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AIpojuca Pontes é um ensaísta
de talento multifacetado. Jornalista, escritor,
cineasta, teatrólogo, crítico literário
e, ocasionalmente, burocrata, foi igualmente secretário
de Cultura, cargo em que encontrou um vasto campo
para aproveitar-se em benefício público
do vasto leque de interesses que o estimulam.
Mas o próprio título de sua coletânea
Politicamente Corretíssimo (Editora Topbooks)
demonstra que não está disposto
a ceder às modas do dia.
Não se importa de permanecer com uma opinião
minoritária, desafiando a ideologia que
se quer majoritária. Isto em termos: os
"bolchevistas" de 1917 se diziam os
"majoritários" (do russo bolshe,
os maiores), embora houvessem sido derrotados
nas únicas eleições do partido
marxista conduzidas democraticamente. A ironia
transparece pois no título da obra. E,
de fato, Ipojuca Pontes adicionou à sua
coletânea sueltos em que não hesita
em criticar, com estocadas certeiras, os portadores
da moléstia ideológica que contamina
a grande parte da "intelectuária"
tupiniquim.
Neste sentido, o primeiro capítulo da
coletânea dedica-se em revelar, "sobre
a moralidade de Marx", os verdadeiros sentimentos
de um profeta cujos seguidores atuais, ignorantes
ou cínicos conforme os casos, desconhecem
quão "politicamente incorretíssimo"
seria, se fosse hoje publicado. De fato, num artigo
na Nova Gazeta Renana, de 1849, o autor do Manifesto
Comunista coloca-se francamente do lado dos americanos
em relação à guerra recente
que havia permitido aos EUA apossar-se das áreas
contestadas do Texas, Califórnia e Arizona.
Babando-se de admiração pelos "enérgicos
yankees", Marx não se preocupa de
sujar suas barbas de guru igualitário utópico,
atirando sobre os mexicanos, derrotados e humilhados,
o qualificativo de "preguiçosos".
O argumento é inflexível de Realpolitik.
Não será a primeira vez que o judeu-alemão
convertido defenderá posturas hoje julgadas
profundamente escandalosas, senão de cunho
fascista. Assim, durante a Guerra da Criméia,
Marx também se manifestará fortemente
a favor dos impérios britânico e
francês em sua luta contra os russos.
É com esse desafio ao romantismo nefelibático
dos esquerdistas, invocando o próprio Marx,
que Ipojuca Pontes enche sua coletânea com
algumas jóias de crítica satírica.
O livro de quem se define como "anarquista
conservador".
Mas, publicados em O Estado de S. Paulo e no
"Caderno de Sábado" do Jornal
da Tarde, os artigos não se limitam de
modo algum a percorrer certos temas de política
nacional ou internacional. O cinema e a literatura
estão muito extensamente tratados na maior
parte dos textos coligidos - e dirigidos a "bêbados,
casos, canções, prisioneiros, loucos,
andar a pé, falar mal e bem, manhas, mestres,
mitos", além de outros, bons e maus.
Outro paralelo, porém, é a postura
"liberal" que se manifesta com lógica
e consistência objetiva, na escolha dos
temas. Acentuo esse aspecto porque dele mereço
várias referências nesse precioso
livrinho. Certo está que nos movemos em
linhas paralelas. O autor se manifesta indignado
ao constatar o peso inacreditável que o
Leviatã estatal exerce sobre a produção
nacional, exercendo-se através do chamado
"custo Brasil" com uma ação
de freio deletério sobre nosso desenvolvimento.
Ele chama a atenção, por exemplo,
para o fato que o Banco do Brasil, o número
de cujos funcionários é quase o
dobro dos que trabalham para o Citicorp, o maior
banco do mundo, tem uma folha de pagamento multimilionária.
Na verdade, o Previ, o Fundo de Pensão
desse nosso banco estatal, possui um patrimônio
calculado em US$ 15 bilhões, o que o torna
a maior "empresa" ou corporação
brasileira, em termos financeiros. Isso, sem mencionar
o fenômeno paralelo da Caixa Econômica,
cujas proporções escandalosas são
do mesmo tipo. O que não impede que excedam
em retórica contra o capitalismo, denúncias
aos banqueiros e sua invocação da
"justiça social". Eu diria que
a Justiça deve começar em casa.
Finalmente, como outro paralelo, não posso
deixar de mencionar o cinema.
Forma suprema da arte moderna, o cinema é
a grande participação do século
20 na história das artes a que o autor
se juntou como crítico e como verdadeiro
cineasta. Simpatizo com o arrazoado de seu livro
sobre o "Cinema Cativo" quando descubro
como esse maravilhoso meio de expressão,
ao mesmo tempo imensamente popular e capaz de
produzir, para as elites, obras já clássicas
na história do espírito humano,
poderia receber uma contribuição
mais valiosa de nosso gênio criativo, se
fosse libertado de qualquer entrave político/financeiro
ou ideológico.
Valho-me assim da oportunidade prazerosa de felicitar
Ipojuca Pontes, esse paraibano de imenso e variado
interesse no campo da cultura, por mais uma valiosa
contribuição literária em
que concentra a essência de seu pensamento.
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