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Creta e um outro Tsunami

 
 
     

Jornal da Tarde 17 de fevereiro de 2003
O que é então a verdade?

 
 

A verdade, ela não é barata em política! Ética e política não bem se coadunam, como bem constatou Maquiavel. Política é mais uma arte do que uma moral e Bismarck a definiu como "a arte do possível". Pior ainda em diplomacia e política internacional, eis que os dirigentes não são obrigados à franqueza por razões de soberania. Puritanos, os ingleses sempre tiveram o cuidado em não mentir, embora, quando necessário, encobriram a verdade de tal jeito que o país adquiriu o título de "pérfida Albion". No entanto, assistida por seu "esplêndido isolamento" insular, a Grã-Bretanha foi o principal instrumento do Equilíbrio Europeu, frustrando durante 500 anos o surgimento de um império continental opressor e absolutista e derrotando sucessivamente Felipe II de Espanha, Luís XIV e Napoleão; Guilherme II e Hitler e os Czares da Rússia, a Santa e a soviética. Mestres no jogo da Realpolitik, conseguiram promover os ideais da democracia liberal em que a sinceridade e veracidade se tornam prementes, por força do papel decisório da opinião pública livre e bem informada. Seguindo na mesma trilha, pouco a pouco se transformaram os americanos em gendarmes universais - agindo com diplomacia e, ocasionalmente, um poder militar esmagador, sempre revelando seus desígnios com certa franqueza, às vezes brutal, outras vezes ingênua.
A crise do momento ilustra o problema levantado. Ele é grave não somente porque a sociedade aberta ocidental enfrenta um inimigo arguto, fraco porém altamente perigoso em virtude das armas não convencionais que usa e da natureza semi-religiosa do conflito. Quando Bush declarou uma "cruzada" contra o terrorismo após o 11 de Setembro, foi criticado pela gafe cometida.
Ora, são os próprios terroristas que declararam Jihad, a "guerra santa".
Donde a questão da verdade do que se passa. Repito a pergunta de Pilatos a Cristo no Pretório, feita com ceticismo e ar de brincadeira: "O que é a verdade?" E foi-se sem esperar pela resposta (Numa famosa paráfrase de Francis Bacon, a questão do cínico e experimentado político fora: "What is truth? Said jesting Pilate; and would not stay for an answer")... Vou então fazer algumas perguntas similares e podem os leitores montar no cavalo alado do Mafoma e voar até a Esplanada do Templo de Salomão, em Jerusalém, para de Allah receber o Corão, ou se ausentarem sem esperar a resposta...
1) Está Saddam Hussein mentindo sobre as famosas "armas de destruição em massa"? Que atitude e riscos toma um ditador árabe, absolutamente desprovido de escrúpulos, perante os critérios de comprovação exigidos numa sociedade ocidental, aberta, liberal, democrática e submissa à crítica da opinião pública?
2) Em contraposição, que valor possui a imaginação pitoresca, para não dizer paranóica, estilo 1001 Noites, para um povo pobre, oprimido, ressentido, tradicionalista, desinformado e fanatizado por um misto de religiosidade e ideologia nacional-socialista?
3) Não são hoje os EUA a potência hegemônica? Na realidade, relativamente menos poderosos do que já foram, pois, em 1945, ao término da Segunda Guerra Mundial, dispunham de 12 milhões de soldados, a única frota de guerra existente, o domínio aéreo, 50% do PIB mundial e a arma absoluta, incontrastável, a bomba atômica. O Império mundial apresentava-se-lhes escancarado à eventual cobiça. Ao invés, trouxeram de volta os soldadinhos para o Natal (let s bring the boys home for Xmas...), entregaram a Europa oriental a Stalin; deram independência às Filipinas; deixaram os maoístas conquistar a China; reconstruíram a Europa com o Plano Marshall; criaram dois novos e potentes aliados com os ex-inimigos Alemanha e Japão e - não obstante o incontrastável poder - esperaram o comunismo cair de podre com a política de contenção durante a guerra fria.
4) Não é verdade então que, se não fosse a América, seria hoje o mundo inteiro totalitário, ou nazista ou comunista? Não sei se franceses, alemães e belgas sabem disso e creio que os brasileiros não nos damos conta de qual teria sido nossa sorte em 1935, em 1938/40 e em 1962/64 não dominasse Tio Sam o ar e os mares...
5) Pergunta final. Hoje, é o PIB americano de US$ 10 trilhões, entre um terço e um quinto do PIB mundial, e sete outras nações possuem armamento atômico. O "Império" está sujeito a um consenso crítico, interno e externo... Se invadir o Iraque e não enfrentar armas de destruição em massa, vencerá em três dias, mas desmoralizará Bush para uma reeleição. Se encontrar tais armas, confirmando suas denúncias, corre o risco de sofrer um número considerável de baixas num confronto geral com o Islã. No jogo de pôquer, ninguém sabe qual dos dois tem o trunfo maior. Não é ele o jogo da verdade e da mentira?