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Jornal da Tarde, 16 de fevereiro de 2004
MAXWELL E OS TRÓPICOS NUS

 
 

Luso-brazilianista eminente e membro do Council on Foreign Relations, onde exerce as funções de diretor de estudos inter-americanos e encarregado de assuntos brasileiros, Kenneth Maxwell dispõe de considerável influência na conduta do relacionamento diplomático com nosso país. Sua formação e ligações universitárias são consideráveis – Cambridge, Yale, Princeton, Columbia! E colabora com diversas publicações como a NY Review Of Books onde descobri sua simpatia pela candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, sua surpresa favorável com a eleição e a análise das dificuldades geradas pela ambivalente administração petista. Foi ele, presumo, que em 2002 redigiu uma importante carta de prestigiosas personalidades americanas, pedindo a atenção do presidente Bush para a importância do Brasil no contexto latino-americano. Esses documentos assim como um artigo no The Economist de Londres criaram uma atitude de expectativa positiva na opinião estrangeira a nosso respeito, dentro da “eterna vigilância” que, segundo John Philpot Curran em 1790, é a condição para os amantes da liberdade não serem punidos com uma possível servidão.

Maxwell obviamente não se sente atormentado por angústia semelhante – não obstante esteja informado sobre a natureza habitualmente instável do que ele mesmo chama nossos Trópicos Nus. O título curioso, Naked Tropics, é o da coletânea que publicou ano passado (NY, Routledge), versando, como anuncia, “o Império e outros velhacos (rogues)”. Qual é o Império e quais são os velhacos, não é fácil identificar mas vale insistir que Maxwell é sobretudo um historiador luso-brasileiro e grande parte de seus estudos cobrem aspectos da comunidade de língua portuguesa que sobre ele exerce incontestável fascínio. Já escreveu sobre Pombal e simpatizou com a chamada “revolução dos cravos”. Mas pergunto: a idéia de um Império Luso-brasileiro teria sido uma velhacaria? Certo, ele se estende com maior ênfase sobre seus aspectos negativos, a escravidão, o tráfico, a pirataria, a destruição da floresta amazônica, o assassinato de Chico Mendes e outras faces sombrias do passado. Não deixa de ser surpreendente, portanto, que atribua à idéia de um Império Luso-brasileiro, concebida pela geração de 1790, o que nos salvou da anarquia da América espanhola, o que proporcionou o aparecimento do que o historiador francês Pierre Chaunu qualificou de “Heureux Brésil”, e a razão do “Por que é o Brasil diferente?”. Foi a felicidade de nossa história que jamais conhecemos a violência das guerras civis e morticínios politicamente inspirados que afetaram, quase sem exceções, o hemisfério inteiro. A seriedade dos estudos sobre a comunidade luso-brasileira tornou Maxwell o principal herdeiro de uma ilustre tradição de pesquisadores altamente qualificados como Charles Wagley e Charles Boxer. A este inglês que foi amigo de Gilberto Freyre e tanto amou nosso país e à sua amante americana de Hong-Kong, Emily Hahn, dedica Maxwell um capítulo inteiro. A presença de vinhetas, pequenos episódios ou intrigas pouco conhecidas da história em momentos cruciais de nossa vida coletiva é o que nos seduz no livro de Maxwell. A leitura nos expõe à exuberância de nossa natureza tropical que, ao que parece, afetou o próprio autor, criando a impressão que estamos percorrendo um romance, o romance que é a expansão do gosto pelo chocolate no Ocidente por exemplo; ou o das histórias tenebrosas como a da pirataria na costa conhecida como a da Barbaria (Barbary Coast); ou o da “escravidão, sexo e Mammon”, bem como o da Abolição e Castro Alves; ou o da “tragédia da Amazônia” – sem esquecer que comete algumas injustiças como a referência ao suposto genocídio dos índios brasileiros sem explicar como pode correr o sangue caboclo em pelo menos um terço da população brasileira. Outra injustiça é a acusação de cobiça, ingenuidade e ignorância ecológica dirigida ao bilionário Daniel Ludwig, um verdadeiro herói que, depois do atrevido investimento produtivo em nosso país contra todos os obstáculos opostos pelos governos, deixou o que restava de sua fortuna, para o tratamento do câncer. Maxwell é obviamente um romântico. Não é de espantar. O traço romântico é inseparável de toda postura ideológica e, se podemos definir um dos elementos da distinção esdrúxula que tanto atrapalha a análise fria e objetiva de problemas políticos - generalizaríamos acentuando que os extremos são românticos e passionais enquanto, por definição, o centro é liberal, realista, pragmático, objetivo e racional. Maxwell revela um espírito levado aos entusiasmos emocionais quando confessa a origem de seus laços afetivos com nosso país no impacto que lhe causou o filme Orfeu Negro, em 1959 - enquanto ouvia a multidão cantando na rua, “Rio de Janeiro, cidade que me seduz, de dia não tem água, de noite não tem luz”... Atente-se, sobretudo, para o capítulo de índole petista, “Os Dois Brasis”, que compensa o pessimismo reinante com a promessa de estarmos empenhados numa das “mais dramáticas histórias da primeira década do século XXI”, com a inclusão na voz política da massa da população brasileira.