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Considero Paul Johnson um dos maiores
historiadores modernos, talvez o maior analista
da atualidade em livros como Modern Times, traduzido
pelo Instituto Liberal do Rio e com várias
edições. Pensador católico
conservador, Johnson é infinitamente superior
a Hobsbawm, um marxista medíocre que recebe
constante consagração no mercado
editorial brasileiro. A mais recente obra do autor
é um pequeno estudo sobre Napoleão
que se vem acrescentar às milhares de biografias
já dedicadas ao militar, estadista e demagogo
corso que se transformou em Imperador dos Franceses.
Vejam o contraste com Hitler e Stalin. O primeiro
é um monstro universalmente detestado que
os próprios alemães tudo fazem para
esquecer.
Stalin, idem. Só russos muitos idosos ainda
cultuam a lembrança do maior genocida de
todos os séculos, discretamente retirado
do monumento da Praça Vermelha em Moscou
- enquanto só alguns raros comunistas se
atrevem a responsabilizar o Tio Zeca pela "aberração"
que teria provocado o insucesso dessa execrável
filosofia, supostamente humanista, generosa e
destinada ao triunfo final da história.
Em Paris, ao contrário, a memória
do Empereur está por toda a parte. Desde
a Esplanada dos Invalides à Étoile,
à Avenue de la Grande Armée e a
uma profusão de ruas, praças e boulevards
que celebram suas vitórias ou o nome de
seus marechais - a presença do mito é
geral e perene. Seu túmulo continua sendo
o ponto central de peregrinação
como se a Gloire do Império, não
obstante o desastre final e as carnificinas que
causou, não cessasse de fascinar os franceses,
explicando os ressentimentos que a decadência
posterior neles gerou.
Ora, Johnson se dedica a derrubar a epopéia
fantástica. Acontece que, ao contrário
da grande maioria das obras sobre Napoleão,
uma das figuras históricas mais populares
do mundo, a de Johnson é implacável
em sua crítica. O professor inglês
não perdoa. Como sempre acontece em seus
escritos, ele jamais esconde a verdade e brutalmente
denuncia as ilusões artificialmente formadas
em torno de personagens que caíram no gosto
da opinião pública.
Confesso compreender a importância dessa
tarefa, pois eu também, parcialmente educado
pela cultura francesa e em liceus franceses, muito
custei a me livrar da sedução do
ogro corso. Reconhecendo embora as grandes obras
que realizou e o refinamento de seu gênio
- quando comparado, por exemplo, com a grosseria
de personagens como Stalin, Hitler e Mao - tardei
em admitir que, como afirma Johnson, foi ele o
introdutor do totalitarismo na história
moderna. Na verdade, como travesti do republicanismo
cesarista romano, o regime bonapartista reintroduziu
a ditadura homicida dos Jacobinos que haviam provocado
o descarrilamento da Revolução Francesa
através do Terror de 1793.
Em sua carreira, o jovem oficial que falava um
francês arrevesado subiu os degraus da hierarquia
política como seu braço armado.
Ele havia percebido, em suma, que o caminho do
poder absoluto se encontrava através das
ruelas de Paris, de modo que só depois
de se assegurar substância e prestígio
político na capital se atreveu a revelar
o talento militar em batalhas contra os inimigos
externos. As primeiras provas de fogo foram feitas
contra multidões anárquicas, mandando
fuzilar os baderneiros. A transição
do combate ao Behemoth para a domesticação
do Leviatã enche assim os primeiro anos
da ascensão meteórica. Uma vez em
controle do Estado-nacional, centralizado e sacralizado,
o déspota recorreu a todos os métodos
de que tivemos conhecimento em nossa idade, a
propaganda, a censura da palavra escrita (como
quando perseguiu Madame de Staël, a maior
escritora de então), a presença
constante da polícia política, as
grandes demonstrações teatrais destinadas
a hipnotizar as massas e a arregimentação
de povos inteiros na perseguição
do poder pessoal.
Entretanto, em vez de um partido único,
utilizou-se da mesma arma de que se valera Júlio
César para destruir a República.
Foi a Grande Armée, uma organização
extraordinária para a época, o que
lhe serviu de instrumento de domínio. Como
conclui Johnson com exatidão: "Nenhum
ditador deste trágico século 20
- desde Lenin, Stalin e Mao Dzedong até
os tiranos pigmeus como Kim Ilsung, Castro, Perón,
Mengistu, Saddam Hussein, Ceausescu e Gadhafi
- se apresenta sem ecos característicos
do protótipo napoleônico". Nossa
época, como diz o autor, que será
conhecida talvez como "a Idade da Infâmia",
nada pode representar em matéria de grandeza
"sem um coração humilde e contrito"
pelas barbaridades cometidas. No Brasil particularmente,
a dicotomia bonapartismo, à direita, e
jacobinismo à esquerda, tece o próprio
fio de nosso desenvolvimento histórico
- privando-nos de alcançar a meta da democracia
liberal, numa sociedade aberta sob um Estado de
Direito digno do nome.
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