| Em Cascais
e todos os anos em julho, o Encontro Internacional
de Estudos Políticos tem sido organizado
pelo professor João Carlos Espada, brilhante
Diretor do Instituto de Estudos Políticos
da PUC portuguesa. Espada sempre consegue reunir
em debates bilíngües, no paradisíaco
subúrbio de Lisboa, “jardim da Europa
à beira-mar plantado”, não
só um grupo interessante de scholars americanos,
ingleses, poloneses, espanhóis e portugueses,
mas uma turma alegre de estudantes, de variada
nacionalidade, vindos de Boston e Harvard. Essas
reuniões sempre terminam, segundo um hábito
consagrado, com uma grande recepção
presidida pelo Primeiro Ministro português.
Desta vez, o tema das discussões se concentrou
numa questão de relevante interesse atual,
“Idéias sobre a Europa e o Relacionamento
Transatlântico”. O debate sobre esse
relacionamento transcorreu numa agradável
atmosfera de serenidade e bom senso, não
contaminada pelo vírus do dogmatismo totalitário.
Ou seja, numa atmosfera liberal e mais “atlanticista”
do que verdadeiramente continental européia.
Portugal e Grã-Bretanha são nações
tão atlânticas quanto européias.
Na ocasião, participei de um painel tendo
como tema Anti-Americanism in Europe and Beyond.
Não se pode negar, nem é de admirar
que as duas questões despertem uma atenção
algo aflitiva dos dois lados do Atlântico.
Mas, dada a tendência anti-ideológica
inerente ao “conservadorismo” e “liberalismo”
dos participantes, os debates procederam com a
objetividade e isenção requeridos.
O que sobretudo me impressionou foi a crítica
dos palestrantes, quase unânime mas discreta,
ao processo de expansão burocrática
da Comunidade Européia sob o comando do
bloco França-Alemanha. A ridícula
demonstração de força militar
que o presidente Chirac montou na parada do 14
de julho, pelos Champs-Elysées, muito mais
impressionou por sua teatralidade do que como
prova de potencial bélico real. Na verdade,
saí da reunião de Cascais com a
impressão que se está criando, no
Velho Continente, uma clara cisão - para
usar as categorias favorecidas pelo filósofo
político Carl Schmitt, pseudo nazista falecido
em 1985 - entre os “amigos” e os “inimigos”
da América, assim como entre os amigos
e inimigos da França. A atmosfera em Cascais
era francamente pró-americana. Não
se encontrando na reunião qualquer porta-voz
francês ou alemão, tão hegemônico
foi o domínio exercido pela presença
anglo-saxã, que me senti obrigado a sair
em defesa da cultura em que na adolescência
fui educado, a francesa. De modo similarmente
evidente, parece-me que a opinião pública
polonesa, assim como dos países da Europa
oriental, antigos satélites soviéticos,
favorece a potência que, ao vencer a Guerra
Fria, os libertou do comunismo. Na verdade, foram
na França e Alemanha que surgiram as ideologias
jacobinas cuja história sangrenta ilustra
a velha nostalgia do Império, tão
marcante nos quatro últimos séculos.
Quero destacar as contribuições
dos scholars britânicos Daniel Johnson,
filho do grande historiador Paul Johnson, David
Pryce-Jones e Anthony O´Hear, professor
de filosofia, assim como dos americanos Marc Plattner
e Adam Wolfson, editores de periódicos
de Washington; Penn Kemble, da Freedom House;
Susan Shell, kantiana do Boston College; e os
dois poloneses, Piotr Naimski, professor da Universidade
Nowy Sacz, e general G. Wisniewski, do Colégio
da OTAN em Roma. Entre os portugueses salientaram-se
alguns professores, diplomatas, militares e antigos
políticos da tendência de centro-direita
em ascensão no país. Esses intelectuais
cobriram um espectro suficientemente largo de
opinião e argumentaram de modo tão
amplo, no tom moderado hoje prevalecente, que
nos permitiram intuir as tendências que
influenciarão o futuro relacionamento entre
a Europa e os Estados-Unidos.
Além da reunião em Cascais, participei
de dois outros eventos do mesmo estilo, organizados
em Lisboa e em Madrid pela ATLAS Economic Reasearch
Foundation, um think-tank de Fairfax, na Virginia.
Seu propósito é dinamizar e financiar
ONGs liberais e organizar cenáculos em
torno de temas condizentes com o liberalismo.
Alejandro Cháfuen, um argentino de grande
dinamismo que preside a instituição,
está procurando estender seus tentáculos
fora dos EEUU. Em Madrid, a reunião foi
presidida por Mário Vargas Llosa que, com
seu próprio “tanque da cuca”,
pontificou como um soberbo monarca absolutista.
Seus objetivos são paralelos ao da ATLAS
na área da América Espanhola. Jean-François
Revel, o eminente jornalista e ensaísta
francês, ali presente, foi homenageado e
o atual embaixador da Colômbia em Madrid,
Plínio Apuleyo Mendoza, um dos autores
do Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano,
discorreu sobre a burritzia esquerdizante que,
atualmente, domina nosso continente. Mais interessante
foi o seminário promovido pela FAES, a
Fundación para el Analisis y los Estúdios
Sociales, instituição dirigida pelo
ex-chefe do governo espanhol, José Maria
Aznar. Inútil salientar que o ambiente
dramático do recente ataque terrorista,
sofrido pela Espanha, ainda conturbava o ambiente.
O impacto da tragédia se fez sentir nos
debates, comprometendo algo do diálogo
construtivo e enriquecedor.
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