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Creta e um outro Tsunami

 
 
     

O Estado de São Paulo - 30 de agosto de 2004
ENCONTROS INTERNACIONAIS LIBERAI

 
 

Em Cascais e todos os anos em julho, o Encontro Internacional de Estudos Políticos tem sido organizado pelo professor João Carlos Espada, brilhante Diretor do Instituto de Estudos Políticos da PUC portuguesa. Espada sempre consegue reunir em debates bilíngües, no paradisíaco subúrbio de Lisboa, “jardim da Europa à beira-mar plantado”, não só um grupo interessante de scholars americanos, ingleses, poloneses, espanhóis e portugueses, mas uma turma alegre de estudantes, de variada nacionalidade, vindos de Boston e Harvard. Essas reuniões sempre terminam, segundo um hábito consagrado, com uma grande recepção presidida pelo Primeiro Ministro português. Desta vez, o tema das discussões se concentrou numa questão de relevante interesse atual, “Idéias sobre a Europa e o Relacionamento Transatlântico”. O debate sobre esse relacionamento transcorreu numa agradável atmosfera de serenidade e bom senso, não contaminada pelo vírus do dogmatismo totalitário. Ou seja, numa atmosfera liberal e mais “atlanticista” do que verdadeiramente continental européia. Portugal e Grã-Bretanha são nações tão atlânticas quanto européias. Na ocasião, participei de um painel tendo como tema Anti-Americanism in Europe and Beyond.

Não se pode negar, nem é de admirar que as duas questões despertem uma atenção algo aflitiva dos dois lados do Atlântico. Mas, dada a tendência anti-ideológica inerente ao “conservadorismo” e “liberalismo” dos participantes, os debates procederam com a objetividade e isenção requeridos. O que sobretudo me impressionou foi a crítica dos palestrantes, quase unânime mas discreta, ao processo de expansão burocrática da Comunidade Européia sob o comando do bloco França-Alemanha. A ridícula demonstração de força militar que o presidente Chirac montou na parada do 14 de julho, pelos Champs-Elysées, muito mais impressionou por sua teatralidade do que como prova de potencial bélico real. Na verdade, saí da reunião de Cascais com a impressão que se está criando, no Velho Continente, uma clara cisão - para usar as categorias favorecidas pelo filósofo político Carl Schmitt, pseudo nazista falecido em 1985 - entre os “amigos” e os “inimigos” da América, assim como entre os amigos e inimigos da França. A atmosfera em Cascais era francamente pró-americana. Não se encontrando na reunião qualquer porta-voz francês ou alemão, tão hegemônico foi o domínio exercido pela presença anglo-saxã, que me senti obrigado a sair em defesa da cultura em que na adolescência fui educado, a francesa. De modo similarmente evidente, parece-me que a opinião pública polonesa, assim como dos países da Europa oriental, antigos satélites soviéticos, favorece a potência que, ao vencer a Guerra Fria, os libertou do comunismo. Na verdade, foram na França e Alemanha que surgiram as ideologias jacobinas cuja história sangrenta ilustra a velha nostalgia do Império, tão marcante nos quatro últimos séculos.

Quero destacar as contribuições dos scholars britânicos Daniel Johnson, filho do grande historiador Paul Johnson, David Pryce-Jones e Anthony O´Hear, professor de filosofia, assim como dos americanos Marc Plattner e Adam Wolfson, editores de periódicos de Washington; Penn Kemble, da Freedom House; Susan Shell, kantiana do Boston College; e os dois poloneses, Piotr Naimski, professor da Universidade Nowy Sacz, e general G. Wisniewski, do Colégio da OTAN em Roma. Entre os portugueses salientaram-se alguns professores, diplomatas, militares e antigos políticos da tendência de centro-direita em ascensão no país. Esses intelectuais cobriram um espectro suficientemente largo de opinião e argumentaram de modo tão amplo, no tom moderado hoje prevalecente, que nos permitiram intuir as tendências que influenciarão o futuro relacionamento entre a Europa e os Estados-Unidos.

Além da reunião em Cascais, participei de dois outros eventos do mesmo estilo, organizados em Lisboa e em Madrid pela ATLAS Economic Reasearch Foundation, um think-tank de Fairfax, na Virginia. Seu propósito é dinamizar e financiar ONGs liberais e organizar cenáculos em torno de temas condizentes com o liberalismo. Alejandro Cháfuen, um argentino de grande dinamismo que preside a instituição, está procurando estender seus tentáculos fora dos EEUU. Em Madrid, a reunião foi presidida por Mário Vargas Llosa que, com seu próprio “tanque da cuca”, pontificou como um soberbo monarca absolutista. Seus objetivos são paralelos ao da ATLAS na área da América Espanhola. Jean-François Revel, o eminente jornalista e ensaísta francês, ali presente, foi homenageado e o atual embaixador da Colômbia em Madrid, Plínio Apuleyo Mendoza, um dos autores do Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, discorreu sobre a burritzia esquerdizante que, atualmente, domina nosso continente. Mais interessante foi o seminário promovido pela FAES, a Fundación para el Analisis y los Estúdios Sociales, instituição dirigida pelo ex-chefe do governo espanhol, José Maria Aznar. Inútil salientar que o ambiente dramático do recente ataque terrorista, sofrido pela Espanha, ainda conturbava o ambiente. O impacto da tragédia se fez sentir nos debates, comprometendo algo do diálogo construtivo e enriquecedor.