| O
termo Assassino procede, como se sabe, do árabe
Haxaxim -
Literalmente fumador ou comedor de haxixe, uma
variedade de maconha. Por volta do século
XI de nossa era, ao tempo das Cruzadas pela reconquista
da Terra Santa, uma seita do ramo xiita, os Ismailitas,
liderada por um líder fanático,
Hasan Ibn-Sabah, inaugurou através de métodos
de conspiração secreta a prática
de eliminar inimigos pelo assassinato suicida.
A seita prosperou durante dois séculos,
matando inclusive um Sultão turco. Ela
foi liquidada durante as invasões mongóis,
que também destruíram a antiga cidade
de Bagdad, mas deixou uma lembrança tenebrosa
cujas conseqüências estamos assistindo
em nossos dias.
Esporadicamente no correr da história,
têm ocorrido episódios similares
por motivações de natureza política
e ou religiosa (as duas coisas nunca são
bem distintas no mundo islâmico). Os anarquistas
do século XIX arriscavam freqüentemente
a vida em seus homicídios de importantes
estadistas. Entretanto, o fenômeno do ataque
suicida metódico como tática de
combate só se registrou, com certa consistência,
em Okinawá,a última batalha da IIª
Guerra Mundial. O desembarque nessa ilhmeridional
do arquipélago nipônico foi a mais
custosa operação do exército
americano no conflito, na verdade a batalha mais
sangrenta de toda a história militar dos
EEUU. Perderam doze mil homens, inclusive o comandante
do exército na operação,
general Buckner – e também muitos
navios de grande porte, afundados pelos kamikase,
pilotos que se atiravam com seus aparelhos sobre
as belonaves inimigas. No desespero da derrota
final que se aproximava, os japoneses construíram
um tipo especial de avião destinado a operações
desse tipo. Bem mais de cem mil civis, além
de praticamente todos os combatentes e seus comandantes
igualmente se suicidaram. Sabe-se que a decisão,
pelo Presidente Truman, delançar as duas
bombas nucleares sobre o Japão resultou,
em grande parte, da constatação
que as perdas de suas forças iriam ser
consideráveis se invadissem a ilha principal:
o Japão preparava-se para um suicídio
coletivo que poderia carregar com meio milhão
de americanos e muitos milhões de japoneses.
Para dar outro exemplo, os nazistas, que não
tinham a mesma compunção moral e
estavam dispostos, eles próprios, a seguir
seu Führer num Götterdämmerung
suicida, como ocorreu em 1945, usaram de métodos
ilícitos de repressão e terrorismo
coletivo, aos ataques esporádicos da “Resistência”
nos territórios ocupados. As represálias
eram tão sangrentas e generalizadas que
serviam de dissuasão a gente de algum bom
senso. O uso do ataque terrorista suicida constitui
assim uma horrenda inovação introduzida
pelo fanatismo do extremismo fundamentalista,
contra a qual não parece haver uma forma
lógica de revide. Bin Laden e seus subordinados
demonstraram, na verdade, uma capacidade genial
de imaginação em seu ataque contra
Nova York. Se houve lapso nos dispositivos de
segurança do governo americano, era praticamente
impossível prever o golpe como foi dado.
O problema é que essa forma niilista de
guerra contraria a famosa definição
de Clausewitz: o atacante está disposto
não só a matar-se, com um fim político
a ser alcançado por outros meios, mas a
eliminar a própria causa pela qual combate.
O assassino desafia a vontade bélica do
inimigo no uso de métodos que não
levam em conta o custo x benefício. O que
estou querendo demonstrar é que o terrorismo
suicida não pode conduzir a nenhum objetivo
político racional, na medida exata em que,
não sendo convencional, não obedece
a qualquer “regra do jogo”. É
evidente que tanto os americanos quanto os israelenses
dispõem de meios de eliminar, arrasar radicalmente
o fundamentalismo assassino, se não fossem
inibidos por considerações que levam
em conta o julgamento moral da opinião
pública, local e universal. Calcula-se
que a base “secreta” de Dimona, no
Negev, já teria Manufaturado 200 bombas
atômicas e toda capital árabe, assim
como Meca e Medina, são alvos vulneráveis,
reféns de qualquer tentativa de “solução
final”.
Acredito que a gravidade da questão resulta
do fato que os fanáticos parecem criar
uma situação em que todo o Islam
- essencialmente uma religião emocional,
primária, niilista e desprovida de teologia,
que coloca o destino cego, kismet, como ultima
ratio - se veria comprometido numa conflagração
de âmbito mundial e total, em que suas próprias
elites moderadas seriam forçadas a escolher
entre a sobrevivência num mundo global de
tolerância mútua ou o desaparecimento.
Nele não há mais lugar para qualquer
ideologia totalitária de “solução
final”. É lamentável que tanto
os socialistas espanhóis e o Secretário
do Exterior britânico, Mr. Shaw, como grande
parte da opinião européia, contaminada
pela covardia, não se dêem conta
disso.
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