| Corre
nos círculos internacionais do Liberalismo
o moto otimista que os “liberais vivem mais
tempo” (liberals live longer). A frase é
atribuída a um dois mais veneráveis
e mais ilustres, Friedrich Hayek, que faleceu
aos 93 anos. Outros grandes economistas e escritores
liberais foram agraciados com longas vidas para
a defesa de idéias que, infelizmente, nunca
foram “politicamente corretas” num
século dedicado ao crescimento da burocracia,
ao culto do Estado hegeliano e ao genocídio
bélico que resulta dessas tendências.
Um dos mais eminentes economistas vivos, Milton
Friedman, o guru de Chicago, tem 92 anos, continua
produzindo e, ocasionalmente, freqüenta reuniões
de seus discípulos ou as que são
anualmente promovidas pela Sociedade do Mont Pèlerin
(MPS)– uma ONG informal que possui hoje
mais de quinhentos membros de 40 nacionalidades.
Og Francisco Leme só tinha 81 quando faleceu,
mês passado. Lamentado por seus amigos e
admiradores, ele ainda muito poderia contribuir
para a difusão de uma doutrina mal conhecida,
mal vista e mal interpretada em nossa terra de
tupiniquins estatizantes, botocudos iletrados
e vira-bostas sedentos de cargos públicos.
Talvez os três pontos culminantes na vida
desse professor de atitude modesta, fina ironia,
inteligência brilhante, voz pausada e excepcional
capacidade de aturar a imbecilidade alheia, foram
a oportunidade que teve de concluir seu mestrado
na Universidade de Chicago; de trabalhar alguns
anos em Santiago, na CEPAL; e de participar das
atividades do Instituto Liberal do Rio de Janeiro,
desde quando fundado há vinte anos. Em
Chicago, Og estudou com Milton Friedman de quem
absorveu as idéias mais avançadas
nessa disciplina. Ali também conheceu outro
grande economista, Frank Knight, de ambos se tornando
amigo e absorvendo não só os ensinamentos,
mas o próprio espírito vibrante
desses pensadores liberais. Paulista e formado
na Faculdade de Direito da USP, Og obteve nos
Estados Unidos o benefício de se descontaminar
do vírus da AIDS ideológica que
infesta os corredores daquela famosa instituição.
Em seguida, no Chile onde permaneceu alguns anos,
sua experiência foi curiosa e estimulante
pela polêmica que manteve com o argentino
Raul Prébich, o maior representante do
keynesianismo e do intervencionismo estatal no
organismo onusiano, quando pôde avaliar
os malefícios que a Comissão Econômica
para a América Latina estava gerando neste
continente malsinado. Só mais tarde, de
1975 a 89, o Chile absorveria a prática
do liberalismo dos chamados Chicago boys que lhe
granjearam um excepcional sucesso econômico
sob o benemérito governo do general Pinochet.
O país é o único da América
do Sul que já penetrou no Primeiro Mundo
e mantém altos índices de crescimento
econômico, graças à elogiável
decisão de dois presidentes socialistas
de não mexerem na estrutura implantada.
Com a crise argentina e a estagnação
brasileira, seu percapita é hoje o mais
alto da América Latina. Og costumava imputar
a Raúl Prébich a culpa pelos desastres
que interromperam o “milagre brasileiro”
a partir do governo de Geisel. As receitas da
CEPAL se enraizaram, aqui como alhures, adicionando-se
a uma espécie de nostalgia romântica
e vocação para o sub-desenvolvimento
que o Estado patrimonialista invariavelmente provoca,
detendo qualquer crescimento material ou progresso
social. Og conseguia, com imensa dificuldade,
controlar sua indignação com as
políticas calamitosas que inspiraram quase
todos nossos governantes nesse período.
Insistia, entretanto, que o de Direito e o governo
das leis (rule of law) são a base de uma
sociedade liberal. Voltando ao Brasil em 64, trabalhou
com Roberto Campos até o final do governo
Castello Branco, após o que lecionou e
foi coordenador do CENDEC. Em 1983 e a convite
de Donald Stewart, colaborou na fundação
do Instituto Liberal do Rio de Janeiro onde permaneceu
como consultor cultural até seu falecimento.
Durante esse período foi o representante
do Liberty Fund, organizando e presidindo os chamados
“seminários socráticos”
que esse think-tank de Indianápolis, EEUU,
patrocina. Foi num deles que melhor conheci e
passei a admirar esse admirável e dedicado
scholar de tão excepcional pertinácia,
coragem e visão no sentido de difundir
em nossa terra os ensinamentos do Liberalismo.
Além de inumeráveis artigos, ensaios
e estudos que escreveu para o IL do Rio, Og é
também o autor de um pequeno ensaio, divertido,
conciso e clarividente, com um título que
diz tudo Dos Cupins e dos Homens. Pois de fato,
que mais devemos temer do que uma sociedade coletivista,
dedicada não a produzir bens crescentes
em número e qualidade na prática
da liberdade, mas a estagnar e corroer a nação
na tirania e no marasmo burocráticos?
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