| Levei
em séria consideração o artigo
de Ian Buruna, Amor Perdido – o Fim
da Americanofilia – no ESTADÃO
de domingo 31 de outubro. Não só
admiro as posições desse professor
britânico que leio na New-York Review
of Books, mas não tenho as mesmas
prevenções de Buruna contra Bush.
Muito embora creio ser o Presidente americano
desprovido de duas virtudes, dois misteriosos
imponderáveis da política –
o carisma e a retórica – acredito
nas razões que o levaram a derrubar Saddam
Hussein, tema a que dedicarei outro artigo. Entretanto,
considero inúteis, e até mesmo ridículas,
as racionalizações invocadas no
sentido de justificar a guerra no Iraque pelo
programa de transformar esse amálgama confuso
e anárquico de sunitas, xiitas, curdos
e iranianos num Estado funcional. Invoco meu ceticismo
com a experiência diplomática de
sete anos no Oriente Médio: a democracia
tem pouco futuro na região. Mais certo
estava Wittfogel quando, inspirado numa observação
de Marx, concebeu o conceito de “Despotismo
Oriental” como particularmente adequado
à incoercível atração
dos povos árabes pela fórmula hegeliana
de dialética em que “o real é
racional” – sendo a seleção,
geralmente sangrenta, do líder carismático
através do confronto violento dos candidatos.
O problema não é, por conseguinte,
o de seus méritos eventuais, mas sobretudo
da astúcia e da sorte... ou, se quiserem,
dos misteriosos desígnios de Allah todo-poderoso
in excelsis, bendito seja!, que saberá
escolher o melhor.
Nunca houve exemplo de democracia muçulmana,
muito menos árabe. O que sempre funcionou
em sua história foi a tirania, o despotismo,
a guerra civil no momento sensível de sucessão,
o recurso ao assassino (da palavra árabe
haxixim, matador embriagado de maconha)
como instrumento de ação no debate
político que precede a transmissão
do poder. Não alimento esperança
alguma que um regime político estável,
menos ainda “racional-legal” –
o mais perfeito, porém mais difícil
entre todos - venha a prevalecer entre populações
de mentalidade tribal tão primária
e educação tão deficiente.
A raça, conhecida por sua agitação,
gênio poético, emotividade febril,
fértil imaginação e estrutura
social essencialmente personalista e patrimonialista,
não está madura para a tentativa
pedagógica de imposição,
mesmo em caráter experimental, de um tal
complexo sistema de ordem abstrata. A Turquia
não conta pois a essência do kemalismo
foi o repúdio à religião.
A Turquia pode tornar-se uma nação
européia. O que na Europa e na Ásia
oriental permitiu obter a estabilidade sistêmica
foi a aplicação de um método
qualquer de separação entre política
e religião ou entre o clero e a elite governante
– o que se chama a idéia dualística
dos “dois gládios”, um temporal
e o outro espiritual.
Ora, o Islam é uma religião política.
Isso o distingue do Budismo e do Cristianismo,
pelo menos em sua raízes espirituais, fato
único entre os grandes sistemas místicos
que organizam as sociedades. Creio que, no próprio
termo Islam – “submissão”
– encontramos a raiz de sua inapetência
política, eis que nas origens greco-romanas
de nossa tradição judeo-cristã
funciona, como idéia-força original,
a liberdade e autonomia moral sob o império
da lei abstrata. Sendo o próprio Profeta
um guerreiro, além de negociante em camelos,
o Islam principiou com o homicídio de seus
dois herdeiros, Ali e Hussein, e, nos 1300 anos
de história, só duas dinastias conseguiram
marcar sua presença menos precária
e transitória, os Otomanos e os Grão-Mogóis
da Índia - ambas criações
de turcos ou turco-iranianos que possuíam
talento político e militar - e estou falando
aqui em disciplina social, na ordem impalpável
que mistura tolerância e autoridade, sem
a qual a própria democracia não
funciona. Mesmo no regime otomano, que durou alguns
séculos, o método do Sultão
para evitar a anarquia consistia em eliminar todos
seus filhos poligâmicos, menos o favorito
a quem pretendia entregar o poder. Na Europa com
sua herança greco-romana, assim como na
China e Japão, a sucessão dinástica
regular resultou de uma experiência preliminar
de feudalismo que educou a aristocracia governante,
de samurais ou mandarins, na disciplina de uma
ordem hierárquica abstrata e contratualista.
Há dois anos, numa reunião da Sociedade
do Mont Pèlerin, ouvi um professor de ciência
política italiano apresentar o argumento
ponderável que a Constituição
americana oferece uma fórmula de aplicação
na ordem internacional global – mesmo incluindo
a China, a Índia, esta educada pelos ingleses.
Mas o que fazer com o Oriente Médio? Como
“converter” os beduínos das
Arábias? Buruna lamenta as transformações
ocorridas nos costumes liberais americanos, para
controle de suas fronteiras, como reação
ao trauma sem precedentes do “11 de Setembro”.
Mas a verdade é que o choque sofrido tem
que ser levado em consideração por
seu ineditismo. A capacidade que tiveram os anglo-saxões
e os franceses de criar uma “ideologia”
política de aplicabilidade universal que
garanta os direitos individuais, se deparou com
o obstáculo aparentemente insuperável
do terrorismo. A vocação de missionário
evangélico esbarrou com essa imprevista
resistência suicida à idéia,
simultaneamente abstrata e concreta, de democracia
global. O choque de incompreensão não
foi apenas o ataque às Torres Gêmeas.
É o próprio desafio à ilusão
idealista de uma democratização
“americanizada”. Converter à
democracia um Osama bin-Laden, um Saddam Hussein,
um Gadafi? Que louca fantasia!
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