| Zevedei
Barbu foi um professor romeno, nascido em 1914
na Transylvania, que teve o privilégio
de haver vivido, em sua pátria, sob quatro
tipos diversos de regime. Quando ainda jovem,
conheceu a monarquia absolutista do rei Carol
II. Durante algum tempo, foi uma democracia plena
o que sempre constituiu uma exceção
na região balcânica. Depois de um
período de agitação que provocou
a queda e subseqüente exílio do monarca,
a Romênia caiu sob o curto domínio
da Guarda de Ferro, movimento fascista de extrema
violência, espécie de Hezbollá
cristão, logo substituído pela ditadura
militar do marechal Antonescu, apoiado por Hitler.
Barbu participou então da campanha da Rússia
mas, entre 42 e 44, passou dois anos encarcerado
como comunista. Com a derrota do Eixo e ocupação
soviética, o país tentou preservar
sua independência graças a uma coalizão
de esquerda e, como diplomata, Barbu chegou a
conhecer no Kremlin algumas das suas mais importantes
figuras, Beria, Malenkov, Vishinski e o próprio
Stáline. Serviu depois na embaixada em
Londres. Entretanto, já antecipando a queda
de sua pátria sob a tirania nacional-comunista
de Ceaucescu, foi lecionar nas Universidades de
Glasgow e Sussex, e posteriormente na África,
Canadá e Estados Unidos.
Barbu já havia então
publicado dois importantes livros, Dictatorship
em Democracy, 1956, e Problems of Historical Psychology,
1960, quando recebeu convite para vir ao Brasil
pelo então Reitor da Universidade de Brasília,
José Carlos Azevedo (1976). Na UnB, Barbu
se concentrou em problemas de filosofia política
e, particularmente, de sociologia no respectivo
Departamento cujo decano era Gentil Martins Dias.
Para a Editora da UnB, escreveu um pequeno ensaio
introdutório ao grande livro de Tocqueville,
O Antigo Regime e a Revolução. Já
então com residência fixa em Brasília,
aposentou-se em 86 e, numa quase penúria,
faleceu seis anos depois. Dadas as dificuldades
de língua e adaptação, falta
de uma determinação clara sobre
sua “ideologia”, assim como as desconfianças
que seu liberalismo gerou em nosso meio, tanto
de parte dos militares quanto da intelligentsia
esquerdizante, Barbu reagiu com horror ao que
considerava o caminho do Brasil para o totalitarismo
que tão bem conhecia e naturalmente abominava.
Citando SS João Paulo II, que dizia serem
os brasileiros “afetivamente mas não
efetivamente católicos”, Barbu nos
considerava narcisistas irresponsáveis
e, já em 1991, referia-se com horror à
forma de populismo dominante no nosso cenário
político, à convicção
ingênua que se deve “tirar dos ricos
para dar aos pobres” e às formulas
“mágicas” e tropeços,
na retórica ambígua do Lula. Obviamente,
acreditava que o comunismo se implantaria em nosso
país graças ao potencial altamente
ilusionista de ideólogos semi-analfabetos,
cuja psicologia tão sabiamente analisara
– como fizera aliás seu compatriota
Virgilio Gheorghiu em A Vigésima Quinta
Hora. Sentindo-se boicotado pelos colegas da UnB
e afastado de sólidas amizades, caiu em
profunda depressão, no temor de um novo
período turbulento como o que afetara sua
mocidade. Numa tentativa de conservar a memória
desse eminente intelectual que deixou uma enorme
quantidade manuscritos inéditos, o professor
Bráulio de Matos, também da UnB,
encontra-se atualmente em Sussex, desenterrando
o testamento intelectual do Mestre. Lamento assim
não ter chegado a conhecer, pessoalmente,
esse romeno de indiscutível gabarito. Suas
reações de “latino”,
europeu algo levantino e lúcido pensador
político, dado a análises psicanalíticas
da mentalidade coletiva, teriam sido de imenso
valor para minhas próprias ansiosas cogitações
sobre o destino que espera nosso Brasil.
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