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Creta e um outro Tsunami

 
 
     

Jornal da Tarde 12 de maio de 2003
Hipocrisia

 
 

Alguns recentes acontecimentos internacionais foram testemunhos de extraordinária exibição de impostura. Não que esteja a desfaçatez sempre ausente da diplomacia: ela pode, por definição, configurar o uso polido da mentira e da hipocrisia quando a fragilidade humana transforma os fariseus, na frase de Cristo, em sarcófagos pintados de branco. Vejam as ocorrências resultantes da famosa Resolução 1.441 do Conselho de Segurança (CS) da ONU.

No austero cenário de seu mais alto órgão, encarregado da manutenção da paz e da segurança, o debate revelou vergonhosos exemplos de divergências, encobertas por atitudes hipócritas. A Rússia quer receber de volta os bilhões emprestados a Saddam; a França, concessões petrolíferas para a ELF; a Alemanha, a continuação de um comércio altamente proveitoso quando sofrem o país e o socialismo de triste desgaste. Putin, Chirac e Schröder simplesmente querem reduzir a presença militar americana na Europa, a fim de realizar o velho sonho de De Gaulle de uma segunda superpotência para, com a China, reequilibrar o Planeta num sistema tripolar.

As criancinhas famintas iraquianas despertaram os "corações sangrando" (bleeding hearts) do mundo inteiro, não obstante o espetáculo escandaloso de dúzias de opulentíssimos palácios saddamitas, muito kitsch e repletos de caixas de armários e cofres com US$ 600 milhões em notas verdinhas - mais do que suficientes para custear o programa petróleo-alimentos do generoso secretário-geral Kofi Annan, com algumas migalhas de sobra para nosso "Fome Zero"... Por ventura teria algo sumido nos bolsos do funcionalismo onusiano?
E o que dizer da hipocrisia dos media nova-iorquinos e washingtonianos, para não falar dos parisienses, cariocas, paulistas e gaúchos, incoercíveis em seu ímpeto de lançar a maior quantidade de lama contra o ventilador da opinião pública mundial?

Tenho o maior respeito e apreço pelo senhor Fernando Henrique Cardoso.
Duvido, porém, que a sugestão contida em recente artigo de S. Exa. de um lugar permanente para o Brasil no CS da ONU corrija seu "comportamento vacilante" e evite o "retrocesso à lei do mais forte" e "a um estado de natureza pré-hobbesiano", provocados, segundo insinua, pela intervenção americana no Iraque. A cruenta intervenção aliada contra a Sérvia na Bósnia e Kosovo, em 1999, em que pese a inexistência de legitimidade após o veto russo no Conselho, não provocou qualquer objeção da diplomacia brasileira quando, na época, exercia S. Exa., lúcida e eficientemente, a Presidência do País.

Mais perto de nós, outro tipo de hipocrisia aguça nossa atenção. Servi outrora na Terceira Comissão da Assembléia-Geral da ONU, especializada em assuntos de direitos humanos, e nela pude apreciar como delegados sauditas, iraquianos, argelinos, sírios, líbios, etc. se esmeravam por defender, obsessiva e vibrantemente, ideais democráticos, igualdade dos direitos da mulher, abolição do tráfico de escravos, liberdade de pensamento e outras elevadas conquistas da Humanidade que seus respectivos governos, flagrantemente, violam. A atual Comissão dos Direitos Humanos é presidida pela Líbia. Será ela magnífico exemplo de nação progressista, liberal e humanitária, mesmo considerando haver sido o coronel Kadafi quem mandou explodir um Boeing 747 em Lockerbie, na Escócia, matando 280 civis, simples pecadilho desse grande homem, notório pela austeridade de sua postura?
Seriam Fidel e Chávez admiráveis humanistas?
Nosso próprio relacionamento com esses caritativos líderes libertadores cresce em importância e, na aludida Comissão, o delegado brasileiro absteve-se no caso de Cuba. Não seria verdade, contudo, que o fidelíssimo ditador tenha fuzilado 12.003 opositores contra el paredón, que outros milhares se afogaram no Caribe e milhões faleceram na Etiópia, em Moçambique e Angola como resultado da intervenção de suas forças mercenárias nas respectivas guerras civis? Entretanto, o que pretendeu o embaixador brasileiro em sua "Declaração de Voto" não foi condenar Cuba, mas dirigir algumas estocadas sutis aos EUA. Criticou "embargos econômicos sem respaldo multilateral" - tema que não se encontrava na ordem do dia, mas se esqueceu que embargo é ato de soberania e nunca necessitou de concordância multilateral. Aliás, foi esse o caso, na época, do embargo brasileiro contra a África do Sul a pretexto de combate ao apartheid. O mais sibilino golpe de florete foi a referência à "nossa posição contrária à pena de morte" - confundindo na mesma censura a pena capital que, em alguns dos Estados Unidos, atinge legalmente os criminosos hediondos com a execução, em Cuba, de civis politicamente incorretos pelo fato de preferirem o "inferno" capitalista da Flórida ao "paraíso socialista" da ilha carcerária. E viva a transparência, a veracidade e a sinceridade!