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idéia que nosso país não
deve ser analisado sob um único aspecto
mas na base de uma duplicidade de modelos foi,
tanto quanto posso recordar, pela primeiro vez
sistematicamente formulada pelo sociólogo
francês Jacques Lambert, num livro de 1943.
Posteriormente, na época do ISEB e da presidência
JK, o professor Guerreiro Ramos em sua Introdução
aos Problemas do Brasil propôs que se analisasse
a situação a partir de um “impasse”
econômico. Este teria gerado um “cisma”
na vida de nosso povo, sendo o termo emprestado
de Toynbee. O cisma consistiria na coexistência
de duas sociedades, uma velha, com todos seus
compromissos com o passado, outra nova, implicando
novo estilo de vida ainda por criar ou apenas
ensaiado em círculos de vanguarda –
sendo a missão do ISEB e por extensão
a do presidente Kubitschek, a de “superar”
o impasse e o cisma, provocando a coalescência
dos dois Brasis através do próprio
desenvolvimento. A construção de
Brasília e as outras “metas”
de JK foram consideradas o método adequado
para a realização desse duplo propósito.
Finalmente, encontro no livro recente do “lusobrazilianista”
anglo-americano Kenneth Maxwell, Naked Tropics,
a mesma idéia, mas em forma diversa. Levando
em conta seu vezo “petista”, Maxwell
destaca de um lado “o Brasil dos banqueiros
e empresários” e o “novo Brasil
do ativismo político e social”.
Esta distinção me
desagrada profundamente: ela é falsa e
tendenciosa. Já escrevi a respeito e insisto
que o que está surgindo na configuração
do governo Lula é uma transposição
defeituosa do “modelo chinês”,
“uma nação, dois sistemas”.
De um lado o velho sistema burocrático-patrimonialista,
de ideologia de esquerda, concentrado em Brasília
(como, na China, no mandarinato da capital Beidjing);
do outro, o Brasil moderno da indústria
e da tecnologia, prosperando em S.Paulo e no Sul
em que pese a terrível carga tributária
e o complexo emaranhado de uma legislação
caduca, mais espessa do que o Mato Grosso. Ao
contrário da China, o Petismo ainda não
entendeu que, para sobreviver às custas
da nação (com mais de 50% do PIB),
não pode permanecer atado ao passado patrimonialista-clientelista
que desanima os investidores estrangeiros. Há
quatro anos, o Brasil só perdia para a
China em investimentos. Os procedentes dos EEUU
eram mesmo superiores aos que estavam enriquecendo
Hong-Kong, Xanghai e as grandes áreas litorâneas
da nova China. Mas a herança de Deng Xiaoping
é modernizante, pragmática e racional;
a receita de Lula é nordestina, reacionária
e irracional. No VEJA de 28 de janeiro último,
se explica perfeitamente “Por que o Brasil
não é Primeiro Mundo”. O contraste
com a política chinesa é flagrante
e o resultado deplorável é o que
seria de esperar. Enquanto nossa economia se mantém
estagnada, a da China cresce num processo tão
sensacional que seu PIB – na base ppp, purchasing
power parity do cálculo do Banco Mundial
– já teria superado o japonês,
registrando mais de quatro trilhões de
dólares anuais revelando todos os sinais
da progressiva abertura e colocando-a como a segunda
potência mundial. Não sou profeta,
costumo mesmo ouvi-los com profundo ceticismo
e pouca confiança deposito em “planejamentos”
conduzidos pelos governos. Enquanto o modelo brasileiro
for, digamos, o “modelo Sarney” ou
o “modelo Itamar” e não o “modelo
Deng Xiaoping”, teremos a estrutura geral
do Maranhão e não a de Putung, Hong
Kong ou Singapura.
Uns amigos e parentes meus estiveram
recentemente nesta última cidade que eu
conheci, há mais de 50 anos, como uma pequena,
nostálgica e provinciana colônia
britânica, reconstituindo-se depois de três
anos de ocupação inimiga. Hoje sua
silhueta compete com a de Manhattan e nela convivem,
caso único na Ásia, quatro comunidades
étnicas distintas: a chinesa, a mais numerosa,
rica e responsável pelo avanço;
a britânica, a menor delas porém
lhe tendo fornecido o arcabouço social,
jurídico e político de natureza
liberal; a malaia islâmica primitiva e a
indiana. O PIB percapita é de US$21 mil,
quase igual ao da Europa ocidental. Procura-se
explicar o progresso da pequena cidade-estado
pela bela conjugação da ética
protestante e da ética confucianista, na
geração de um espírito do
capitalismo moderno. Há igualmente uma
tradição de ordem e limpeza que
o velho ex-primeiro ministro e virtual ditador
Lee Kuanyew impôs em moldes de uma democracia
que classificaríamos como draconiana –
algo que, sob os aspectos formais do parlamentarismo,
mais parece o período do nosso saudoso
presidente Médici e com os mesmos resultados:
o milagre econômico. A má receita
de desenvolvimento é a que estamos adotando
do clientelismo com um governo patrimonialista
e uma economia socialista.
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