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Jornal da Tarde 31 de março de 2003
Napoleão e os jacobinos

 
 

Considero Paul Johnson um dos maiores historiadores modernos, talvez o maior analista da atualidade em livros como Modern Times, traduzido pelo Instituto Liberal do Rio e com várias edições. Pensador católico conservador, Johnson é infinitamente superior a Hobsbawm, um marxista medíocre que recebe constante consagração no mercado editorial brasileiro. A mais recente obra do autor é um pequeno estudo sobre Napoleão que se vem acrescentar às milhares de biografias já dedicadas ao militar, estadista e demagogo corso que se transformou em Imperador dos Franceses.
Vejam o contraste com Hitler e Stalin. O primeiro é um monstro universalmente detestado que os próprios alemães tudo fazem para esquecer.
Stalin, idem. Só russos muitos idosos ainda cultuam a lembrança do maior genocida de todos os séculos, discretamente retirado do monumento da Praça Vermelha em Moscou - enquanto só alguns raros comunistas se atrevem a responsabilizar o Tio Zeca pela "aberração" que teria provocado o insucesso dessa execrável filosofia, supostamente humanista, generosa e destinada ao triunfo final da história.

Em Paris, ao contrário, a memória do Empereur está por toda a parte. Desde a Esplanada dos Invalides à Étoile, à Avenue de la Grande Armée e a uma profusão de ruas, praças e boulevards que celebram suas vitórias ou o nome de seus marechais - a presença do mito é geral e perene. Seu túmulo continua sendo o ponto central de peregrinação como se a Gloire do Império, não obstante o desastre final e as carnificinas que causou, não cessasse de fascinar os franceses, explicando os ressentimentos que a decadência posterior neles gerou.
Ora, Johnson se dedica a derrubar a epopéia fantástica. Acontece que, ao contrário da grande maioria das obras sobre Napoleão, uma das figuras históricas mais populares do mundo, a de Johnson é implacável em sua crítica. O professor inglês não perdoa. Como sempre acontece em seus escritos, ele jamais esconde a verdade e brutalmente denuncia as ilusões artificialmente formadas em torno de personagens que caíram no gosto da opinião pública.

Confesso compreender a importância dessa tarefa, pois eu também, parcialmente educado pela cultura francesa e em liceus franceses, muito custei a me livrar da sedução do ogro corso. Reconhecendo embora as grandes obras que realizou e o refinamento de seu gênio - quando comparado, por exemplo, com a grosseria de personagens como Stalin, Hitler e Mao - tardei em admitir que, como afirma Johnson, foi ele o introdutor do totalitarismo na história moderna. Na verdade, como travesti do republicanismo cesarista romano, o regime bonapartista reintroduziu a ditadura homicida dos Jacobinos que haviam provocado o descarrilamento da Revolução Francesa através do Terror de 1793.

Em sua carreira, o jovem oficial que falava um francês arrevesado subiu os degraus da hierarquia política como seu braço armado. Ele havia percebido, em suma, que o caminho do poder absoluto se encontrava através das ruelas de Paris, de modo que só depois de se assegurar substância e prestígio político na capital se atreveu a revelar o talento militar em batalhas contra os inimigos externos. As primeiras provas de fogo foram feitas contra multidões anárquicas, mandando fuzilar os baderneiros. A transição do combate ao Behemoth para a domesticação do Leviatã enche assim os primeiro anos da ascensão meteórica. Uma vez em controle do Estado-nacional, centralizado e sacralizado, o déspota recorreu a todos os métodos de que tivemos conhecimento em nossa idade, a propaganda, a censura da palavra escrita (como quando perseguiu Madame de Staël, a maior escritora de então), a presença constante da polícia política, as grandes demonstrações teatrais destinadas a hipnotizar as massas e a arregimentação de povos inteiros na perseguição do poder pessoal.

Entretanto, em vez de um partido único, utilizou-se da mesma arma de que se valera Júlio César para destruir a República. Foi a Grande Armée, uma organização extraordinária para a época, o que lhe serviu de instrumento de domínio. Como conclui Johnson com exatidão: "Nenhum ditador deste trágico século 20 - desde Lenin, Stalin e Mao Dzedong até os tiranos pigmeus como Kim Ilsung, Castro, Perón, Mengistu, Saddam Hussein, Ceausescu e Gadhafi - se apresenta sem ecos característicos do protótipo napoleônico". Nossa época, como diz o autor, que será conhecida talvez como "a Idade da Infâmia", nada pode representar em matéria de grandeza "sem um coração humilde e contrito" pelas barbaridades cometidas. No Brasil particularmente, a dicotomia bonapartismo, à direita, e jacobinismo à esquerda, tece o próprio fio de nosso desenvolvimento histórico - privando-nos de alcançar a meta da democracia liberal, numa sociedade aberta sob um Estado de Direito digno do nome.