manutenção da paz
e da segurança, o debate revelou vergonhosos
exemplos de divergências, encobertas por
atitudes hipócritas. A Rússia quer
receber de volta os bilhões emprestados
a Saddam; a França, concessões petrolíferas
para a ELF; a Alemanha, a continuação
de um comércio altamente proveitoso quando
sofrem o país e o socialismo de triste
desgaste. Putin, Chirac e Schröder simplesmente
querem reduzir a presença militar americana
na Europa, a fim de realizar o velho sonho de
De Gaulle de uma segunda superpotência para,
com a China, reequilibrar o Planeta num sistema
tripolar.
As criancinhas famintas iraquianas despertaram
os "corações sangrando"
(bleeding hearts) do mundo inteiro, não
obstante o espetáculo escandaloso de dúzias
de opulentíssimos palácios saddamitas,
muito kitsch e repletos de caixas de armários
e cofres com US$ 600 milhões em notas verdinhas
- mais do que suficientes para custear o programa
petróleo-alimentos do generoso secretário-geral
Kofi Annan, com algumas migalhas de sobra para
nosso "Fome Zero"... Por ventura teria
algo sumido nos bolsos do funcionalismo onusiano?
E o que dizer da hipocrisia dos media nova-iorquinos
e washingtonianos, para não falar dos parisienses,
cariocas, paulistas e gaúchos, incoercíveis
em seu ímpeto de lançar a maior
quantidade de lama contra o ventilador da opinião
pública mundial?
Tenho o maior respeito e apreço pelo senhor
Fernando Henrique Cardoso.
Duvido, porém, que a sugestão contida
em recente artigo de S. Exa. de um lugar permanente
para o Brasil no CS da ONU corrija seu "comportamento
vacilante" e evite o "retrocesso à
lei do mais forte" e "a um estado de
natureza pré-hobbesiano", provocados,
segundo insinua, pela intervenção
americana no Iraque. A cruenta intervenção
aliada contra a Sérvia na Bósnia
e Kosovo, em 1999, em que pese a inexistência
de legitimidade após o veto russo no Conselho,
não provocou qualquer objeção
da diplomacia brasileira quando, na época,
exercia S. Exa., lúcida e eficientemente,
a Presidência do País.
Mais perto de nós, outro tipo de hipocrisia
aguça nossa atenção. Servi
outrora na Terceira Comissão da Assembléia-Geral
da ONU, especializada em assuntos de direitos
humanos, e nela pude apreciar como delegados sauditas,
iraquianos, argelinos, sírios, líbios,
etc. se esmeravam por defender, obsessiva e vibrantemente,
ideais democráticos, igualdade dos direitos
da mulher, abolição do tráfico
de escravos, liberdade de pensamento e outras
elevadas conquistas da Humanidade que seus respectivos
governos, flagrantemente, violam. A atual Comissão
dos Direitos Humanos é presidida pela Líbia.
Será ela magnífico exemplo de nação
progressista, liberal e humanitária, mesmo
considerando haver sido o coronel Kadafi quem
mandou explodir um Boeing 747 em Lockerbie, na
Escócia, matando 280 civis, simples pecadilho
desse grande homem, notório pela austeridade
de sua postura?
Seriam Fidel e Chávez admiráveis
humanistas?
Nosso próprio relacionamento com esses
caritativos líderes libertadores cresce
em importância e, na aludida Comissão,
o delegado brasileiro absteve-se no caso de Cuba.
Não seria verdade, contudo, que o fidelíssimo
ditador tenha fuzilado 12.003 opositores contra
el paredón, que outros milhares se afogaram
no Caribe e milhões faleceram na Etiópia,
em Moçambique e Angola como resultado da
intervenção de suas forças
mercenárias nas respectivas guerras civis?
Entretanto, o que pretendeu o embaixador brasileiro
em sua "Declaração de Voto"
não foi condenar Cuba, mas dirigir algumas
estocadas sutis aos EUA. Criticou "embargos
econômicos sem respaldo multilateral"
- tema que não se encontrava na ordem do
dia, mas se esqueceu que embargo é ato
de soberania e nunca necessitou de concordância
multilateral. Aliás, foi esse o caso, na
época, do embargo brasileiro contra a África
do Sul a pretexto de combate ao apartheid. O mais
sibilino golpe de florete foi a referência
à "nossa posição contrária
à pena de morte" - confundindo na
mesma censura a pena capital que, em alguns dos
Estados Unidos, atinge legalmente os criminosos
hediondos com a execução, em Cuba,
de civis politicamente incorretos pelo fato de
preferirem o "inferno" capitalista da
Flórida ao "paraíso socialista"
da ilha carcerária. E viva a transparência,
a veracidade e a sinceridade!
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