| A
controvérsia causada pelo tratamento dispensado
aos cerca de setenta mil turistas americanos que
vêm gastar seus dólares na Pindorama
carnavalesca (em média US$300 por dia)
merece alguns comentários. Refiro-me particularmente
ao artigo no JT de 3 do corrente: “Estupidez
contra Prepotência” , de José
Nêumanne, a quem muito admiro. Meu intuito
é rogar a atenção dos leitores
para alguns fatos pertinentes, desconsiderados
no debate. O primeiro deles é a desordem
e prepotência reinantes no policiamento
tupiniquim de imigração e turismo.
Há 40 anos, servindo em Zurique como Cônsul
Geral, descobri que havíamos assinado um
acordo de dispensa de vistos com a Confederação
Helvética e, no entanto, os turistas deviam
acorrer ao Consulado onde seus passaportes eram
carimbados com a proclamação: “Está
dispensado de visto”. O visto que se dispensa
a si próprio não era uma aberração,
como inicialmente pensei, é uma necessidade
eis que os turistas, suíços e outros,
encontravam e continuam encontrando obstáculos
e riscos nos aeroportos, antes de serem acolhidos
em nossas praias paradisíacas. A prática
do visto em passaporte que dele próprio
se dispensa persiste pelos motivos de sempre -
a ignorância e a desfaçatez. Trabalhando
na Divisão de Imigração e
Passaportes do Itamaraty durante a Guerra (1942/44),
verifiquei o estado de verdadeiro caos na distribuição
de passaportes virgens pelas polícias dos
estados. O Pará, por exemplo, expedia seus
próprios documentos, de modelo original,
destinados aos amigos do Interventor local. O
Estado de 7.1.2004 anuncia que o passaporte brasileiro
é um dos menos confiáveis, o que
explica não ser nem mesmo considerado como
documento de identidade por muitas de nossas autoridades
públicas. Como se pode então pretender
que sejam abre-te-sésamos para estrangeiras?
Mais ainda. Uma determinada cidade mineira, Governador
Valladares, é um centro risonho e próspero
porque se especializou na indústria de
vistos falsos para os Estados Unidos. O problema
não se refletiu apenas, negativamente,
para governantes que, há muitos anos, tendem
a contemplar o Brasil como obstinado falsário,
notório na pirataria e teimoso caloteiro
(em declaração recente, até
o Presidente do Senado aconselha calotearmos mais
uma vez). Dos cinco a dez milhões de clandestinos
existentes nos EEUU, algumas centenas de milhares
(cálculo hipotético; 300 000, 6%
das entradas) procedem de nosso país e,
em Miami, Boston e Nova York, constituem respeitáveis
comunidades, desde engraxates e lixeiros a estudantes
e empresários de classe média, pois
os que possuem visto regular estão nos
altos escalões da Goldman&Sachs. Muitos
dos emigrantes irregulares entram de cambulhada
pelo México, adicionando-se no Texas e
Califórnia às levas de ansiosos
candidatos aos horrores do capitalismo selvagem
e ao inferno do imperialismo arrogante, meia milhão
por ano, pelo menos. Acontece que, se é
relativamente fácil entrar nos Estados
Unidos, nenhum controle existia quanto ao exit.
O mecanismo eletrônico de identificação
agora estabelecido demora alguns segundos e permitirá
computerizar entrada e saída, reduzir a
clandestinidade e obter, finalmente, uma estatística
aproximada dos estranhos no ninho, nela tentando
descobrir terroristas islâmicos que agem
de maneira predatória não-convencional.
Os americanos estão conscientes da diferença
entre as duas espécies de muros: os de
uma prisão, campo de concentração,
Cortina de Ferro ou Muro de Berlim; e os que delimitam
uma propriedade particular. Os do primeiro modelo
são socialistas, os do segundo, capitalistas.
Nesse ponto, os ianques são tão
abertos que não costumam construir muros
em volta de seus jardins e a prática de
exigir vistos de imigração é
relativamente recente. As fronteiras são
muros coletivos e, por Ellis Island no porto de
Nova York, passaram quarenta milhões de
imigrantes sem passaportes. Muito a contra gosto,
entretanto, descobriram que são obrigados
a reforçar as fronteiras para não
serem ameaçados em suas próprias
vidas (ataque de 11 de Novembro) e na concorrência
barata de clandestinos no mercado de trabalho.
O Primeiro Ministro José Dirceu falou em
“reciprocidade” a propósito
dos vexames impostos aos americanos que, vestidos,
pretendem entrar nestes Naked Tropics do brazilianista
Kenneth Maxwell. Para haver perfeita Reciprocidade
deve haver Simetria nas situações.
Ora, esta não existe pois nós ganhamos
com a entrada de empresários e turistas;
e eles perdem com os clandestinos, entre os quais
matadores terroristas. Suprimir vistos, como sugere
o Presidente, é perigoso: um milhão
de brasileiros fugiriam para o indigitado inferno,
enquanto perseguir o turista por ressentimento,
ódio ideológico, xenofobia ou falsa
vaidade é estupidez, é cuspir contra
o vento...
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