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guerra do Iraque representou um divisor nas turbulentas
águas da opinião pública
mundial. Um motivo seria sem dúvida, como
observou um gaiato, que tão depressa se
revelou a espantosa superioridade da tecnologia
militar americana que a guerra terminou antes
que se soubesse por que havia começado.
A charada exacerbou, entretanto, os sentimentos
antiamericanos, mas particularmente em nossa terra
(Veja da semana passada). Quero aqui fazer referência
ao deplorável artigo do dr. Ives Gandra
Martins no JT de 4 do corrente. Não só
avança uma série de falsas suposições,
mas, ao acusar Bush de mentiroso, acredito que
esteja cometendo uma incorreção
semelhante.
Desafio meu preclaro amigo e muito admirado professor
a provar sua alegação que o ataque
contra Saddam se realizou "contra a decisão
da ONU". Que decisão? A ONU não
toma decisões. Seu Conselho de Segurança
só pode exarar "Resoluções"
e a única relativa ao caso foi a de nº
1.441 que exigia do Iraque o desarmamento total.
Longe, por conseguinte, de lhe contrariar a vontade,
os EUA cumpriram os propósitos onusianos
de impor a paz e segurança na área,
após os milhões de mortos de que
foi Saddam responsável nos últimos
20 anos. Incidentalmente, o brilhante causídico
é o mais notável membro brasileiro
da Opus Dei e, nesse sentido, esperaria fosse
solidário do mais notável e brilhante
membro espanhol dessa sociedade, o primeiro-ministro
Aznar, o qual se revelou o mais fiel aliado de
Bush.
Não vou aqui discorrer sobre as misteriosas
causas da colocação do Brasil como
o país ocidental em que mais virulento
seria o antiamericanismo. Em outras ocasiões
tenho-me referido, perplexo, a essa insistência
em nos incluir no famoso Manual do Perfeito Idiota
Latino-Americano. Ela apenas depõe contra
o nível de inteligência, informação
e coerência lógica de nossa mentalidade
coletiva. Pois afinal de contas não somos
o país que pretende fazer opção
preferencial pelos pobres quando deveria fazê-lo
pela riqueza no desenvolvimento? Não registramos
uma das mais vergonhosas taxas de escolaridade
e qualidade de vida entre as grandes nações
modernas? Não somos o único em que
ainda sobrevivem comteanos, alankardecistas e
fanáticos debatedores quanto aos méritos
respectivos de Stalin e Trotsky? Não torcemos
por Che Guevara, Fidel, Chávez e Kim Nãoseiquantos,
o mais novo detentor da bombinha nuclear? Mais
surpreendente ainda é a admiração
que, nos mídia e círculos sadamitas
da intelectuária tupiniquim, granjeou,
como se fosse admirável democrata, esclarecido
estadista e benfeitor da humanidade um dos piores
energúmenos da época, o progenitor
dos falecidos Usay e Qusay.
Mas, enfim, por que Bush atacou o Iraque? Já
muito tenho lido em periódicos americanos
e europeus a respeito e me dei conta que a melhor
explicação foi simplesmente a oferecida
por Blair. A coalizão anglo-americana não
visou a Coréia do Norte, o Irã dos
aiatolás, o Iêmen ou o Paquistão,
onde provavelmente se esconde Bin Laden, mas o
Iraque, "porque podemos", disse Blair.
O problema consistia, nem mais nem menos, do que
persuadir todos os fundamentalistas muçulmanos
e, particularmente, os árabes que possuem
os EUA um poder irresistível e perseguirão
todos os terroristas até eliminá-los
na mais recôndita caverna de Ali Babá.
Em gente tão desprovida de realismo e racionalidade,
é necessário apresentar uma prova
ofuscante, incontrovertida, que, por mais que
possam usar métodos não convencionais,
derrubar torres gêmeas, seqüestrar
aviões, assassinar turistas inocentes,
arrebentar hotéis de luxo e reclamar a
assistência de Alá na Jihad, nada
disso promete qualquer esperança de realizar
um bem-sucedido esquema geopolítico. Sendo
a nação militarmente mais avançada
na área, mais pluralista (sunitas, xiitas,
curdos e cristãos) e, geralmente, mais
detestada, servia o Iraque, admiravelmente, para
uma lição em regra de bom comportamento.
Com o fim de Saddam, acabam quaisquer veleidades
de recriar uma espécie de moderno califado
de Bagdá que possa controlar mais de 50%
da produção mundial de petróleo,
determinar o preço do barril, possuir armas
de destruição em massa e servir
de quartel-general catalisador do poder global
do Islamismo predatório. Adeus, Napoleão
de Maomé!
Numa etapa de desenvolvimento em que o petróleo
(essa dádiva de Alá!) está
em vias de declínio como fonte máxima
de energia e em que pesem os tolos argumentos
de Monsieur Emmanuel Todd, que não poderia
mesmo ser senão jornalista francês
(Estadão, 10/8, pág. D7), Bush demonstrou
com clareza brutal que qualquer desafio ao emergente
papel dos EUA como "gendarme" do mundo
será punido de modo exemplar, e por qualquer
meio na região glútea. Em suma,
a operação no Iraque foi um simples
aviso aos navegantes imprudentes:
Pensem bem antes de recorrer à lâmpada
de Aladim!
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