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Para se entender a situação
internacional é necessário um conhecimento
suficiente de eventos passados e da complexidade
dos relacionamentos entre as potências ativas
no jogo de poder. Em 1939, por exemplo, a Alemanha
nazista e a Rússia stalinista assinaram
o acordo Molotov-Ribbentrop que lhes facultou
a partilha da Polônia, a forçada
integração dos países bálticos
à URSS, o ataque à Finlândia
e a possibilidade de a Wehrmacht, oito meses depois,
conquistar a França e erguer contra a Inglaterra,
último bastião de liberdade na Europa,
uma ameaça mortal. Entretanto, quando foi
a URSS invadida em 1941, Churchill, o mais tenaz
líder conservador britânico, imediatamente
proporcionou apoio integral a Stalin que Roosevelt
reiterou.
Desencadeada para defender a Polônia, a
guerra terminou com a integração
desse mesmo país ao império comunista,
enquanto a Europa ocidental era libertada pelos
americanos que, em 1945, dispunham da arma nuclear
absoluta, 50% do PIB mundial e 12 milhões
de soldados. No entanto, diante da passividade
isolacionista do rival e em extraordinária
demonstração maquiavélica,
Stalin, responsável por um maior número
de vítimas do que Hitler, se apossou da
metade do continente - a qual só 45 anos
mais tarde se libertaria graças, novamente,
ao poder americano vitorioso na guerra fria.
Se há, por conseguinte, uma nação
à qual deve o mundo a liberdade e a democracia,
essa nação, paradigma global, é
a América.
O declínio do império soviético
começou com a invasão do Afeganistão
em 1979 e terminou, após 10 anos de fracasso,
com o abandono da aventura que causou 1 milhão
de vítimas. Durante todo esse tempo, jamais
ouvi falar em manifestações pacifistas
de protesto em qualquer cidade do mundo livre;
nem mesmo o papa, notório inimigo do comunismo,
fez qualquer declaração sobre o
episódio. Os afegãos haviam resistido
com o armamento fornecido pelos americanos. Muitos
"resistentes" foram armados pelos EUA
- Osama bin Laden, por exemplo. No jogo complexo
de equilíbrio de poder há esses
paradoxos que muita gente, ignorante, ou ingênua,
ou tendenciosa, não consegue perceber.
Saddam Hussein não foi derrubado após
a Guerra do Golfo porque contrabalançava
os fanáticos aiatolás iranianos.
No poder há mais de 30 anos, esse verdadeiro
protótipo do gângster internacional
é responsável por quatro guerras.
A repressão da minoria curda com gases
venenosos, a invasão do Kuwait e o conflito
com o Irã (1980/88) teriam causado mais
de 1 milhão de mortes. Nessa luta, para
resistir a Saddam e à superioridade de
seu armamento soviético, os aiatolás,
que haviam desmontado seu próprio exército,
recorreram a meios heróicos como o de mandar
batalhões de crianças para estourar
com os pés os campos de minas - admirável
de ingenuidade, não acham? E não
só Israel alega haver destruído
um reator nuclear iraquiano em 1981, como leio
em obras de físicos americanos publicadas
da década passada, sobre seus esforços
para desenvolver a arma atômica.
O propósito de Saddam é recriar
um sultanato árabe naquela que foi a antiga
metrópole do Islã, Bagdá.
Incidentalmente, o último grande herói
da Jihad islâmica às Cruzadas não
foi um árabe, mas um curdo, o nobre e cavalheiresco
Saladino (+1193) que reconquistou Jerusalém
e venceu Ricardo Coração de Leão,
rei da Inglaterra. Estas recordações
históricas parecem irrelevantes, mas são
até hoje influentes na mente dos que sonham
com uma Guerra Santa contra o Ocidente moderno.
Curiosamente, repito que em todos os recentes
episódios sangrentos de terrorismo nunca
li sobre manifestações pacifistas
na Europa e na América, nem tampouco sobre
qualquer alto funcionário da ONU que houvesse
reclamado pela violação dos direitos
humanos ou morte de civis inocentes. Quando 3
mil pereceram em Nova York a 11 de setembro 2001,
não houve arruaças ou bandeiras
árabes queimadas em qualquer cidade francesa,
alemã ou brasileira - nem pacifistas saíram
às ruas para gritar "façam
amor, não façam guerra!" E
quando 100 australianos foram explodidos em Bali
há alguns meses, não ouvi falar,
salvo na Austrália, de qualquer expressão
de indignação justiceira ou expressão
de ímpetos pacifistas para os cultores
da receita de paz-e-amor. Nem o presidente do
Brasil deu um pio sequer. A Realpolitik do poder
é cega - e vê-se que a memória
histórica, em parte da Europa ocidental,
é tão curta quanto aquela de que
somos, os brasileiros, acusados de sofrer. Os
sentimentos de compaixão e justiça
distributiva do povaréu esquerdizóide
são igualmente muito discriminatórios
e sua cegueira é bastante diferente da
que cobre os olhos da estátua de Dikê,
em frente aos tribunais. Quanto à bandeira
que desfraldam não é branca, é
vermelha - não se iludam.
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