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Creta e um outro Tsunami

 
 
     

Jornal da Tarde, 05 de julho de 2004
Falsidade Ideológica

 
 

Uma triste crônica acompanha, em nosso país, o termo “liberal”. No período do Império, o único realmente liberal de nossa história segundo os padrões civilizados, dois partidos de um modelo inglês algo artificial, um dito liberal, o outro conservador, partilharam alternadamente o poder, aliviando as graves tensões de um país sub-desenvolvido que acabava de conquistar sua independência e procurava, a duras penas, consolidar sua unidade territorial. Durante uma geração inteira gozamos de paz e tranqüilidade, uma experiência sem precedentes em todo o hemisfério - pois conseguimos, inclusive, libertar dos escravos sem o custo horrendo de uma guerra civil como a que ensangüentou os Estados Unidos.

Quando, a 15 de novembro de 1889, foi o líder liberal Silveira Martins indicado para formar o Ministério, o velho marechal Deodoro, conservador carcomido e traindo o juramento que havia feito de defendê-lo, derrubou o regime por ciumeiras pessoais. Em 1930, sofremos de mais uma das inúmeras revoluções, badernas e estados de sítio que marcaram a história republicana. Intitulando-se “Revolução Liberal”, o movimento levou ao poder Getúlio Vargas que governou 25 anos, segundo o modelo da “ditadura republicana” inaugurada no RGS por Júlio de Castilhos. No período subseqüente, ninguém falou em liberalismo, salvo Raul Pilla e alguns Udenistas envergonhados. Seguiu-se, de 64 a 67, a esplêndida mas tímida tentativa de Castello Branco com Roberto Campos e Bulhões, de reduzir o poder do Estado. O estrondoso “milagre brasileiro” dos anos 70 nos elevou ao que somos hoje, a sétima economia do mundo. Mas o milagre durou pouco, sendo abafado pelo centralismo estatizante e obsessivo do general Geisel e ficou nisso. Com um crescimento econômico pífio, o Dinossauro engorda hoje aceleradamente, mal conseguindo se locomover entre os buracos do caminho.

Como novo avatar, surgiu um outro Partido Liberal – ou, digamos, um grupelho que se qualifica como liberal de mentirinha ou, talvez, como falcatrua eleitoral para permitir a indicação do Vice na Chefia do Estado. É por isso que falo em falsidade ideológica, crime punido pelas leis do país, pois vide sua definição no Aurélio. O que não é, aliás, de admirar pois o fundador do partido, “ex-colega” meu do Itamaraty, foi sucessivamente promovido por “merecimento” e em desafio à legislação em vigor, pois sua ascensão sempre se realizou no exercício de mandato legislativo. O Partido lhe seguiu o hábito pouco honesto. Nas declarações públicas de seus membros, a patota inexpressiva teima em colocar-se à “esquerda” do partido com o qual se alia no governo, como se fosse ele, o PL, socialista e o PT, capitalista. O próprio o cartola do Partido, Vice Presidente da República, critica a livre iniciativa, as sólidas regras do mercado, a liberdade de troca e a gerência financeira que identificam a economia moderna segundo o paradigma de Adam Smith, vitorioso em quase todo o planeta.

Mas quem é responsável pelo desemprego, pelas agruras agrárias e a estagnação econômica senão o próprio Estado? O Vice é nisso imitado pelos demais membros da sigla. A instituição torna-se um instrumento do Dinossauro orçamentívoro para manter seu poder sobre um Estado patrimonialista em frangalhos, pretendendo ser outra coisa do que é na realidade. De tal modo que, às vezes me pergunto se a participação do eminente Senador na cédula do Lula não teria sido um simples recurso maquiavélico, igual de Jânio em 1961, quando colocou Goulart a seu lado já com vistas ao golpe da renúncia, premeditando o retorno com plenos poderes. Quando o Vice é intragável, como o de Collor, torna-se mais difícil desfazermo-nos de um incompetente pelo Impeachment ou o envio para uma embaixada na Itália.