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Considerações sobre Chávez, Fidel e El Che


Considerações sobre a guerra civil espanhola


Creta e um outro Tsunami

 
 
     

O Estado de São Paulo, 18 de novembro de 2004
SOBRE UM AMOR NÃO PERDIDO

 
 

Levei em séria consideração o artigo de Ian Buruna, Amor Perdido – o Fim da Americanofilia – no ESTADÃO de domingo 31 de outubro. Não só admiro as posições desse professor britânico que leio na New-York Review of Books, mas não tenho as mesmas prevenções de Buruna contra Bush. Muito embora creio ser o Presidente americano desprovido de duas virtudes, dois misteriosos imponderáveis da política – o carisma e a retórica – acredito nas razões que o levaram a derrubar Saddam Hussein, tema a que dedicarei outro artigo. Entretanto, considero inúteis, e até mesmo ridículas, as racionalizações invocadas no sentido de justificar a guerra no Iraque pelo programa de transformar esse amálgama confuso e anárquico de sunitas, xiitas, curdos e iranianos num Estado funcional. Invoco meu ceticismo com a experiência diplomática de sete anos no Oriente Médio: a democracia tem pouco futuro na região. Mais certo estava Wittfogel quando, inspirado numa observação de Marx, concebeu o conceito de “Despotismo Oriental” como particularmente adequado à incoercível atração dos povos árabes pela fórmula hegeliana de dialética em que “o real é racional” – sendo a seleção, geralmente sangrenta, do líder carismático através do confronto violento dos candidatos. O problema não é, por conseguinte, o de seus méritos eventuais, mas sobretudo da astúcia e da sorte... ou, se quiserem, dos misteriosos desígnios de Allah todo-poderoso in excelsis, bendito seja!, que saberá escolher o melhor.

Nunca houve exemplo de democracia muçulmana, muito menos árabe. O que sempre funcionou em sua história foi a tirania, o despotismo, a guerra civil no momento sensível de sucessão, o recurso ao assassino (da palavra árabe haxixim, matador embriagado de maconha) como instrumento de ação no debate político que precede a transmissão do poder. Não alimento esperança alguma que um regime político estável, menos ainda “racional-legal” – o mais perfeito, porém mais difícil entre todos - venha a prevalecer entre populações de mentalidade tribal tão primária e educação tão deficiente. A raça, conhecida por sua agitação, gênio poético, emotividade febril, fértil imaginação e estrutura social essencialmente personalista e patrimonialista, não está madura para a tentativa pedagógica de imposição, mesmo em caráter experimental, de um tal complexo sistema de ordem abstrata. A Turquia não conta pois a essência do kemalismo foi o repúdio à religião. A Turquia pode tornar-se uma nação européia. O que na Europa e na Ásia oriental permitiu obter a estabilidade sistêmica foi a aplicação de um método qualquer de separação entre política e religião ou entre o clero e a elite governante – o que se chama a idéia dualística dos “dois gládios”, um temporal e o outro espiritual.

Ora, o Islam é uma religião política. Isso o distingue do Budismo e do Cristianismo, pelo menos em sua raízes espirituais, fato único entre os grandes sistemas místicos que organizam as sociedades. Creio que, no próprio termo Islam – “submissão” – encontramos a raiz de sua inapetência política, eis que nas origens greco-romanas de nossa tradição judeo-cristã funciona, como idéia-força original, a liberdade e autonomia moral sob o império da lei abstrata. Sendo o próprio Profeta um guerreiro, além de negociante em camelos, o Islam principiou com o homicídio de seus dois herdeiros, Ali e Hussein, e, nos 1300 anos de história, só duas dinastias conseguiram marcar sua presença menos precária e transitória, os Otomanos e os Grão-Mogóis da Índia - ambas criações de turcos ou turco-iranianos que possuíam talento político e militar - e estou falando aqui em disciplina social, na ordem impalpável que mistura tolerância e autoridade, sem a qual a própria democracia não funciona. Mesmo no regime otomano, que durou alguns séculos, o método do Sultão para evitar a anarquia consistia em eliminar todos seus filhos poligâmicos, menos o favorito a quem pretendia entregar o poder. Na Europa com sua herança greco-romana, assim como na China e Japão, a sucessão dinástica regular resultou de uma experiência preliminar de feudalismo que educou a aristocracia governante, de samurais ou mandarins, na disciplina de uma ordem hierárquica abstrata e contratualista.

Há dois anos, numa reunião da Sociedade do Mont Pèlerin, ouvi um professor de ciência política italiano apresentar o argumento ponderável que a Constituição americana oferece uma fórmula de aplicação na ordem internacional global – mesmo incluindo a China, a Índia, esta educada pelos ingleses. Mas o que fazer com o Oriente Médio? Como “converter” os beduínos das Arábias? Buruna lamenta as transformações ocorridas nos costumes liberais americanos, para controle de suas fronteiras, como reação ao trauma sem precedentes do “11 de Setembro”. Mas a verdade é que o choque sofrido tem que ser levado em consideração por seu ineditismo. A capacidade que tiveram os anglo-saxões e os franceses de criar uma “ideologia” política de aplicabilidade universal que garanta os direitos individuais, se deparou com o obstáculo aparentemente insuperável do terrorismo. A vocação de missionário evangélico esbarrou com essa imprevista resistência suicida à idéia, simultaneamente abstrata e concreta, de democracia global. O choque de incompreensão não foi apenas o ataque às Torres Gêmeas. É o próprio desafio à ilusão idealista de uma democratização “americanizada”. Converter à democracia um Osama bin-Laden, um Saddam Hussein, um Gadafi? Que louca fantasia!