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Brasília, 23 de setembro de 2004
SANTOS DUMONT

 
 

A 22 de outubro de 1906, deu Alberto Santos-Dumont o mais importante passo na descoberta da aviação, com um vôo de 60 metros a três metros do solo, em Bagatelle, subúrbio de Paris. Usou, para isso, seu aparelho 14 bis. Vinte dias depois, repetiu a façanha, voando 220 metros e ganhando um prêmio do recém-fundado Aéro-Club de France. Um monumento em Saint-Cloud registra os vôos –amplamente documentados e realizados sob controle do clube.

Dentro de dois anos, vamos comemorar o evento com as homenagens que merecem, mas me permito sugerir que, desde já, nos preparemos. Como se sabe, os americanos dão prioridade aos irmãos Orville e Wilbur Wright que, em 1903, numa praia da Carolina do Norte e sem testemunhas, usaram um planador. Ora, segundo todas as indicações, o aparelho dos irmãos Wright não possuía um motor aerodinamicamente capaz de eleva-lo a uma altura qualquer, na relação peso do avião X potência do motor. A realidade mais provável é que os irmãos Wright apenas planaram sobre a praia, a partir de uma pequena elevação, denominada Kill Devil Hill, depois de haverem sido empurrados para o ar. Foi esse verbo planar, glide em inglês, o que constou do telegrama enviado naquele dia pelo funcionário do correio, Alpheus Drinkwater, encarregado de transmitir a notícia espetacular ao mundo.
Acontece que os EEUU dispõem não só de meios de marketing muito mais consideráveis do que nós, mas se esmeram em proclamar a glória de seus heróis, o que, habitualmente, não é nosso caso. No museu do Ar e do Espaço de Washington, Santos Dumont é apresentado com uma pequena fotografia, dando a entender que o brasileiro só se interessou pelo problema DEPOIS de tomar conhecimento da iniciativa dos irmãos Wright: “After the Wright brothers´ flights in 1903, Santos-Dumont began to experiment with heavier-than-air machines...).

Na verdade, esses vôos dos pioneiros brasileiro e americanos que, posteriormente, fizeram outras contribuições para a aviação, marca um ponto importante no progresso tecnológico da humanidade. Mas, sA verdade também é que uma porção de outros inventores, principalmente franceses, ingleses e alemães entre os quais, Curtiss, Farman, Blériot e Voisin, estavam experimentando seus aparelhos, aproveitando-se dos aperfeiçoamentos realizados quando deles estavam informado, de tal maneira que o problema da prioridade se tornou extremamente confuso e, até, odioso.
Os irmãos Wright jamais tentaram demonstrar sua precedência ou tomaram qualquer iniciativa para assegurar a patente da invenção, muito embora, filhos de um pastor evangélico, possuíssem poucos recursos. Num recente número do New York Review of Books dedicado à invenção do aeroplano, grande ênfase é dada à pobreza e esforço do mecânicos ianques, enquanto Santos-Dumont é apresentado como uma espécie de playboy, filho de um francês, rico fazendeiro de café, que fora se divertir em Paris e aproveitara as horas vagas para ganhar fama com o capricho de voar. Em 1918 e de novo em 1929 Santos Dumont escreveu textos, queixando-se da injustiça e ingratidão de que sofria, e acusando claramente os irmãos Wright de haverem, posteriormente, “aparecido com uma máquina melhor do que a dele (Santos Dummont) e pretendendo ser uma cópia da que ele havia construído anteriormente”. As reclamações de nosso patrício se sustentam, inclusive, no fato de um famoso jornalista americano da época, Gordon Bennett, haver publicado várias reportagens sobre as experiências e vôos de Santo Dumont, em França, sem jamais haver mencionado as de seus próprios patrícios. Seria estranho que desprezasse o feito nacional em favor de um estrangeiro, se não respeitasse a verdade dos fatos registrados.

A partir de 1904 e 1906, os pioneiros continuaram a aperfeiçoar seus “aviões” e “aeroplanos” (avions em francês, airplanes em inglês) até que Santos Dumont apresentou o Demoiselle. Esta máquina já possui todas as características do avião moderno, com um só par de asas e motor na frente. No meu entender, seria o modelo que deveria ser por nós utilizado para a divulgação da prioridade de nosso patrício. O que proponho neste artigo é que o Ministério da Defesa, através do Comando da Aviação, desenvolva uma série de réplicas do Demoiselle e, se assim desejar, do próprio 14.bis, oferecendo-as ao principais museus de ciência e tecnologia do mundo. Sugiro o próprio National Air and Space Museum de Washington, o Museu da Ciência em Munique, o de Chicago, o British Museum de Londres, o Parque da Tecnologia em La Villette, Paris, e quantos outros houver no mundo desenvolvido. O presente do modelo do Demoiselle, acompanhado de literatura apropriada sobre o feito de nosso compatriota, poderia contribuir para restabelecer a verdade histórica nessa questão.

É bem possível que o sentimento da injustiça cometida a seu respeito e o trauma causado pelo acidente aéreo que matou amigos seus fora da barra do Rio, quando voltava ao Brasil de navio, assim como o uso de um avião pelo governo de Getúlio Vargas para bombardear forças paulistas durante a chamada Revolução Constitucionalista de 1932, tenham contribuído para o drama de sua depressão e suicídio final, em julho daquele ano.

Informações sobre a polêmica questão podem ser encontradas na Internet em www.centennialof offlight.gov/essay/Dictionary/Santos-Dumont/D141.htm assim como www.cabangu.com.br/pai_da_aviação/ Faço votos, de qualquer forma, que o Senhor Ministro da Defesa, diplomata e homem culto, tome a peito essa legítima homenagem ao grande brasileiro.