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22 de outubro de 1906, deu Alberto Santos-Dumont
o mais importante passo na descoberta da aviação,
com um vôo de 60 metros a três metros
do solo, em Bagatelle, subúrbio de Paris.
Usou, para isso, seu aparelho 14 bis. Vinte dias
depois, repetiu a façanha, voando 220 metros
e ganhando um prêmio do recém-fundado
Aéro-Club de France. Um monumento em Saint-Cloud
registra os vôos –amplamente documentados
e realizados sob controle do clube.
Dentro de dois anos, vamos comemorar
o evento com as homenagens que merecem, mas me
permito sugerir que, desde já, nos preparemos.
Como se sabe, os americanos dão prioridade
aos irmãos Orville e Wilbur Wright que,
em 1903, numa praia da Carolina do Norte e sem
testemunhas, usaram um planador. Ora, segundo
todas as indicações, o aparelho
dos irmãos Wright não possuía
um motor aerodinamicamente capaz de eleva-lo a
uma altura qualquer, na relação
peso do avião X potência do motor.
A realidade mais provável é que
os irmãos Wright apenas planaram sobre
a praia, a partir de uma pequena elevação,
denominada Kill Devil Hill, depois de haverem
sido empurrados para o ar. Foi esse verbo planar,
glide em inglês, o que constou do telegrama
enviado naquele dia pelo funcionário do
correio, Alpheus Drinkwater, encarregado de transmitir
a notícia espetacular ao mundo.
Acontece que os EEUU dispõem não
só de meios de marketing muito mais consideráveis
do que nós, mas se esmeram em proclamar
a glória de seus heróis, o que,
habitualmente, não é nosso caso.
No museu do Ar e do Espaço de Washington,
Santos Dumont é apresentado com uma pequena
fotografia, dando a entender que o brasileiro
só se interessou pelo problema DEPOIS de
tomar conhecimento da iniciativa dos irmãos
Wright: “After the Wright brothers´
flights in 1903, Santos-Dumont began to experiment
with heavier-than-air machines...).
Na verdade, esses vôos dos
pioneiros brasileiro e americanos que, posteriormente,
fizeram outras contribuições para
a aviação, marca um ponto importante
no progresso tecnológico da humanidade.
Mas, sA verdade também é que uma
porção de outros inventores, principalmente
franceses, ingleses e alemães entre os
quais, Curtiss, Farman, Blériot e Voisin,
estavam experimentando seus aparelhos, aproveitando-se
dos aperfeiçoamentos realizados quando
deles estavam informado, de tal maneira que o
problema da prioridade se tornou extremamente
confuso e, até, odioso.
Os irmãos Wright jamais tentaram demonstrar
sua precedência ou tomaram qualquer iniciativa
para assegurar a patente da invenção,
muito embora, filhos de um pastor evangélico,
possuíssem poucos recursos. Num recente
número do New York Review of Books dedicado
à invenção do aeroplano,
grande ênfase é dada à pobreza
e esforço do mecânicos ianques, enquanto
Santos-Dumont é apresentado como uma espécie
de playboy, filho de um francês, rico fazendeiro
de café, que fora se divertir em Paris
e aproveitara as horas vagas para ganhar fama
com o capricho de voar. Em 1918 e de novo em 1929
Santos Dumont escreveu textos, queixando-se da
injustiça e ingratidão de que sofria,
e acusando claramente os irmãos Wright
de haverem, posteriormente, “aparecido com
uma máquina melhor do que a dele (Santos
Dummont) e pretendendo ser uma cópia da
que ele havia construído anteriormente”.
As reclamações de nosso patrício
se sustentam, inclusive, no fato de um famoso
jornalista americano da época, Gordon Bennett,
haver publicado várias reportagens sobre
as experiências e vôos de Santo Dumont,
em França, sem jamais haver mencionado
as de seus próprios patrícios. Seria
estranho que desprezasse o feito nacional em favor
de um estrangeiro, se não respeitasse a
verdade dos fatos registrados.
A partir de 1904 e 1906, os pioneiros
continuaram a aperfeiçoar seus “aviões”
e “aeroplanos” (avions em francês,
airplanes em inglês) até que Santos
Dumont apresentou o Demoiselle. Esta máquina
já possui todas as características
do avião moderno, com um só par
de asas e motor na frente. No meu entender, seria
o modelo que deveria ser por nós utilizado
para a divulgação da prioridade
de nosso patrício. O que proponho neste
artigo é que o Ministério da Defesa,
através do Comando da Aviação,
desenvolva uma série de réplicas
do Demoiselle e, se assim desejar, do próprio
14.bis, oferecendo-as ao principais museus de
ciência e tecnologia do mundo. Sugiro o
próprio National Air and Space Museum de
Washington, o Museu da Ciência em Munique,
o de Chicago, o British Museum de Londres, o Parque
da Tecnologia em La Villette, Paris, e quantos
outros houver no mundo desenvolvido. O presente
do modelo do Demoiselle, acompanhado de literatura
apropriada sobre o feito de nosso compatriota,
poderia contribuir para restabelecer a verdade
histórica nessa questão.
É bem possível que
o sentimento da injustiça cometida a seu
respeito e o trauma causado pelo acidente aéreo
que matou amigos seus fora da barra do Rio, quando
voltava ao Brasil de navio, assim como o uso de
um avião pelo governo de Getúlio
Vargas para bombardear forças paulistas
durante a chamada Revolução Constitucionalista
de 1932, tenham contribuído para o drama
de sua depressão e suicídio final,
em julho daquele ano.
Informações sobre
a polêmica questão podem ser encontradas
na Internet em www.centennialof offlight.gov/essay/Dictionary/Santos-Dumont/D141.htm
assim como www.cabangu.com.br/pai_da_aviação/
Faço votos, de qualquer forma, que o Senhor
Ministro da Defesa, diplomata e homem culto, tome
a peito essa legítima homenagem ao grande
brasileiro.
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