home
 

Considerações sobre Chávez, Fidel e El Che


Considerações sobre a guerra civil espanhola


Creta e um outro Tsunami

 
 
     

Jornal da Tarde, 15 de março de 2004
OS DOIS BRASIS

 
 

A idéia que nosso país não deve ser analisado sob um único aspecto mas na base de uma duplicidade de modelos foi, tanto quanto posso recordar, pela primeiro vez sistematicamente formulada pelo sociólogo francês Jacques Lambert, num livro de 1943. Posteriormente, na época do ISEB e da presidência JK, o professor Guerreiro Ramos em sua Introdução aos Problemas do Brasil propôs que se analisasse a situação a partir de um “impasse” econômico. Este teria gerado um “cisma” na vida de nosso povo, sendo o termo emprestado de Toynbee. O cisma consistiria na coexistência de duas sociedades, uma velha, com todos seus compromissos com o passado, outra nova, implicando novo estilo de vida ainda por criar ou apenas ensaiado em círculos de vanguarda – sendo a missão do ISEB e por extensão a do presidente Kubitschek, a de “superar” o impasse e o cisma, provocando a coalescência dos dois Brasis através do próprio desenvolvimento. A construção de Brasília e as outras “metas” de JK foram consideradas o método adequado para a realização desse duplo propósito. Finalmente, encontro no livro recente do “lusobrazilianista” anglo-americano Kenneth Maxwell, Naked Tropics, a mesma idéia, mas em forma diversa. Levando em conta seu vezo “petista”, Maxwell destaca de um lado “o Brasil dos banqueiros e empresários” e o “novo Brasil do ativismo político e social”.

Esta distinção me desagrada profundamente: ela é falsa e tendenciosa. Já escrevi a respeito e insisto que o que está surgindo na configuração do governo Lula é uma transposição defeituosa do “modelo chinês”, “uma nação, dois sistemas”. De um lado o velho sistema burocrático-patrimonialista, de ideologia de esquerda, concentrado em Brasília (como, na China, no mandarinato da capital Beidjing); do outro, o Brasil moderno da indústria e da tecnologia, prosperando em S.Paulo e no Sul em que pese a terrível carga tributária e o complexo emaranhado de uma legislação caduca, mais espessa do que o Mato Grosso. Ao contrário da China, o Petismo ainda não entendeu que, para sobreviver às custas da nação (com mais de 50% do PIB), não pode permanecer atado ao passado patrimonialista-clientelista que desanima os investidores estrangeiros. Há quatro anos, o Brasil só perdia para a China em investimentos. Os procedentes dos EEUU eram mesmo superiores aos que estavam enriquecendo Hong-Kong, Xanghai e as grandes áreas litorâneas da nova China. Mas a herança de Deng Xiaoping é modernizante, pragmática e racional; a receita de Lula é nordestina, reacionária e irracional. No VEJA de 28 de janeiro último, se explica perfeitamente “Por que o Brasil não é Primeiro Mundo”. O contraste com a política chinesa é flagrante e o resultado deplorável é o que seria de esperar. Enquanto nossa economia se mantém estagnada, a da China cresce num processo tão sensacional que seu PIB – na base ppp, purchasing power parity do cálculo do Banco Mundial – já teria superado o japonês, registrando mais de quatro trilhões de dólares anuais revelando todos os sinais da progressiva abertura e colocando-a como a segunda potência mundial. Não sou profeta, costumo mesmo ouvi-los com profundo ceticismo e pouca confiança deposito em “planejamentos” conduzidos pelos governos. Enquanto o modelo brasileiro for, digamos, o “modelo Sarney” ou o “modelo Itamar” e não o “modelo Deng Xiaoping”, teremos a estrutura geral do Maranhão e não a de Putung, Hong Kong ou Singapura.

Uns amigos e parentes meus estiveram recentemente nesta última cidade que eu conheci, há mais de 50 anos, como uma pequena, nostálgica e provinciana colônia britânica, reconstituindo-se depois de três anos de ocupação inimiga. Hoje sua silhueta compete com a de Manhattan e nela convivem, caso único na Ásia, quatro comunidades étnicas distintas: a chinesa, a mais numerosa, rica e responsável pelo avanço; a britânica, a menor delas porém lhe tendo fornecido o arcabouço social, jurídico e político de natureza liberal; a malaia islâmica primitiva e a indiana. O PIB percapita é de US$21 mil, quase igual ao da Europa ocidental. Procura-se explicar o progresso da pequena cidade-estado pela bela conjugação da ética protestante e da ética confucianista, na geração de um espírito do capitalismo moderno. Há igualmente uma tradição de ordem e limpeza que o velho ex-primeiro ministro e virtual ditador Lee Kuanyew impôs em moldes de uma democracia que classificaríamos como draconiana – algo que, sob os aspectos formais do parlamentarismo, mais parece o período do nosso saudoso presidente Médici e com os mesmos resultados: o milagre econômico. A má receita de desenvolvimento é a que estamos adotando do clientelismo com um governo patrimonialista e uma economia socialista.