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Jornal da Tarde, 24 de maio de 2004
ZEBEDEU BARBU E O BRASIL

 
 

Zevedei Barbu foi um professor romeno, nascido em 1914 na Transylvania, que teve o privilégio de haver vivido, em sua pátria, sob quatro tipos diversos de regime. Quando ainda jovem, conheceu a monarquia absolutista do rei Carol II. Durante algum tempo, foi uma democracia plena o que sempre constituiu uma exceção na região balcânica. Depois de um período de agitação que provocou a queda e subseqüente exílio do monarca, a Romênia caiu sob o curto domínio da Guarda de Ferro, movimento fascista de extrema violência, espécie de Hezbollá cristão, logo substituído pela ditadura militar do marechal Antonescu, apoiado por Hitler. Barbu participou então da campanha da Rússia mas, entre 42 e 44, passou dois anos encarcerado como comunista. Com a derrota do Eixo e ocupação soviética, o país tentou preservar sua independência graças a uma coalizão de esquerda e, como diplomata, Barbu chegou a conhecer no Kremlin algumas das suas mais importantes figuras, Beria, Malenkov, Vishinski e o próprio Stáline. Serviu depois na embaixada em Londres. Entretanto, já antecipando a queda de sua pátria sob a tirania nacional-comunista de Ceaucescu, foi lecionar nas Universidades de Glasgow e Sussex, e posteriormente na África, Canadá e Estados Unidos.

Barbu já havia então publicado dois importantes livros, Dictatorship em Democracy, 1956, e Problems of Historical Psychology, 1960, quando recebeu convite para vir ao Brasil pelo então Reitor da Universidade de Brasília, José Carlos Azevedo (1976). Na UnB, Barbu se concentrou em problemas de filosofia política e, particularmente, de sociologia no respectivo Departamento cujo decano era Gentil Martins Dias. Para a Editora da UnB, escreveu um pequeno ensaio introdutório ao grande livro de Tocqueville, O Antigo Regime e a Revolução. Já então com residência fixa em Brasília, aposentou-se em 86 e, numa quase penúria, faleceu seis anos depois. Dadas as dificuldades de língua e adaptação, falta de uma determinação clara sobre sua “ideologia”, assim como as desconfianças que seu liberalismo gerou em nosso meio, tanto de parte dos militares quanto da intelligentsia esquerdizante, Barbu reagiu com horror ao que considerava o caminho do Brasil para o totalitarismo que tão bem conhecia e naturalmente abominava. Citando SS João Paulo II, que dizia serem os brasileiros “afetivamente mas não efetivamente católicos”, Barbu nos considerava narcisistas irresponsáveis e, já em 1991, referia-se com horror à forma de populismo dominante no nosso cenário político, à convicção ingênua que se deve “tirar dos ricos para dar aos pobres” e às formulas “mágicas” e tropeços, na retórica ambígua do Lula. Obviamente, acreditava que o comunismo se implantaria em nosso país graças ao potencial altamente ilusionista de ideólogos semi-analfabetos, cuja psicologia tão sabiamente analisara – como fizera aliás seu compatriota Virgilio Gheorghiu em A Vigésima Quinta Hora. Sentindo-se boicotado pelos colegas da UnB e afastado de sólidas amizades, caiu em profunda depressão, no temor de um novo período turbulento como o que afetara sua mocidade. Numa tentativa de conservar a memória desse eminente intelectual que deixou uma enorme quantidade manuscritos inéditos, o professor Bráulio de Matos, também da UnB, encontra-se atualmente em Sussex, desenterrando o testamento intelectual do Mestre. Lamento assim não ter chegado a conhecer, pessoalmente, esse romeno de indiscutível gabarito. Suas reações de “latino”, europeu algo levantino e lúcido pensador político, dado a análises psicanalíticas da mentalidade coletiva, teriam sido de imenso valor para minhas próprias ansiosas cogitações sobre o destino que espera nosso Brasil.