| Em
artigo na revista Tendência/Debates, o Senador
Jefferson Peres, uma da figuras mais ilustres
do Senado, nos endereça a pergunta ominosa
sobre se já não estaria aqui em
marcha um processo semelhante ao que dominou o
México após a “Revolução”
de 1910. Até a eleição do
Presidente Vicente Fox, o “modelo mexicano”
de governo pelo “Partido Revolucionário
Institucional” foi durante 70 anos, praticamente,
uma ditadura monopartidária de cunho ideológico
estatizante e o domínio autoritário
sobre a cultura e a economia, sob formas democráticas
e a aparência de grande humanismo. A mentira
instalara-se no próprio nome da agremiação:
“partido” significa parte de um sistema
em que várias tendências e programas
compartilham o poder e nele se sucedem. O PRI
foi o único até a década
dos 80 e “revolução”
é o contrário de um sistema “institucional”
pois seu objetivo é, precisamente, derrubar
as instituições. O grande escritor
e poeta Octávio Paz, que tive a honra de
conhecer em Londres, classificou muito corretamente
o regime como uma “ditadura perfeita”,
escrevendo um livro para descreve-la com o título
irônico de El Ogro Filantrópico.
Dediquei um capítulo de minha obra O Dinossauro
(S.Paulo, 1988) ao extraordinário sucesso
desse regime de mentira genial em angariar simpatia
externa, enquanto tiranizava o país e o
conservava em estado de pobreza e sub-desenvolvimento.
O controle da cultura e dos mídia
pelo Estado era tanto mais original quanto se
efetivava indiretamente pelo monopólio
estatal da indústria gráfica. Só
publicava quem, mantendo-se numa linha “politicamente
correta”, do governo podia comprar papel.
Em 1968 o exército reprimiu uma baderna
dentro da Universidade, dita autônoma, matando
algumas centenas de estudantes. O então
Ministro da Justiça e responsável
pela violência, Echeverria, seria posteriormente
Presidente, candidatando-se ao Prêmio Nobel
da Paz que quase conseguiu graças à
ingenuidade escandinava. Com seu prestígio
interno e externo, a classe política mexicana,
mal encarada e corrupta, chegou a controlar 85%
do PIB através de 500 estatais. A farsa
foi tanto mais extraordinária quanto ela
gozou de crescente popularidade nos meios “intelectuais”
da Esquerda Festiva de todo o mundo. A burritzia
internacional via nela um modelo para a América
Latina. O triunfo do presidente Fox e seu partido
de oposição Ação Nacional,
assim como o progresso alcançado pelo país
após a adesão à NAFTA, configuram
assim um verdadeiro milagre – sucesso talvez
maior, porque mais duradouro, do que o obtido
pelos presidentes Castello e Médici de
1964 a 75. Os últimos dados do Banco Mundial
dão ao percapita mexicano o valor de US$8,200.
em termos de poder de compra da moeda (ppp), contra
nossos sete mil $.
O Senador J. Peres está assim
perfeitamente correto com sua pergunta. A minha
tese é que imitamos o modelo chinês
– “uma nação, dois sistemas”
– mas não há conflito entre
as duas sugestões. Acompanhamos a receita
do PRI em Brasília, enquanto deixamos S.Paulo
e o Sul desenvolver-se (mal) com uma dose módica
de liberalismo capitalista, a fim de arrancar
suficientes recursos em renda de estatais, impostos
e corrupção para satisfazer o apetite
“orçamentívoro” do Dinossaurus
Brasilicus. É mesmo difícil escolher
entre quem é mais hábil na instalação
do mecanismo da novi-língua orwelliana,
para atrair o apoio político e financeiro
dos países ricos e cultos que se deixam
por ela orientar. A excepcional popularidade de
que estamos gozando na Europa e nos USA só
se explica por tais paradoxos do jogo ideológico.
Quanto mais vociferantes se tornam, por exemplo,
as manifestações de anti-americanismo
no Brasil, tanto mais o grupo Blame America First
(comece por condenar os EEUU) aplaude calorosamente
nossa política interna e externa, babando-se
de admiração pela nova e maravilhosa
“consciência social” estamos
reveladando, exatamente como acontecia no México
PRI.
Os efeitos são diametralmente
contrários ao que mandaria a lógica
dos interesses em causa, mas funciona o esquema
dialético admirável imaginado por
Orwell. Para dar um exemplo: em vez de controlar
a indústria de papel, nosso governo controla
os bancos cujos empréstimos permitem a
sobrevivência de alguns dos principais jornais
e revistas em estado pré-falimentar –
obrigando-os a seguir a norma de apoio incondicional
à política oficial. Evidentemente,
a estatização econômica nunca
atingiu aqui o âmbito que alcançou
no México. Tampouco o efeito corruptor
está longe de comprar-se ao ocorrido, digamos,
ao tempo dos Presidentes Alemán, Diaz Ordaz
e Salinas. Ocorre, entretanto, que está
o México caminhando para a abertura liberal
e a integração na economia global,
enquanto seguimos nós a rota inversa do
crescimento da estatização e centralização
burocrática.
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