| Luso-brazilianista
eminente e membro do Council on Foreign Relations,
onde exerce as funções de diretor
de estudos inter-americanos e encarregado de assuntos
brasileiros, Kenneth Maxwell dispõe de
considerável influência na conduta
do relacionamento diplomático com nosso
país. Sua formação e ligações
universitárias são consideráveis
– Cambridge, Yale, Princeton, Columbia!
E colabora com diversas publicações
como a NY Review Of Books onde descobri sua simpatia
pela candidatura de Luiz Inácio Lula da
Silva, sua surpresa favorável com a eleição
e a análise das dificuldades geradas pela
ambivalente administração petista.
Foi ele, presumo, que em 2002 redigiu uma importante
carta de prestigiosas personalidades americanas,
pedindo a atenção do presidente
Bush para a importância do Brasil no contexto
latino-americano. Esses documentos assim como
um artigo no The Economist de Londres criaram
uma atitude de expectativa positiva na opinião
estrangeira a nosso respeito, dentro da “eterna
vigilância” que, segundo John Philpot
Curran em 1790, é a condição
para os amantes da liberdade não serem
punidos com uma possível servidão.
Maxwell obviamente não se
sente atormentado por angústia semelhante
– não obstante esteja informado sobre
a natureza habitualmente instável do que
ele mesmo chama nossos Trópicos Nus. O
título curioso, Naked Tropics, é
o da coletânea que publicou ano passado
(NY, Routledge), versando, como anuncia, “o
Império e outros velhacos (rogues)”.
Qual é o Império e quais são
os velhacos, não é fácil
identificar mas vale insistir que Maxwell é
sobretudo um historiador luso-brasileiro e grande
parte de seus estudos cobrem aspectos da comunidade
de língua portuguesa que sobre ele exerce
incontestável fascínio. Já
escreveu sobre Pombal e simpatizou com a chamada
“revolução dos cravos”.
Mas pergunto: a idéia de um Império
Luso-brasileiro teria sido uma velhacaria? Certo,
ele se estende com maior ênfase sobre seus
aspectos negativos, a escravidão, o tráfico,
a pirataria, a destruição da floresta
amazônica, o assassinato de Chico Mendes
e outras faces sombrias do passado. Não
deixa de ser surpreendente, portanto, que atribua
à idéia de um Império Luso-brasileiro,
concebida pela geração de 1790,
o que nos salvou da anarquia da América
espanhola, o que proporcionou o aparecimento do
que o historiador francês Pierre Chaunu
qualificou de “Heureux Brésil”,
e a razão do “Por que é o
Brasil diferente?”. Foi a felicidade de
nossa história que jamais conhecemos a
violência das guerras civis e morticínios
politicamente inspirados que afetaram, quase sem
exceções, o hemisfério inteiro.
A seriedade dos estudos sobre a comunidade luso-brasileira
tornou Maxwell o principal herdeiro de uma ilustre
tradição de pesquisadores altamente
qualificados como Charles Wagley e Charles Boxer.
A este inglês que foi amigo de Gilberto
Freyre e tanto amou nosso país e à
sua amante americana de Hong-Kong, Emily Hahn,
dedica Maxwell um capítulo inteiro. A presença
de vinhetas, pequenos episódios ou intrigas
pouco conhecidas da história em momentos
cruciais de nossa vida coletiva é o que
nos seduz no livro de Maxwell. A leitura nos expõe
à exuberância de nossa natureza tropical
que, ao que parece, afetou o próprio autor,
criando a impressão que estamos percorrendo
um romance, o romance que é a expansão
do gosto pelo chocolate no Ocidente por exemplo;
ou o das histórias tenebrosas como a da
pirataria na costa conhecida como a da Barbaria
(Barbary Coast); ou o da “escravidão,
sexo e Mammon”, bem como o da Abolição
e Castro Alves; ou o da “tragédia
da Amazônia” – sem esquecer
que comete algumas injustiças como a referência
ao suposto genocídio dos índios
brasileiros sem explicar como pode correr o sangue
caboclo em pelo menos um terço da população
brasileira. Outra injustiça é a
acusação de cobiça, ingenuidade
e ignorância ecológica dirigida ao
bilionário Daniel Ludwig, um verdadeiro
herói que, depois do atrevido investimento
produtivo em nosso país contra todos os
obstáculos opostos pelos governos, deixou
o que restava de sua fortuna, para o tratamento
do câncer. Maxwell é obviamente um
romântico. Não é de espantar.
O traço romântico é inseparável
de toda postura ideológica e, se podemos
definir um dos elementos da distinção
esdrúxula que tanto atrapalha a análise
fria e objetiva de problemas políticos
- generalizaríamos acentuando que os extremos
são românticos e passionais enquanto,
por definição, o centro é
liberal, realista, pragmático, objetivo
e racional. Maxwell revela um espírito
levado aos entusiasmos emocionais quando confessa
a origem de seus laços afetivos com nosso
país no impacto que lhe causou o filme
Orfeu Negro, em 1959 - enquanto ouvia a multidão
cantando na rua, “Rio de Janeiro, cidade
que me seduz, de dia não tem água,
de noite não tem luz”... Atente-se,
sobretudo, para o capítulo de índole
petista, “Os Dois Brasis”, que compensa
o pessimismo reinante com a promessa de estarmos
empenhados numa das “mais dramáticas
histórias da primeira década do
século XXI”, com a inclusão
na voz política da massa da população
brasileira.
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