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Jornal da Tarde 18 de agosto de 2003
Sobre o Iraque e o antiamericanismo

 
 

guerra do Iraque representou um divisor nas turbulentas águas da opinião pública mundial. Um motivo seria sem dúvida, como observou um gaiato, que tão depressa se revelou a espantosa superioridade da tecnologia militar americana que a guerra terminou antes que se soubesse por que havia começado. A charada exacerbou, entretanto, os sentimentos antiamericanos, mas particularmente em nossa terra (Veja da semana passada). Quero aqui fazer referência ao deplorável artigo do dr. Ives Gandra Martins no JT de 4 do corrente. Não só avança uma série de falsas suposições, mas, ao acusar Bush de mentiroso, acredito que esteja cometendo uma incorreção semelhante.

Desafio meu preclaro amigo e muito admirado professor a provar sua alegação que o ataque contra Saddam se realizou "contra a decisão da ONU". Que decisão? A ONU não toma decisões. Seu Conselho de Segurança só pode exarar "Resoluções" e a única relativa ao caso foi a de nº 1.441 que exigia do Iraque o desarmamento total. Longe, por conseguinte, de lhe contrariar a vontade, os EUA cumpriram os propósitos onusianos de impor a paz e segurança na área, após os milhões de mortos de que foi Saddam responsável nos últimos 20 anos. Incidentalmente, o brilhante causídico é o mais notável membro brasileiro da Opus Dei e, nesse sentido, esperaria fosse solidário do mais notável e brilhante membro espanhol dessa sociedade, o primeiro-ministro Aznar, o qual se revelou o mais fiel aliado de Bush.

Não vou aqui discorrer sobre as misteriosas causas da colocação do Brasil como o país ocidental em que mais virulento seria o antiamericanismo. Em outras ocasiões tenho-me referido, perplexo, a essa insistência em nos incluir no famoso Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano. Ela apenas depõe contra o nível de inteligência, informação e coerência lógica de nossa mentalidade coletiva. Pois afinal de contas não somos o país que pretende fazer opção preferencial pelos pobres quando deveria fazê-lo pela riqueza no desenvolvimento? Não registramos uma das mais vergonhosas taxas de escolaridade e qualidade de vida entre as grandes nações modernas? Não somos o único em que ainda sobrevivem comteanos, alankardecistas e fanáticos debatedores quanto aos méritos respectivos de Stalin e Trotsky? Não torcemos por Che Guevara, Fidel, Chávez e Kim Nãoseiquantos, o mais novo detentor da bombinha nuclear? Mais surpreendente ainda é a admiração que, nos mídia e círculos sadamitas da intelectuária tupiniquim, granjeou, como se fosse admirável democrata, esclarecido estadista e benfeitor da humanidade um dos piores energúmenos da época, o progenitor dos falecidos Usay e Qusay.

Mas, enfim, por que Bush atacou o Iraque? Já muito tenho lido em periódicos americanos e europeus a respeito e me dei conta que a melhor explicação foi simplesmente a oferecida por Blair. A coalizão anglo-americana não visou a Coréia do Norte, o Irã dos aiatolás, o Iêmen ou o Paquistão, onde provavelmente se esconde Bin Laden, mas o Iraque, "porque podemos", disse Blair. O problema consistia, nem mais nem menos, do que persuadir todos os fundamentalistas muçulmanos e, particularmente, os árabes que possuem os EUA um poder irresistível e perseguirão todos os terroristas até eliminá-los na mais recôndita caverna de Ali Babá. Em gente tão desprovida de realismo e racionalidade, é necessário apresentar uma prova ofuscante, incontrovertida, que, por mais que possam usar métodos não convencionais, derrubar torres gêmeas, seqüestrar aviões, assassinar turistas inocentes, arrebentar hotéis de luxo e reclamar a assistência de Alá na Jihad, nada disso promete qualquer esperança de realizar um bem-sucedido esquema geopolítico. Sendo a nação militarmente mais avançada na área, mais pluralista (sunitas, xiitas, curdos e cristãos) e, geralmente, mais detestada, servia o Iraque, admiravelmente, para uma lição em regra de bom comportamento. Com o fim de Saddam, acabam quaisquer veleidades de recriar uma espécie de moderno califado de Bagdá que possa controlar mais de 50% da produção mundial de petróleo, determinar o preço do barril, possuir armas de destruição em massa e servir de quartel-general catalisador do poder global do Islamismo predatório. Adeus, Napoleão de Maomé!

Numa etapa de desenvolvimento em que o petróleo (essa dádiva de Alá!) está em vias de declínio como fonte máxima de energia e em que pesem os tolos argumentos de Monsieur Emmanuel Todd, que não poderia mesmo ser senão jornalista francês (Estadão, 10/8, pág. D7), Bush demonstrou com clareza brutal que qualquer desafio ao emergente papel dos EUA como "gendarme" do mundo será punido de modo exemplar, e por qualquer meio na região glútea. Em suma, a operação no Iraque foi um simples aviso aos navegantes imprudentes:

Pensem bem antes de recorrer à lâmpada de Aladim!