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Jornal da Tarde, 24 de novembro de 2003
CONSIDERAÇÕES SOBRE A PORNOGRAFIA

 
 

O entusiasmo com que hoje se fornica no cinema, no teatro, nas revistas e na literatura, dá-nos a impressão superficial de que se trata de uma atividade original em nosso velho mundo sub-lunar. Pensadores sisudos se julgam forçados, com ar de olímpica simpatia ancestral e magnânimo sorriso de aprovação pelas loucuras da galera, a comentar a avalancha de cafajestismo vulgar que invade os meios de difusão de massa. Todo nu num evento público qualquer é "artístico", toda obscenidade descrita como "genial" - desde que realizada por um escritor ou cineasta "politicamente correto", i.é., marxista. Vale citar o "provérbio chinês" de Maritain, "ne prenez jamas la bêtise trop au sérieux" - nunca leve muito a sério a burrice... O mesmo de Schiller: "com a burrice até os deuses lutam em vão" (Mit der Dummheit kämpfen Götter selbst vergebens). O que levou Miguel Reale a chamar a nossa de "civilização do orgasmo" e Olavo de Carvalho a se referir à Imbecilidade Coletiva que nos cerca por toda parte. Acontece que, como as tolices se repetem com insistência, enfrentemos a alegação de que o progressivo relaxamento na exibição de perversão e sadismo é uma conseqüência, mais do que uma causa, do alastramento da criminalidade. Mesmo os cineastas e escritores que, movidos pelos interesses ideológicos da "Nova Esquerda", clamam contra a censura em nome da "liberdade artística", não esquecem sua bolsa capitalista na “pornô” que invade o mercado. O sexo é comercialmente proveitoso! Mas os autores que se dedicaram ao ramo, Ovídio, Apuleio, Bocccaccio, Aretino, Rabelais, Sade, Choderlos de Laclos - e, para citar alguns modernos, Balzac, Flaubert, Zola, Maupassant, Apollinaire, Gide, Lawrence, Joyce, Nabokov, Anaïs Nin, Colette, Henry Miller, Updike - nada mais querem provar do que a capacidade real de estimular os pruridos da Libido pela palavra, raras vezes com o talento do Eça ao colocar, "sobre a nudez crua da verdade, o manto diáfano da fantasia". Teriam escrito para "desmistificar" o sexo? Os grandes mestres talvez, exaltando o amor. Em alguns casos, divertir-se às custas do público. Os pequenos, quase todos os contemporâneos, não revelam outro propósito do que a glória prostituída do bestseller. Carlos Drummond me parece excessivamente otimista quando, em 1982, escreveu: "A obscenidade é tão velha quanto o mundo, mas a educação e o bom gosto a repelem espontaneamente". O próprio Henry Miller cansou-se e, depois de chamar os hippies de vagabundos, deblaterou contra a revolução sexual: "Só se faz sexo... mas sem amor", para concluir: “Nada podemos fazer para mudar o mundo. Ninguém pode. Estamos nas mãos do Diabo. Deus sumiu..." Há um aspecto, porém, que não nos pode deixar de irritar, é a contaminação cafajeste das artes, especialmente cinema e teatro pelo simples prazer do escândalo. Que a versão brasileira de Sonhos de uma Noite de Verão contenha uma cena em que a bela Titania se banha inteiramente nua, vá lá. Está no espírito da comédia e Shakespeare aceitaria a extravagância. A peça fez sucesso em Nova York e recebeu um prêmio. Mas obrigar Hamlet a estuprar Ofélia em cena, diante de uma Gertrude inteiramente bêbada, não me parece justificável em que pese a origem britânica da alteração. O mau gosto no escândalo grosseiro irrita profundamente o burguês que não pretende ser gentilhomem... É bom que haja reação, como recentemente no Municipal do Rio. Se o produtor de Tristan e Isolda foi vaiado por seu revisionismo cretino e demonstrou irritação, desnudando o traseiro, que outro produto poderíamos esperar dessa parte do corpo? Tédio, afinal de contas, é o que descreve Alberto Moravia num de seus romances de maior sucesso, La Noia (1960), sobre o relacionamento de um homem frustrado, solitário e alienado, com uma ninfômana de dezesete anos, quando o sexo de tão repetido, igual e desprovido de emoção amorosa, não resiste ao fastio – a aridez final que parece conter a própria Revolução Sexual dentro de limites insuperáveis. Freud, em nome de quem toda essa filosofia de libertação sexual é defendida, colocou a Censura, emanada do Super-Ego, como uma das mais importantes instâncias psíquicas a levar em consideração. Se há Censura, Gerald Thomas talvez não saiba - é porque algo deve ser censurado. O critério de "arte", sempre alegado pelos autores e produtores licenciosas, é muito relativo, restando o do "interesse pruriente" invocado na jurisprudência americana - e não se vê como poderá ser jamais inteiramente eliminado pela sociedade. É de supor que os costumes e a lei irão, progressivamente, moderando, acostumando e regulamentando as novas situações criadas pela profunda revolução cultural (insisto no termo), nesta área tão sensível do comportamento humano. Mas a coibição racional do excesso não deixará jamais de existir. Nem o próprio tédio, la Noia.