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A verdade, ela não é
barata em política! Ética e política
não bem se coadunam, como bem constatou
Maquiavel. Política é mais uma arte
do que uma moral e Bismarck a definiu como "a
arte do possível". Pior ainda em diplomacia
e política internacional, eis que os dirigentes
não são obrigados à franqueza
por razões de soberania. Puritanos, os
ingleses sempre tiveram o cuidado em não
mentir, embora, quando necessário, encobriram
a verdade de tal jeito que o país adquiriu
o título de "pérfida Albion".
No entanto, assistida por seu "esplêndido
isolamento" insular, a Grã-Bretanha
foi o principal instrumento do Equilíbrio
Europeu, frustrando durante 500 anos o surgimento
de um império continental opressor e absolutista
e derrotando sucessivamente Felipe II de Espanha,
Luís XIV e Napoleão; Guilherme II
e Hitler e os Czares da Rússia, a Santa
e a soviética. Mestres no jogo da Realpolitik,
conseguiram promover os ideais da democracia liberal
em que a sinceridade e veracidade se tornam prementes,
por força do papel decisório da
opinião pública livre e bem informada.
Seguindo na mesma trilha, pouco a pouco se transformaram
os americanos em gendarmes universais - agindo
com diplomacia e, ocasionalmente, um poder militar
esmagador, sempre revelando seus desígnios
com certa franqueza, às vezes brutal, outras
vezes ingênua.
A crise do momento ilustra o problema levantado.
Ele é grave não somente porque a
sociedade aberta ocidental enfrenta um inimigo
arguto, fraco porém altamente perigoso
em virtude das armas não convencionais
que usa e da natureza semi-religiosa do conflito.
Quando Bush declarou uma "cruzada" contra
o terrorismo após o 11 de Setembro, foi
criticado pela gafe cometida.
Ora, são os próprios terroristas
que declararam Jihad, a "guerra santa".
Donde a questão da verdade do que se passa.
Repito a pergunta de Pilatos a Cristo no Pretório,
feita com ceticismo e ar de brincadeira: "O
que é a verdade?" E foi-se sem esperar
pela resposta (Numa famosa paráfrase de
Francis Bacon, a questão do cínico
e experimentado político fora: "What
is truth? Said jesting Pilate; and would not stay
for an answer")... Vou então fazer
algumas perguntas similares e podem os leitores
montar no cavalo alado do Mafoma e voar até
a Esplanada do Templo de Salomão, em Jerusalém,
para de Allah receber o Corão, ou se ausentarem
sem esperar a resposta...
1) Está Saddam Hussein mentindo sobre as
famosas "armas de destruição
em massa"? Que atitude e riscos toma um ditador
árabe, absolutamente desprovido de escrúpulos,
perante os critérios de comprovação
exigidos numa sociedade ocidental, aberta, liberal,
democrática e submissa à crítica
da opinião pública?
2) Em contraposição, que valor possui
a imaginação pitoresca, para não
dizer paranóica, estilo 1001 Noites, para
um povo pobre, oprimido, ressentido, tradicionalista,
desinformado e fanatizado por um misto de religiosidade
e ideologia nacional-socialista?
3) Não são hoje os EUA a potência
hegemônica? Na realidade, relativamente
menos poderosos do que já foram, pois,
em 1945, ao término da Segunda Guerra Mundial,
dispunham de 12 milhões de soldados, a
única frota de guerra existente, o domínio
aéreo, 50% do PIB mundial e a arma absoluta,
incontrastável, a bomba atômica.
O Império mundial apresentava-se-lhes escancarado
à eventual cobiça. Ao invés,
trouxeram de volta os soldadinhos para o Natal
(let s bring the boys home for Xmas...), entregaram
a Europa oriental a Stalin; deram independência
às Filipinas; deixaram os maoístas
conquistar a China; reconstruíram a Europa
com o Plano Marshall; criaram dois novos e potentes
aliados com os ex-inimigos Alemanha e Japão
e - não obstante o incontrastável
poder - esperaram o comunismo cair de podre com
a política de contenção durante
a guerra fria.
4) Não é verdade então que,
se não fosse a América, seria hoje
o mundo inteiro totalitário, ou nazista
ou comunista? Não sei se franceses, alemães
e belgas sabem disso e creio que os brasileiros
não nos damos conta de qual teria sido
nossa sorte em 1935, em 1938/40 e em 1962/64 não
dominasse Tio Sam o ar e os mares...
5) Pergunta final. Hoje, é o PIB americano
de US$ 10 trilhões, entre um terço
e um quinto do PIB mundial, e sete outras nações
possuem armamento atômico. O "Império"
está sujeito a um consenso crítico,
interno e externo... Se invadir o Iraque e não
enfrentar armas de destruição em
massa, vencerá em três dias, mas
desmoralizará Bush para uma reeleição.
Se encontrar tais armas, confirmando suas denúncias,
corre o risco de sofrer um número considerável
de baixas num confronto geral com o Islã.
No jogo de pôquer, ninguém sabe qual
dos dois tem o trunfo maior. Não é
ele o jogo da verdade e da mentira?
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