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Jornal da Tarde, 12 de abril de 2004
TERRORISMO, GLOBALIZAÇÃO E OS USA

 
 

Preocupa-me cada vez mais no noticiário disponível, nacional e internacional, a dificuldade de entender exatamente o que está ocorrendo no mundo, por força de um fenômeno natural irreversível, a globalização. Resultado espontâneo do crescimento da tecnologia de transporte e comunicação, a Globalização, que no fundo nada mais é do que a universalização da “modernidade”, é por muitos apreciada num processo mental que eu definiria como “mágico”. Há 40 anos, o ensaísta e jornalista americano William Pfaff já qualificava esse tipo de pensamento de “política da histeria” - The Politics of Hysteria – the Sources of XXth Century Conflict. Já ouvi congressistas denunciarem, simultaneamente, a globalização como um “mito” – que implicaria sua não-existência empírica – e uma catástrofe, deliberadamente concebida para prejudicar nosso país. Se sofremos do atraso, seria pelas pretensões da ONU, por um conluio de “grandes potências” (os G-7 por exemplo) ou, mais comumente, por culpa daquela, a maior de todas, descrita como arrogantemente empenhada no plano nefando de dominar o mundo. O que me parece óbvio é que a globalização, como todo importante processo histórico, cria condições inéditas que atormentam certas mentes sensíveis, ainda que não necessariamente débeis. Ouve-se falar na “maior crise da história” – frase que apenas extrapola o lugar-comum “a maior crise do Brasil”. Velhas de duzentos anos são estas expressões e, vergado sob o peso de muitas décadas de existência, às vezes me divirto, outras vezes me enfastio com a repetição da tolice. Mas não são tolos os problemas que temos que enfrentar pois as novidades, em toda “crise” nacional ou internacional, são isso mesmo, invenções inéditas – não preciso da inteligência de Einstein para chegar a esta conclusão. O terrorismo internacional por exemplo, através de assassinos suicidas.

Seu ineditismo resulta da circunstância de que, pela primeira vez a nível organizado, a globalização está encontrando uma resistência não apenas ideológica, o que é normal, mas irracional, violenta e de natureza religiosa. O terrorismo é hoje principalmente islâmico. Seria no entanto uma aberração dele culpar a grande maioria da população muçulmana do globo. Há milhões de muçulmanos na França, Alemanha, Espanha, Inglaterra e Estados Unidos e só alguns, sobretudo jovens, se estão aliando por conveniência tática, a elementos locais tido como “esquerdistas”. Ora, não se pode esquecer que, há menos de 70 anos, Mussolini solenemente erguia na Líbia a Espada da Jihad, como se dela fosse o campeão, e Himmler, Chefe da Gestapo, elogiava o Islam por flagrante oportunismo: ajudar o Afrikakorp do marechal Rommel e obter o apoio árabe para a “solução final” do problema judaico.

Conselheiro para a Segurança Nacional do Presidente Carter, o polonês Zbigniew Brzezinski já escreveu várias obras sobre os problemas que enfrentamos num mundo em apuros. Totalitarian Dictatorship and Autocracy (Harvard UP) é de 1956 e Between Two Ages: America´s Role in the Technetronic Era (Viking), de 1970. Elas lhe fizeram merecer o alto cargo com que foi brindado por Carter – por sinal, um dos mais medíocres Chefes de Estado que os EEUU se permitiram eleger. Mais recentemente, Brzezinski publicou um ensaio sobre o que talvez seja a questão fundamental de nossa idade: The Choice: Global Domination or Global Leadership (Basic Books). Na perspectiva do professor polaco, a escolha de dominação ou liderança global seria, obviamente, a que deve fazer a América. Sabemos, contudo, que a resposta decisiva na escolha será dada por nós, cidadãos conscientes de um mundo global. Como servidor de um político do Partido Democrata, Brzezinski não poupa críticas ao atual Presidente Bush. Não esconde, entretanto, que a principal contribuição para a mobilização dos muçulmanos foi feita por Clinton ao apoiar os afegãos na luta contra a invasão soviética, os bósnios e albaneses contra os comunistas sérvios de Milosevich, sem falar (o que ele não diz) os próprios árabes, fortalecendo Mubarak, no Egito, e permitindo ao Kuwait reconquistar sua independência. Os inimigos dos EEUU naturalmente alegam que o próprio Saddam Hussein foi por eles armado na guerra contra o Irã. Certo. Roosevelt também salvou a União Soviética dos invasores nazistas e, nesse sentido, protegeu um bandido, Stáline, mais perigoso e cruel do que Saddam. Na época, todos os defensores da liberdade, inclusive o maior deles, Churchill, aprovaram o recurso emergencial. Roosevelt igualmente sustentou o ditador Getúlio Vargas e financiou Volta Redonda – início de nossa expansão industrial. Há muito que falar sobre essas “escolhas” que nos enchem de perplexidade. Isto é apenas o início de um longo debate, cheio de ambigüidades, complexidades e contradições...