| Em
meu último artigo tive oportunidade de
analisar o problema da Desinformação
que afeta o noticiário internacional -
desinformação pelo uso truncado
da palavra que aparenta autenticidade mas é
mentirosa. Falecida recentemente com mais de cem
anos, Leni Riefenstahl celebrizou-se pelo uso
monumental do cinema em benefício de seu
ídolo, Hitler. Mais do que a palavra, a
imagem fotográfica e cinematográfica
impressiona e distorce a apreciação
racional e objetiva, com julgamento sóbrio
de eventos históricos. O paradigma fenomenal
da deformação é a supressão
da figura de Trotsky, líder militar da
Revolução de 1917, que desapareceu
como unperson, uma “não-pessoa”,
inexistente - numa foto ao lado de Lênine,
1918, tirada na Praça Vermelha de Moscou
e manipulada pelos esbirros de Stáline.
Um dos mais extraordinários
exemplos de como se forja uma falsa imagem da
realidade histórica, creio eu, se encontra
na fotografia de uma menina, queimada, suja, chorando
e nua, que foge do que se descreve como o bombardeio
pelo napalm de sua aldeia vietnamita. A análise
atenta da imagem mostra, entretanto, a presença
de soldados com uniforme americano, falsificando
a alegação e evidenciando tenha
o fogo sido causado, de fato, não por um
bombardeio mas por um ato terrorista dos próprios
vietcongs. A imagem traumatizante causou tamanho
impacto que se tornou um clássico da campanha
pacifista que determinou o colapso da intervenção
dos EUA para salvar o Vietnam. Uma campanha de
desinformação pela imagem é
um dos mais poderosos instrumentos de distorção,
sendo o uso de crianças vitimadas pela
guerra um dos truques banais da propaganda ideológica.
Vê-se constantemente imagens de crianças
e velhos queimados em Hiroshima em 1945, mas jamais
as dos 350 mil civis massacrados pelos japoneses
em Nanking, 1938. É o Faz-de-Contas da
desinformação visual que sofremos,
como no Ingsoc totalitário do 1984 de Orwell...
Atualmente, a Televisão se
tem esmerado em focalizar crianças mortas
ou feridas no Iraque e na Palestina. Num ato terrorista,
como a polícia e os rabinos israelenses,
a fim de facilitar a assistência, proteger
a privacidade e esconder a identidade das vítimas,
afastam imediatamente todos os fotógrafos
ou operadores de TV, ficamos limitados a nos horrorizar
apenas com crianças mortas ou feridas em
Gaza ou na Cisjordânia, na horrenda sucessão
de vendetas que caracteriza a Intifada. Ora, a
mentalidade local é fortemente masoquista.
Na tradição xiita, ela se deleita
com o espetáculo do sangue, do sofrimento
e morte. É possível que não
haja uma intenção propagandista,
mas uma simples preferência por cadáveres,
sangue escorrendo, membros arrancados e cabeças
maculadas. Isso emociona no noticiário
da telinha. O mesmo ocorre no Iraque. Nos últimos
três meses, nunca vi a imagem de soldados
feridos e, no ataque covarde à sede da
missão da ONU em que morreu Vieira de Mello,
nenhuma das vítimas foi focalizada. Desse
modo, nossos sentimentos de repúdio e horror
são monopolizados pelas crianças
iraquianas que sofrem com a violência reinante.
Atentem para outra curiosidade: nunca foram publicadas
fotos das dezenas de milhares de curdos e xiitas
de Basra, exterminados pelos gazes venenosos de
Saddam Hussein - documentos naturalmente suprimidos
pela censura do regime. Desse modo, a prova visual
das famosas “armas de destruição
em massa” permaneceu no limbo da dúvida.
Existem mesmo? É só invenção
de Bush e Blair, ou uma realidade tétrica?
A capacidade de retórica
expressiva é outra forma de influenciar
a opinião pública. No pódio
da Assembléia Geral, Monsieur Chirac declarou,
com toda a ênfase de sua fisionomia contorcida,
ser imprescindível a aprovação
categórica do Conselho de Segurança
da ONU para toda ação militar unilateral.
Depois da exibição teatral, quem
se dá conta que a França tem invariavelmente
intervindo na África subsaariana, e agora
mesmo na Costa do Marfim, na ausência de
qualquer mandato da ONU? E a operação
de Kôssovo em 1999, que derrubou Milosevitch
e, esfacelando a Iugoslávia, evitou o genocídio
dos muçulmanos da Bósnia e foi executada
pela OTAN, a pedido da França e não
obstante o veto russo no CS? Parafraseando Talleyrand,
direi que a imagem foi concedida ao homem justamente
para mascarar (déguiser) a intenção.
Ora, os americanos podem ter 30% do PIB e 50%
do poder militar global, mas sua capacidade organizada
de “ganhar amigos e influenciar pessoas”
(win friends and influence people) encontra-se
ainda a um nível elementar, quase infantil.
Com sua educação puritana, não
sabem mentir, nem fingir, nem, justamente, disfarçar
suas intenções.
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