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O Estado de São Paulo, 16 de dezembro de 2004
A FALÁCIA DO EMPOBRECIMENTO

 
 

É comum em nosso país, tanto à esquerda quanto à direita, ouvirmos a observação banal que o país empobrece, o mundo empobrece e os “pobres se estão tornando cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos”. Ora, pode o Banco Mundial ser considerado um suspeito instrumento do “imperialismo”, mas os dados de seu World Development Report (2003), os únicos universalmente disponíveis, oriundos de informações procedentes dos próprios estados membros e elaboradas por técnicos, registrando embora a crise ocorrida no início do milênio, concede à atual população global de 6,132 bilhões um lento crescimento médio, baixo na África, alto na Ásia (4,5%), médio na Europa (2,4%) e América Latina, porém sempre positivo. Cabe notar que os USA, com 25% da renda total de cerca de 46 trilhões de dólares, podem, ultimamente, haver provocado uma ligeira recessão. Contudo, os USA tornaram-se a nau capitânia da economia global com um crescimento anual, a longo prazo, incluindo os anos da Grande Depressão, que se situa justamente na percentagem média de 2%. É sabido que, nos países mais ricos do mundo, Suíça, Noruega, Luxemburgo, EEUU, Japão - a classe média cresce forçosamente, com a redução e eventual desaparecimento do que se convencionou chamar pobreza. Na América, o fenômeno ainda não se registra porque o país recebe 500 mil imigrantes legais e clandestinos por ano. O processo de inserção na economia demora, embora logo melhorem os salários dos recém-chegados.

Na própria China a situação se tornou ambígua: “uma nação, dois sistemas”, como a desejou Deng Xiaoping. Quer dizer que os mandarins totalitários governam em Beidjing e os “compradores” capitalistas enriquecem em Xanghai, Hong-Kong e cidades litorâneas, alastrando a fortuna por toda a população urbana. Se à China acrescentarmos a Índia, temos aí em franco progresso econômico mais de dois terços do antigo “terceiro mundo” sub-desenvolvido. Mas meu querido colega Rubem Ricupero e muitos de seus acólitos da defunta Teologia da Libertação podem ainda martelar o conceito de “crescimento da pobreza”. A verdade é que ela universalmente regride. Longe de registrar falhas, a receita capitalista de livre emprego, privatização e intenso comércio internacional revela-se vitoriosa nos índices anuais do Banco Mundial. Na África, o continente problemático por excelência, o cenário de desenvolvimento econômico só não é mais positivo porque guerras civis, genocídios como os do Burundi, Angola, Etiópia e Sudão, fome e ditaduras cruéis atormentam a maior parte da faixa tropical ao sul do Sahara. O mesmo em nosso continente. Gozando ainda do maior percapita, paga a Argentina por décadas de peronismo e militarismo, enquanto o México e o Chile já lhe atingem a mesma renda graças aos regimes, economicamente mais liberais, do PAN e dos “Chicago Boys” de Pinochet.

Se, no Brasil, o “milagre econômico”, gerado no governo Médici dos anos 70 pelas iniciativas de Bulhões e Roberto Campos no de Castello, foi sucedido pela estagnação relativa posterior, procurem as causas na estatização galopante do Herr General Ernst von Geisel, na crise inflacionária da Nova República e no empreguismo público explosivo dos governos subseqüentes, só com má vontade contido pelos oito anos de FHC. O tratamento do vício inflacionário-estatizante custa a produzir resultados. Em que pesem, porém, as choramingas hipócritas de monstrengos do tipo Lessa e as benemerências dos Amorim, Palocci e Meireles , o barbudo Papai Noel que atualmente nos governa (Boas Festas, ó gente!) ainda reduz suas promessas a “dez milhões de empregos” - dez milhões, que é o de que, normalmente, se precisa com o crescimento natural da população brasileira em quatro (ou serão oito anos?) de expansão demográfica.

A falsa teoria do empobrecimento foi inventada por Johan K. Rodbertus (+1875). Esse economista prussiano propôs a regulamentação dos salários pelo Estado – a primeira amostra da perversa ideologia intervencionista que gosto de chamar “nacional-socialista”. O tema tornou-se saliente na obra de Kautsky que sobre isso brigou com Marx. Acreditando no inevitável e progressivo empobrecimento do proletariado, Marx sobre esse destino nefasto edificou sua teoria da revolução comunista que, pelas “leis férreas da história” (que só ele conhecia), forçosamente socializaria todos os meios de produção.

A questão é tratada, com a finura e ironia de sempre, por Ludwig von Mises em sua obra sobre o “Socialismo”, publicada inicialmente em 1936. Nota o famoso economista austríaco que Mandeville e Hume, “os dois maiores observadores da natureza humana”, salientaram que crescem o ressentimento e a inveja justamente quando mais próximas se tornam as classes ricas e pobres. Tocqueville já notara o paradoxo em seu estudo sobre a Revolução Francesa. A cobiça dos “menos ricos” se exacerba com o desenvolvimento econômico que tende a aproximar os extremos, reduzindo as desigualdades. “A doutrina do crescimento relativo da pobreza social nada mais é do que uma tentativa de justificação de políticas inspiradas no ressentimento das massas”, acentua Mises. Inveja e ressentimento existem, precisamente, onde cresce a fortuna popular, como natural reação estimuladora do enriquecimento geral. Menos ressentimentos, invejas e intrigas, e ouçamos o que nos disseram Hume, Mandeville, Smith, Mises, Hayek (e Bob Fields).

É no modelo liberal da Índia, Chile e México que devemos procurar o paradigma do desenvolvimento acelerado. Não para empobrecer, para enriquecer!