| Preocupa-me
cada vez mais no noticiário disponível,
nacional e internacional, a dificuldade de entender
exatamente o que está ocorrendo no mundo,
por força de um fenômeno natural
irreversível, a globalização.
Resultado espontâneo do crescimento da tecnologia
de transporte e comunicação, a Globalização,
que no fundo nada mais é do que a universalização
da “modernidade”, é por muitos
apreciada num processo mental que eu definiria
como “mágico”. Há 40
anos, o ensaísta e jornalista americano
William Pfaff já qualificava esse tipo
de pensamento de “política da histeria”
- The Politics of Hysteria – the Sources
of XXth Century Conflict. Já ouvi congressistas
denunciarem, simultaneamente, a globalização
como um “mito” – que implicaria
sua não-existência empírica
– e uma catástrofe, deliberadamente
concebida para prejudicar nosso país. Se
sofremos do atraso, seria pelas pretensões
da ONU, por um conluio de “grandes potências”
(os G-7 por exemplo) ou, mais comumente, por culpa
daquela, a maior de todas, descrita como arrogantemente
empenhada no plano nefando de dominar o mundo.
O que me parece óbvio é que a globalização,
como todo importante processo histórico,
cria condições inéditas que
atormentam certas mentes sensíveis, ainda
que não necessariamente débeis.
Ouve-se falar na “maior crise da história”
– frase que apenas extrapola o lugar-comum
“a maior crise do Brasil”. Velhas
de duzentos anos são estas expressões
e, vergado sob o peso de muitas décadas
de existência, às vezes me divirto,
outras vezes me enfastio com a repetição
da tolice. Mas não são tolos os
problemas que temos que enfrentar pois as novidades,
em toda “crise” nacional ou internacional,
são isso mesmo, invenções
inéditas – não preciso da
inteligência de Einstein para chegar a esta
conclusão. O terrorismo internacional por
exemplo, através de assassinos suicidas.
Seu ineditismo resulta da circunstância
de que, pela primeira vez a nível organizado,
a globalização está encontrando
uma resistência não apenas ideológica,
o que é normal, mas irracional, violenta
e de natureza religiosa. O terrorismo é
hoje principalmente islâmico. Seria no entanto
uma aberração dele culpar a grande
maioria da população muçulmana
do globo. Há milhões de muçulmanos
na França, Alemanha, Espanha, Inglaterra
e Estados Unidos e só alguns, sobretudo
jovens, se estão aliando por conveniência
tática, a elementos locais tido como “esquerdistas”.
Ora, não se pode esquecer que, há
menos de 70 anos, Mussolini solenemente erguia
na Líbia a Espada da Jihad, como se dela
fosse o campeão, e Himmler, Chefe da Gestapo,
elogiava o Islam por flagrante oportunismo: ajudar
o Afrikakorp do marechal Rommel e obter o apoio
árabe para a “solução
final” do problema judaico.
Conselheiro para a Segurança
Nacional do Presidente Carter, o polonês
Zbigniew Brzezinski já escreveu várias
obras sobre os problemas que enfrentamos num mundo
em apuros. Totalitarian Dictatorship and Autocracy
(Harvard UP) é de 1956 e Between Two Ages:
America´s Role in the Technetronic Era (Viking),
de 1970. Elas lhe fizeram merecer o alto cargo
com que foi brindado por Carter – por sinal,
um dos mais medíocres Chefes de Estado
que os EEUU se permitiram eleger. Mais recentemente,
Brzezinski publicou um ensaio sobre o que talvez
seja a questão fundamental de nossa idade:
The Choice: Global Domination or Global Leadership
(Basic Books). Na perspectiva do professor polaco,
a escolha de dominação ou liderança
global seria, obviamente, a que deve fazer a América.
Sabemos, contudo, que a resposta decisiva na escolha
será dada por nós, cidadãos
conscientes de um mundo global. Como servidor
de um político do Partido Democrata, Brzezinski
não poupa críticas ao atual Presidente
Bush. Não esconde, entretanto, que a principal
contribuição para a mobilização
dos muçulmanos foi feita por Clinton ao
apoiar os afegãos na luta contra a invasão
soviética, os bósnios e albaneses
contra os comunistas sérvios de Milosevich,
sem falar (o que ele não diz) os próprios
árabes, fortalecendo Mubarak, no Egito,
e permitindo ao Kuwait reconquistar sua independência.
Os inimigos dos EEUU naturalmente alegam que o
próprio Saddam Hussein foi por eles armado
na guerra contra o Irã. Certo. Roosevelt
também salvou a União Soviética
dos invasores nazistas e, nesse sentido, protegeu
um bandido, Stáline, mais perigoso e cruel
do que Saddam. Na época, todos os defensores
da liberdade, inclusive o maior deles, Churchill,
aprovaram o recurso emergencial. Roosevelt igualmente
sustentou o ditador Getúlio Vargas e financiou
Volta Redonda – início de nossa expansão
industrial. Há muito que falar sobre essas
“escolhas” que nos enchem de perplexidade.
Isto é apenas o início de um longo
debate, cheio de ambigüidades, complexidades
e contradições...
|