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Em seu último romance, escrito pouco antes
de morrer, A Ilha, Aldous Huxley (+1963) propõe
uma espécie de utopia, algo surrealista,
baseada na idéia de que o uso de certas
drogas alucinógenas, acoplado com o misticismo
oriental, compensaria os extremos a que poderia
alcançar uma sociedade industrializada,
totalitária e científica que ele,
pessimisticamente, antecipara em sua famosa distopia,
Brave New World. Huxley estabelecera-se na Califórnia
e ali faleceu. Local e momento foram propícios
a promovê-lo como um dos mais ilustres profetas
da vertente "drogada" dos hippies que,
desencadeando a Revolução Sexual
daquela década, fundamentalmente afetou
a sociedade moderna. Filho de uma família
ilustre de cientistas, o romancista inglês
se havia dedicado ao estudo da mescalina que,
extraída de um cacto mexicano, é
quimicamente semelhantes a hormônios presentes
no ser humano, adrenalina e noradrenalina. A esposa
de Huxley, a escritora italiana Laura, tratou-o
com mescalina no sofrimento do câncer que
mataria o grande pensador.
A menção de Huxley vem a propósito
de duas de suas idéias que poderiam colaborar
para a solução do grave problema
das drogas, hoje na ordem do dia.
A primeira é que se deveria distinguir
as "boas drogas", cujo consumo poderia
ser liberado, e as drogas perigosas e nocivas,
a serem reprimidas.
Na "Ilha" teríamos uma oportunidade
de experimentar as substâncias de valor
positivo. Afinal de contas, as bebidas alcoólicas,
o café e o chá são imemorialmente
usados pelo homem para divertimento, estimulação,
bem-estar ou tratamento da dor ou desconforto,
assim como os diazepínicos, o Prozac e
uma série de outras substâncias com
efeitos sobre o cérebro e o sistema nervoso
- de valor positivo numa sociedade civilizada.
A segunda idéia huxleyana é que,
feita a seleção, o consumo das benéficas
deveria ser liberado. Pelo menos em áreas
específicas, sob controle público.
O problema da liberação da droga
em geral está sendo intensamente investigado
nos EUA e na Europa, e muitas instituições
e setores "libertários" respeitáveis
se têm manifestado favoravelmente a esse
respeito. Mantenho contato em Washington com o
Cato Institute, um dos think-tanks mais prestigiosos
da capital americana, que defende a idéia.
No arrazoado, destaca-se a opinião semelhante
à que levou o governo de F. D.
Roosevelt a repelir a Prohibition em 1933, de
que mais barato e prático é tratar
dos drogados do que combater o tráfico.
Como fonte de criminalidade, corrupção
da polícia e do Judiciário e desintegração
social que provoca, temos hoje o exemplo hediondo
da Colômbia, com crescentes projeções
sobre nosso país. Numa notícia recente,
soube que um especialista em assuntos de segurança
e diretor do Projeto Brasil no Woodrow Wilson
Center, Luís Bitencourt, em Washington,
tem argumentado que o Brasil também faz
hoje parte da "demanda" da droga que
entra pela longa fronteira com a Colômbia
de mais de mil quilômetros de extensão.
A Polícia Federal e as Forças Armadas
estão cada vez mais envolvidas no problema
que afeta diretamente nossa segurança na
Amazônia.
A droga tornou-se assim uma calamidade horrenda
cuja problemática urge enfrentar. Uma das
alternativas propostas e já posta em prática
na Suíça, Países-Baixos e
Índia é estabelecer sítios
determinados sob controle estrito em que seria
o consumo legalizado. É esta idéia
de Huxley que me permito desenvolver como hipótese
de trabalho. A Ilha escolhida para o experimento
seria, no caso, Haiti e digo por quê. Com
uma renda per capita de pouco mais de US$ 500,
sofrendo de perene instabilidade política
e ominoso desastre ecológico, trata-se
da nação mais miserável e
problemática das Américas, merecendo
uma assistência coletiva para lhe melhorar
as perspectivas existenciais. Se fosse possível
transformar Haiti num "paraíso"
libertário da droga, uma imensa população
de viciados para lá se dirigiria. Com a
perspectiva desse novo tipo de "turismo",
o afluxo econômico seduziria o governo local
no sentido de aceitar o risco do experimento.
Como vórtice do consumidor, ele tenderia
a fazer cair o preço das drogas, provocando
a redução drástica do lucro
dos produtores e a bancarrota dos traficantes,
assim solucionando um problema que, na atual conjuntura,
país algum, nem mesmo o mais poderoso do
mundo, consegue alcançar. O drogado teria
a responsabilidade de sua própria saúde
e destino. A autoridade investida no governo democrático
legítimo do Haiti teria o amparo da comunidade
internacional graças ao policiamento das
áreas ocupadas pelos drogados por uma força
internacional da ONU. A parte da saúde
caberia à Organização Mundial
da Saúde. Em suma, a Ilha é uma
utopia. Mas, como lembra o presidente da República,
devemos ser realistas e, ao mesmo tempo, sonhar...
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