| Uma
triste crônica acompanha, em nosso país,
o termo “liberal”. No período
do Império, o único realmente liberal
de nossa história segundo os padrões
civilizados, dois partidos de um modelo inglês
algo artificial, um dito liberal, o outro conservador,
partilharam alternadamente o poder, aliviando
as graves tensões de um país sub-desenvolvido
que acabava de conquistar sua independência
e procurava, a duras penas, consolidar sua unidade
territorial. Durante uma geração
inteira gozamos de paz e tranqüilidade, uma
experiência sem precedentes em todo o hemisfério
- pois conseguimos, inclusive, libertar dos escravos
sem o custo horrendo de uma guerra civil como
a que ensangüentou os Estados Unidos.
Quando, a 15 de novembro de 1889,
foi o líder liberal Silveira Martins indicado
para formar o Ministério, o velho marechal
Deodoro, conservador carcomido e traindo o juramento
que havia feito de defendê-lo, derrubou
o regime por ciumeiras pessoais. Em 1930, sofremos
de mais uma das inúmeras revoluções,
badernas e estados de sítio que marcaram
a história republicana. Intitulando-se
“Revolução Liberal”,
o movimento levou ao poder Getúlio Vargas
que governou 25 anos, segundo o modelo da “ditadura
republicana” inaugurada no RGS por Júlio
de Castilhos. No período subseqüente,
ninguém falou em liberalismo, salvo Raul
Pilla e alguns Udenistas envergonhados. Seguiu-se,
de 64 a 67, a esplêndida mas tímida
tentativa de Castello Branco com Roberto Campos
e Bulhões, de reduzir o poder do Estado.
O estrondoso “milagre brasileiro”
dos anos 70 nos elevou ao que somos hoje, a sétima
economia do mundo. Mas o milagre durou pouco,
sendo abafado pelo centralismo estatizante e obsessivo
do general Geisel e ficou nisso. Com um crescimento
econômico pífio, o Dinossauro engorda
hoje aceleradamente, mal conseguindo se locomover
entre os buracos do caminho.
Como novo avatar, surgiu um outro
Partido Liberal – ou, digamos, um grupelho
que se qualifica como liberal de mentirinha ou,
talvez, como falcatrua eleitoral para permitir
a indicação do Vice na Chefia do
Estado. É por isso que falo em falsidade
ideológica, crime punido pelas leis do
país, pois vide sua definição
no Aurélio. O que não é,
aliás, de admirar pois o fundador do partido,
“ex-colega” meu do Itamaraty, foi
sucessivamente promovido por “merecimento”
e em desafio à legislação
em vigor, pois sua ascensão sempre se realizou
no exercício de mandato legislativo. O
Partido lhe seguiu o hábito pouco honesto.
Nas declarações públicas
de seus membros, a patota inexpressiva teima em
colocar-se à “esquerda” do
partido com o qual se alia no governo, como se
fosse ele, o PL, socialista e o PT, capitalista.
O próprio o cartola do Partido, Vice Presidente
da República, critica a livre iniciativa,
as sólidas regras do mercado, a liberdade
de troca e a gerência financeira que identificam
a economia moderna segundo o paradigma de Adam
Smith, vitorioso em quase todo o planeta.
Mas quem é responsável
pelo desemprego, pelas agruras agrárias
e a estagnação econômica senão
o próprio Estado? O Vice é nisso
imitado pelos demais membros da sigla. A instituição
torna-se um instrumento do Dinossauro orçamentívoro
para manter seu poder sobre um Estado patrimonialista
em frangalhos, pretendendo ser outra coisa do
que é na realidade. De tal modo que, às
vezes me pergunto se a participação
do eminente Senador na cédula do Lula não
teria sido um simples recurso maquiavélico,
igual de Jânio em 1961, quando colocou Goulart
a seu lado já com vistas ao golpe da renúncia,
premeditando o retorno com plenos poderes. Quando
o Vice é intragável, como o de Collor,
torna-se mais difícil desfazermo-nos de
um incompetente pelo Impeachment ou o envio para
uma embaixada na Itália.
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