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Jornal da Tarde, 29 de março de 2004
TERRORISMO SUICIDA

 
 

O termo Assassino procede, como se sabe, do árabe Haxaxim -
Literalmente fumador ou comedor de haxixe, uma variedade de maconha. Por volta do século XI de nossa era, ao tempo das Cruzadas pela reconquista da Terra Santa, uma seita do ramo xiita, os Ismailitas, liderada por um líder fanático, Hasan Ibn-Sabah, inaugurou através de métodos de conspiração secreta a prática de eliminar inimigos pelo assassinato suicida. A seita prosperou durante dois séculos, matando inclusive um Sultão turco. Ela foi liquidada durante as invasões mongóis, que também destruíram a antiga cidade de Bagdad, mas deixou uma lembrança tenebrosa cujas conseqüências estamos assistindo em nossos dias.

Esporadicamente no correr da história, têm ocorrido episódios similares por motivações de natureza política e ou religiosa (as duas coisas nunca são bem distintas no mundo islâmico). Os anarquistas do século XIX arriscavam freqüentemente a vida em seus homicídios de importantes estadistas. Entretanto, o fenômeno do ataque suicida metódico como tática de combate só se registrou, com certa consistência, em Okinawá,a última batalha da IIª Guerra Mundial. O desembarque nessa ilhmeridional do arquipélago nipônico foi a mais custosa operação do exército americano no conflito, na verdade a batalha mais sangrenta de toda a história militar dos EEUU. Perderam doze mil homens, inclusive o comandante do exército na operação, general Buckner – e também muitos navios de grande porte, afundados pelos kamikase, pilotos que se atiravam com seus aparelhos sobre as belonaves inimigas. No desespero da derrota final que se aproximava, os japoneses construíram um tipo especial de avião destinado a operações desse tipo. Bem mais de cem mil civis, além de praticamente todos os combatentes e seus comandantes igualmente se suicidaram. Sabe-se que a decisão, pelo Presidente Truman, delançar as duas bombas nucleares sobre o Japão resultou, em grande parte, da constatação que as perdas de suas forças iriam ser consideráveis se invadissem a ilha principal: o Japão preparava-se para um suicídio coletivo que poderia carregar com meio milhão de americanos e muitos milhões de japoneses. Para dar outro exemplo, os nazistas, que não tinham a mesma compunção moral e estavam dispostos, eles próprios, a seguir seu Führer num Götterdämmerung suicida, como ocorreu em 1945, usaram de métodos ilícitos de repressão e terrorismo coletivo, aos ataques esporádicos da “Resistência” nos territórios ocupados. As represálias eram tão sangrentas e generalizadas que serviam de dissuasão a gente de algum bom senso. O uso do ataque terrorista suicida constitui assim uma horrenda inovação introduzida pelo fanatismo do extremismo fundamentalista, contra a qual não parece haver uma forma lógica de revide. Bin Laden e seus subordinados demonstraram, na verdade, uma capacidade genial de imaginação em seu ataque contra Nova York. Se houve lapso nos dispositivos de segurança do governo americano, era praticamente impossível prever o golpe como foi dado. O problema é que essa forma niilista de guerra contraria a famosa definição de Clausewitz: o atacante está disposto não só a matar-se, com um fim político a ser alcançado por outros meios, mas a eliminar a própria causa pela qual combate. O assassino desafia a vontade bélica do inimigo no uso de métodos que não levam em conta o custo x benefício. O que estou querendo demonstrar é que o terrorismo suicida não pode conduzir a nenhum objetivo político racional, na medida exata em que, não sendo convencional, não obedece a qualquer “regra do jogo”. É evidente que tanto os americanos quanto os israelenses dispõem de meios de eliminar, arrasar radicalmente o fundamentalismo assassino, se não fossem inibidos por considerações que levam em conta o julgamento moral da opinião pública, local e universal. Calcula-se que a base “secreta” de Dimona, no Negev, já teria Manufaturado 200 bombas atômicas e toda capital árabe, assim como Meca e Medina, são alvos vulneráveis, reféns de qualquer tentativa de “solução final”.

Acredito que a gravidade da questão resulta do fato que os fanáticos parecem criar uma situação em que todo o Islam - essencialmente uma religião emocional, primária, niilista e desprovida de teologia, que coloca o destino cego, kismet, como ultima ratio - se veria comprometido numa conflagração de âmbito mundial e total, em que suas próprias elites moderadas seriam forçadas a escolher entre a sobrevivência num mundo global de tolerância mútua ou o desaparecimento. Nele não há mais lugar para qualquer ideologia totalitária de “solução final”. É lamentável que tanto os socialistas espanhóis e o Secretário do Exterior britânico, Mr. Shaw, como grande parte da opinião européia, contaminada pela covardia, não se dêem conta
disso.