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Jornal da Tarde, 1 de março de 2004
O MODELO MEXICANO

 
 

Em artigo na revista Tendência/Debates, o Senador Jefferson Peres, uma da figuras mais ilustres do Senado, nos endereça a pergunta ominosa sobre se já não estaria aqui em marcha um processo semelhante ao que dominou o México após a “Revolução” de 1910. Até a eleição do Presidente Vicente Fox, o “modelo mexicano” de governo pelo “Partido Revolucionário Institucional” foi durante 70 anos, praticamente, uma ditadura monopartidária de cunho ideológico estatizante e o domínio autoritário sobre a cultura e a economia, sob formas democráticas e a aparência de grande humanismo. A mentira instalara-se no próprio nome da agremiação: “partido” significa parte de um sistema em que várias tendências e programas compartilham o poder e nele se sucedem. O PRI foi o único até a década dos 80 e “revolução” é o contrário de um sistema “institucional” pois seu objetivo é, precisamente, derrubar as instituições. O grande escritor e poeta Octávio Paz, que tive a honra de conhecer em Londres, classificou muito corretamente o regime como uma “ditadura perfeita”, escrevendo um livro para descreve-la com o título irônico de El Ogro Filantrópico. Dediquei um capítulo de minha obra O Dinossauro (S.Paulo, 1988) ao extraordinário sucesso desse regime de mentira genial em angariar simpatia externa, enquanto tiranizava o país e o conservava em estado de pobreza e sub-desenvolvimento.

O controle da cultura e dos mídia pelo Estado era tanto mais original quanto se efetivava indiretamente pelo monopólio estatal da indústria gráfica. Só publicava quem, mantendo-se numa linha “politicamente correta”, do governo podia comprar papel. Em 1968 o exército reprimiu uma baderna dentro da Universidade, dita autônoma, matando algumas centenas de estudantes. O então Ministro da Justiça e responsável pela violência, Echeverria, seria posteriormente Presidente, candidatando-se ao Prêmio Nobel da Paz que quase conseguiu graças à ingenuidade escandinava. Com seu prestígio interno e externo, a classe política mexicana, mal encarada e corrupta, chegou a controlar 85% do PIB através de 500 estatais. A farsa foi tanto mais extraordinária quanto ela gozou de crescente popularidade nos meios “intelectuais” da Esquerda Festiva de todo o mundo. A burritzia internacional via nela um modelo para a América Latina. O triunfo do presidente Fox e seu partido de oposição Ação Nacional, assim como o progresso alcançado pelo país após a adesão à NAFTA, configuram assim um verdadeiro milagre – sucesso talvez maior, porque mais duradouro, do que o obtido pelos presidentes Castello e Médici de 1964 a 75. Os últimos dados do Banco Mundial dão ao percapita mexicano o valor de US$8,200. em termos de poder de compra da moeda (ppp), contra nossos sete mil $.

O Senador J. Peres está assim perfeitamente correto com sua pergunta. A minha tese é que imitamos o modelo chinês – “uma nação, dois sistemas” – mas não há conflito entre as duas sugestões. Acompanhamos a receita do PRI em Brasília, enquanto deixamos S.Paulo e o Sul desenvolver-se (mal) com uma dose módica de liberalismo capitalista, a fim de arrancar suficientes recursos em renda de estatais, impostos e corrupção para satisfazer o apetite “orçamentívoro” do Dinossaurus Brasilicus. É mesmo difícil escolher entre quem é mais hábil na instalação do mecanismo da novi-língua orwelliana, para atrair o apoio político e financeiro dos países ricos e cultos que se deixam por ela orientar. A excepcional popularidade de que estamos gozando na Europa e nos USA só se explica por tais paradoxos do jogo ideológico. Quanto mais vociferantes se tornam, por exemplo, as manifestações de anti-americanismo no Brasil, tanto mais o grupo Blame America First (comece por condenar os EEUU) aplaude calorosamente nossa política interna e externa, babando-se de admiração pela nova e maravilhosa “consciência social” estamos reveladando, exatamente como acontecia no México PRI.

Os efeitos são diametralmente contrários ao que mandaria a lógica dos interesses em causa, mas funciona o esquema dialético admirável imaginado por Orwell. Para dar um exemplo: em vez de controlar a indústria de papel, nosso governo controla os bancos cujos empréstimos permitem a sobrevivência de alguns dos principais jornais e revistas em estado pré-falimentar – obrigando-os a seguir a norma de apoio incondicional à política oficial. Evidentemente, a estatização econômica nunca atingiu aqui o âmbito que alcançou no México. Tampouco o efeito corruptor está longe de comprar-se ao ocorrido, digamos, ao tempo dos Presidentes Alemán, Diaz Ordaz e Salinas. Ocorre, entretanto, que está o México caminhando para a abertura liberal e a integração na economia global, enquanto seguimos nós a rota inversa do crescimento da estatização e centralização burocrática.