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entusiasmo com que hoje se fornica no cinema,
no teatro, nas revistas
e na literatura, dá-nos a impressão
superficial de que se trata de uma
atividade original em nosso velho mundo sub-lunar.
Pensadores sisudos se julgam
forçados, com ar de olímpica simpatia
ancestral e magnânimo sorriso de
aprovação pelas loucuras da galera,
a comentar a avalancha de
cafajestismo vulgar que invade os meios de difusão
de massa. Todo nu num evento
público qualquer é "artístico",
toda obscenidade descrita como "genial"
- desde
que
realizada por um escritor ou cineasta "politicamente
correto", i.é.,
marxista. Vale citar o "provérbio
chinês" de Maritain, "ne prenez
jamas
la
bêtise trop au sérieux" - nunca
leve muito a sério a burrice... O mesmo
de
Schiller: "com a burrice até os deuses
lutam em vão" (Mit der Dummheit
kämpfen Götter selbst vergebens). O
que levou Miguel Reale a chamar a
nossa
de "civilização do orgasmo"
e Olavo de Carvalho a se referir à
Imbecilidade
Coletiva que nos cerca por toda parte.
Acontece que, como as tolices se repetem com insistência,
enfrentemos a
alegação de que o progressivo relaxamento
na exibição de perversão
e
sadismo
é uma conseqüência, mais do
que uma causa, do alastramento da
criminalidade.
Mesmo os cineastas e escritores que, movidos pelos
interesses
ideológicos da
"Nova Esquerda", clamam contra a censura
em nome da "liberdade
artística",
não esquecem sua bolsa capitalista na “pornô”
que invade o mercado. O
sexo é
comercialmente proveitoso! Mas os autores que
se dedicaram ao ramo,
Ovídio,
Apuleio, Bocccaccio, Aretino, Rabelais, Sade,
Choderlos de Laclos - e,
para
citar alguns modernos, Balzac, Flaubert, Zola,
Maupassant, Apollinaire,
Gide, Lawrence, Joyce, Nabokov, Anaïs Nin,
Colette, Henry Miller,
Updike -
nada mais querem provar do que a capacidade real
de estimular os
pruridos da
Libido pela palavra, raras vezes com o talento
do Eça ao colocar,
"sobre a
nudez crua da verdade, o manto diáfano
da fantasia". Teriam escrito
para
"desmistificar" o sexo? Os grandes mestres
talvez, exaltando o amor. Em
alguns casos, divertir-se às custas do
público. Os pequenos, quase
todos os
contemporâneos, não revelam outro
propósito do que a glória prostituída
do
bestseller. Carlos Drummond me parece excessivamente
otimista quando,
em
1982, escreveu: "A obscenidade é tão
velha quanto o mundo, mas a
educação e
o bom gosto a repelem espontaneamente". O
próprio Henry Miller
cansou-se e,
depois de chamar os hippies de vagabundos, deblaterou
contra a
revolução
sexual: "Só se faz sexo... mas sem
amor", para concluir: “Nada podemos
fazer
para mudar o mundo. Ninguém pode. Estamos
nas mãos do Diabo. Deus
sumiu..."
Há um aspecto, porém, que não
nos pode deixar de irritar, é a
contaminação
cafajeste das artes, especialmente cinema e teatro
pelo simples prazer
do
escândalo. Que a versão brasileira
de Sonhos de uma Noite de Verão
contenha
uma cena em que a bela Titania se banha inteiramente
nua, vá lá. Está
no
espírito da comédia e Shakespeare
aceitaria a extravagância. A peça
fez
sucesso em Nova York e recebeu um prêmio.
Mas obrigar Hamlet a estuprar
Ofélia em cena, diante de uma Gertrude
inteiramente bêbada, não me
parece
justificável em que pese a origem britânica
da alteração. O mau gosto
no
escândalo grosseiro irrita profundamente
o burguês que não pretende ser
gentilhomem... É bom que haja reação,
como recentemente no Municipal do
Rio.
Se o produtor de Tristan e Isolda foi vaiado por
seu revisionismo
cretino e
demonstrou irritação, desnudando
o traseiro, que outro produto
poderíamos
esperar dessa parte do corpo?
Tédio, afinal de contas, é o que
descreve Alberto Moravia num de seus
romances de maior sucesso, La Noia (1960), sobre
o relacionamento de um
homem frustrado, solitário e alienado,
com uma ninfômana de dezesete
anos,
quando o sexo de tão repetido, igual e
desprovido de emoção amorosa,
não
resiste ao fastio – a aridez final que parece
conter a própria
Revolução
Sexual dentro de limites insuperáveis.
Freud, em nome de quem toda essa
filosofia de libertação sexual é
defendida, colocou a Censura, emanada
do
Super-Ego, como uma das mais importantes instâncias
psíquicas a levar
em
consideração. Se há Censura,
Gerald Thomas talvez não saiba - é
porque
algo
deve ser censurado. O critério de "arte",
sempre alegado pelos autores
e
produtores licenciosas, é muito relativo,
restando o do "interesse
pruriente" invocado na jurisprudência
americana - e não se vê como
poderá
ser jamais inteiramente eliminado pela sociedade.
É de supor que os
costumes
e a lei irão, progressivamente, moderando,
acostumando e regulamentando
as
novas situações criadas pela profunda
revolução cultural (insisto no
termo),
nesta área tão sensível do
comportamento humano. Mas a coibição
racional do
excesso não deixará jamais de existir.
Nem o próprio tédio, la Noia.
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