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Jornal da Tarde 27 de setembro de 2003
DEFORMAÇÃO DA IMAGEM

 
 

Em meu último artigo tive oportunidade de analisar o problema da Desinformação que afeta o noticiário internacional - desinformação pelo uso truncado da palavra que aparenta autenticidade mas é mentirosa. Falecida recentemente com mais de cem anos, Leni Riefenstahl celebrizou-se pelo uso monumental do cinema em benefício de seu ídolo, Hitler. Mais do que a palavra, a imagem fotográfica e cinematográfica impressiona e distorce a apreciação racional e objetiva, com julgamento sóbrio de eventos históricos. O paradigma fenomenal da deformação é a supressão da figura de Trotsky, líder militar da Revolução de 1917, que desapareceu como unperson, uma “não-pessoa”, inexistente - numa foto ao lado de Lênine, 1918, tirada na Praça Vermelha de Moscou e manipulada pelos esbirros de Stáline.

Um dos mais extraordinários exemplos de como se forja uma falsa imagem da realidade histórica, creio eu, se encontra na fotografia de uma menina, queimada, suja, chorando e nua, que foge do que se descreve como o bombardeio pelo napalm de sua aldeia vietnamita. A análise atenta da imagem mostra, entretanto, a presença de soldados com uniforme americano, falsificando a alegação e evidenciando tenha o fogo sido causado, de fato, não por um bombardeio mas por um ato terrorista dos próprios vietcongs. A imagem traumatizante causou tamanho impacto que se tornou um clássico da campanha pacifista que determinou o colapso da intervenção dos EUA para salvar o Vietnam. Uma campanha de desinformação pela imagem é um dos mais poderosos instrumentos de distorção, sendo o uso de crianças vitimadas pela guerra um dos truques banais da propaganda ideológica. Vê-se constantemente imagens de crianças e velhos queimados em Hiroshima em 1945, mas jamais as dos 350 mil civis massacrados pelos japoneses em Nanking, 1938. É o Faz-de-Contas da desinformação visual que sofremos, como no Ingsoc totalitário do 1984 de Orwell...

Atualmente, a Televisão se tem esmerado em focalizar crianças mortas ou feridas no Iraque e na Palestina. Num ato terrorista, como a polícia e os rabinos israelenses, a fim de facilitar a assistência, proteger a privacidade e esconder a identidade das vítimas, afastam imediatamente todos os fotógrafos ou operadores de TV, ficamos limitados a nos horrorizar apenas com crianças mortas ou feridas em Gaza ou na Cisjordânia, na horrenda sucessão de vendetas que caracteriza a Intifada. Ora, a mentalidade local é fortemente masoquista. Na tradição xiita, ela se deleita com o espetáculo do sangue, do sofrimento e morte. É possível que não haja uma intenção propagandista, mas uma simples preferência por cadáveres, sangue escorrendo, membros arrancados e cabeças maculadas. Isso emociona no noticiário da telinha. O mesmo ocorre no Iraque. Nos últimos três meses, nunca vi a imagem de soldados feridos e, no ataque covarde à sede da missão da ONU em que morreu Vieira de Mello, nenhuma das vítimas foi focalizada. Desse modo, nossos sentimentos de repúdio e horror são monopolizados pelas crianças iraquianas que sofrem com a violência reinante. Atentem para outra curiosidade: nunca foram publicadas fotos das dezenas de milhares de curdos e xiitas de Basra, exterminados pelos gazes venenosos de Saddam Hussein - documentos naturalmente suprimidos pela censura do regime. Desse modo, a prova visual das famosas “armas de destruição em massa” permaneceu no limbo da dúvida. Existem mesmo? É só invenção de Bush e Blair, ou uma realidade tétrica?

A capacidade de retórica expressiva é outra forma de influenciar a opinião pública. No pódio da Assembléia Geral, Monsieur Chirac declarou, com toda a ênfase de sua fisionomia contorcida, ser imprescindível a aprovação categórica do Conselho de Segurança da ONU para toda ação militar unilateral. Depois da exibição teatral, quem se dá conta que a França tem invariavelmente intervindo na África subsaariana, e agora mesmo na Costa do Marfim, na ausência de qualquer mandato da ONU? E a operação de Kôssovo em 1999, que derrubou Milosevitch e, esfacelando a Iugoslávia, evitou o genocídio dos muçulmanos da Bósnia e foi executada pela OTAN, a pedido da França e não obstante o veto russo no CS? Parafraseando Talleyrand, direi que a imagem foi concedida ao homem justamente para mascarar (déguiser) a intenção. Ora, os americanos podem ter 30% do PIB e 50% do poder militar global, mas sua capacidade organizada de “ganhar amigos e influenciar pessoas” (win friends and influence people) encontra-se ainda a um nível elementar, quase infantil. Com sua educação puritana, não sabem mentir, nem fingir, nem, justamente, disfarçar suas intenções.