| No momento
em que escrevo está no prelo, para próxima
publicação pela Editora da UniverCidade,
com patrocínio do Instituto de Filosofia
e Ciências Aplicadas da aludida Instituição,
um ensaio meu sobre Nietzsche, com o título
acima. É um pequeno livro de 170 páginas
com ampla ilustração relacionada
com a vida do polêmico filósofo alemão.
Meu propósito neste artigo é justificar
e anunciar o trabalho em pauta.
A filosofia de Nietzsche pouco conhecida ainda
é no Brasil. Ela aqui chegou por intermédio
de traduções francesas e obras de
pensadores franceses que, na época do apogeu
do “existencialismo” de Sartre e das
divagações confusas de Foucault,
Derrida, Deleuze, Kristeva e Irigaray desembarcaram
de contrabando em nosso litoral em que lutam tupinambás
e tupiniquins. O primeiro francês a escrever
uma vida de Nietzsche, num precioso ensaio crítico,
foi Daniel Halévy. Sua obra é de
1909: Nietzsche morrera havia pouco tempo. Além
de Guy de Pourtalès, que escreveu entre
as duas Guerras Mundiais; Louis Corman, que abordou
Nietzshe como Psychologue des Profondeurs, em1982;
Paul-Laurent Assoun, que realizou um confronto
entre Freud et Nietzsche em 1980), e dos já
mencionados Foucault e Deleuze, há uma
coletânea das discussões havidas
no Centre Culturel International de Cerisy-la-Salle,
em julho de 1972, do qual, além de alguns
estrangeiros ilustres, entre os quais Karl Löwith,
participaram Eric Blondel, Eric Clémens,
Jeanne Delhomme, Edouard Gaède, Sarah Kofman,
Philippe Lacoue-Labarthe, Jean Maurel, Norman
Palma e Paul Valadier em torno do tema específico
“Nietzsche Aujourd-hui?”. De algumas
dessas obras tenho conhecimento e, no presente
ensaio me vali, com bastante esforço cartesiano.
Em 1985, ocorreu em nosso país uma onda
intelectual a respeito do filósofo germânico.
Wilson Coutinho discutiu o fenômeno e menciona
um simpósio sobre Nietzsche na Faculdade
Cândido Mendes do Rio. Alguns “filósofos”,
artistas e críticos da cultura que escrevem
em vários jornais, participaram dos debates.
A obra foi então traduzida e publicada
numa coletânea da Editora Brasiliense, sob
o título Nietzsche Hoje? A crise de “Nietzschemania”,
porém, durou pouco. Conheço igualmente
o ensaio de Cecil Meira, “O Eterno Retorno
de Frederico Nietzsche”, de 1989, que li
com muito interesse. Mas as “ondas”
no Brasil podem ser altas e até servir
para o surfe de intelectuários, atraídos
pela celebridade momentânea. Entretanto,
não me atrevo a afirmar com autoridade,
mas acredito que o livro “Nietzsche –
o Sócrates de nosso Tempo”, de Mário
Vieira de Mello, é um dos melhores que
se tenha escrito em nossa terra sobre o pensador
germânico. Não se trata de uma mera
biografia ou da exposição sucinta
da obra enorme de Nietzsche. É a defesa
de uma tese. Mário enfatiza um aspecto
em geral não muito desenvolvido pelo número
considerável de críticos que, nos
últimos anos, se debruçaram sobre
essa obra: a importância da educação
no pensamento de Nietzsche. Na verdade, é
particularmente o papel pedagógico que
Nietzsche pode aqui desempenhar o que merece ser
contemplado em toda tentativa de transplantar
seu pensamento para esta nossa terra tropical,
cheia de encantos mil e habitada por um povo tão
pouco sério, é verdade, mas já
naturalmente dionisíaco. Se Nietzsche tanto
admirava e apreciava os italianos por sua espontaneidade,
alegria e impulso vital, não se teria igualmente
afeiçoado ao Brasil, como contraponto da
decadência que percebia na civilização
européia do século XIX? Se, em vez
de Oaxaca no México, houvesse pensado em
Petrópolis como distante refúgio
para sua solidão e criatividade intelectual,
o que poderia haver acontecido?
O mais curioso é que pode Nietzsche ser
apontado como antecipando o Tropicalismo que,
no Brasil, só se tornou consciente e inspirador
de tendências teóricas após
a Semana de Arte Moderna, de São Paulo,
e a obra de Gilberto Freyre. É óbvio
que o tropicalismo está associado ao erotismo
dionisíaco dos povos morenos meridionais,
vivendo em clima quente: Nietzsche certamente
se deu conta disso em sua breve experiência
na Costa
Amalfitana, um dos locais mais belos e afrodisíacos
do litoral do Mediterrâneo.
Na obra de 1886, "Além do Bem e do
Mal", profeticamente assinalou Nietzsche
que virtualmente todos os moralistas de antanho
descobriram qualquer coisa de sedutoramente demoníaco
na atmosfera quente das florestas tropicais. No
verdadeiro ódio aos seres dos trópicos,
"quer seja isso lançado à conta
da enfermidade ou degenerescência do homem
ou a seu próprio inferno e tormento próprio",
Nietzsche se pergunta por que ocorre tal ojeriza:
para benefício dos "homens das zonas
temperadas? Para a moral? Para a mediocridade?".
Grande amante da atmosfera da Itália, o
filósofo descobre nas áreas quentes
do planeta o dionisismo que promove triunfalmente
o Übermensch de sua filosofia. Nietzsche
obviamente esquecera a idealização
da Grécia e do trópico paradisíaco
que alucinou os grandes descobridores da época
da Renascença...
O fato é que, retornando ao Brasil como
aposentado no princípio dos anos 80, me
dei conta que havia uma natural e elogiável
curiosidade em nossa terra pelo filósofo
tedesco, em que pese uma compreensível
reação a respeito dos aspectos mais
extravagantes de um pensador, dado como profeta
da violência, da desigualdade, do elitismo
e do ateísmo, aspectos que naturalmente
repugnam às tendências dominantes
em nossa cultura intelectual.
No novo milênio, o interesse por Nietzsche
parece pouco a pouco se firmar no Brasil. O “Caderno
de Cultura” de O ESTADO DE SÃO PAULO
publicou, a 7.X.2001, um pequeno estudo de Regina
Schöpke que anuncia novas traduções
de Nietzsche para nossa língua, assim como
discute o livro de Rüdiger Safranski, “Nietzsche
– Biographie Seines Denkens”, 2000.
Esta obra teria mesmo inspirado um filme sobre
a crise de loucura de Nietzsche do cineasta brasileiro
Júlio Bressane. Não posso comentar
o filme, porque não os conheço.
O livro de Safranski, “Nietzsche, uma Biografia
Filosófica”, que li na tradução
inglesa de 2002, é uma das melhores que
julgo já haverem sido publicadas sobre
a personalidade excepcional do pensador, entre
outras coisas por fazer uso amplo da correspondência
de Nietzsche, entrando assim na intimidade do
filósofo. O estilo epistolar era muito
comum na época e as cartas do filósofo
são numerosas e excepcionalmente reveladores
de suas preocupações e seu caráter.
Do que ocorre na própria Alemanha, poucas
informações possuo. Entretanto,
no final dos anos 70 conheci, em Oslo, um jovem
professor de origem vienense, Hans Eric Lampl,
que também lecionava literatura latino-americana
na Universidade local. Era um entusiasta de Nietzsche
e membro de uma sociedade alemã que, anualmente,
se reúne para longas discussões
sobre o filósofo, precisamente em Sils
Maria, cantão dos Grisões na
Engadine suíça, onde Nietzsche viveu
alguns anos e escreveu algumas das maiores obras
do acervo. Isso me faz crer que a memória
de Nietzsche é ainda cultivada com fervor
em seu país natal, depois de haverem expurgado
a idéia aberrante de qualquer associação
espiritual entre o pensamento do filósofo
e as ideologias totalitárias, nacionalistas
e socialistas, que dominaram a Alemanha na maior
parte do século XX. Visitei certa vez Sils-Maria,
pois costumo ir freqüentemente à Suíça
onde, como Cônsul Geral em Zurique, vivi
quatro anos de intensas experiências intelectuais,
inclusive como estudante no Instituto C.G. Jung
de Psicologia que, estando Jung ainda em vida
(ele faleceu em 1961), funcionava na Gemeindestrasse,
bem perto do centro da cidade. Tenho assim a honra
de haver conhecido um dos principais intérpretes
do filósofo e o local onde escreveu algumas
de suas obras mais formidáveis.
A verdade é que, como os leitores disso
se darão conta neste ensaio, é sobretudo
nos Estados Unidos e, particularmente, em suas
Universidades, que Nietzsche é hoje estudado.
Não só a estrutura do poder econômico
e do poder militar se localiza hoje nos USA, mas
também é o centro da cultura em
processo de globalização. Por conseqüência,
é sobretudo de autores de língua
inglesa que me vali para preparar as três
conferências, com o título “The
Mystery of Nietzsche´s Breakdown”,
que no Instituto C.G. Jung, agora localizado em
Küsnacht, perto de Zurique, pronunciei em
maio do ano 2000. Essas conferências constituem
o cerne do argumento que desenvolvo no ensaio
Nietzsche e a Loucura.
Os intelectuais brasileiros muito teriam a aprender
com a leitura de Nietzsche, é o que concluí
e o que pretendo defender como tese no ensaio
aqui referido. Por sobre a barreira da língua,
do estilo exuberante e difícil, da desinformação
e calúnias que sofreu, e das más
traduções existentes de seus livros,
que seja ele lido com cuidado. A mensagem de Nietzsche
é o de uma nova moralidade, de um novo
mito, de uma “transfiguração
de todos os valores”, de um individualismo
heróico como pretende Leslie Paul Thiele
– em suma, uma mensagem apropriada para
o mundo globalizado que está surgindo sob
nossos olhos, neste início de milênio.
Não acreditava Nietzsche que sua obra fora
escrita para a posteridade, que ele nascera muito
antes de seu tempo? Um de seus primeiros trabalhos
tem como título “Meditações
Extemporâneas”, que melhor talvez
traduziríamos como “Meditações
Prematuras”. Certamente a transfiguração
que Nietzsche nos propõe pode servir de
fermento nesta Terra dos Papagaios, precisamente
porque inteiramente nova é ainda nossa
cultura, sendo fácil contrapor-se e corrigir
os vícios da inteligência e dos sentimentos
que ainda dominam a frágil e insegura elite
intelectual do país – seriamente
contaminada por um vírus “romântico”
que posso condensar na figura perversa de Jean-Jacques
Rousseau.
Antes de tudo que se saiba que Nietzsche não
é pós-moderno (o que quer que signifique
essa expressão esdrúxula). Ele não
é ideológico. Não se coloca
nem à esquerda, nem à direita. É,
em grau supremo, o que se chamaria ‘politicamente
incorreto’; mas representa, estou certo,
uma das maiores forças intelectuais e morais
no mundo em gestação, não
tanto pelo que disse mas, como observa Karl Jaspers,
pelas questões desafiantes que brutalmente
nos endereçou.
Noto que muitos dos amigos intelectuais que mais
prezo possuem uma visão destorcida do pensamento
nietzscheano. Gostaria de poder corrigir os mal-entendidos.
É por isso que me atrevo a colaborar no
verdadeiro dilúvio de publicações
que hoje aparecem sobre o pensamento e a personalidade
desse homem excepcional. Os homens superiores,
os Übermenschen de amanhã serão
aqueles para quem a nobre Ética da Coragem,
da Compaixão e da Reverência pela
Vida que mergulha suas raízes mais profundas
do Oriente ao Ocidente, e tanto no Budismo quanto
no Judaísmo e no Cristianismo, encontra
expressão parcial nas preocupações
ecológicas com o meio-ambiente e com a
necessidade de contenção demográfica,
na insistência no sentido de respeito internacional
pelos chamados “direitos humanos”
e no esforço de extensão universal
da liberdade individual, segundo certas regras
de convivência sob o império de uma
lei democrática. As descobertas mirabolantes
da física, da cosmologia e da biologia,
ao coexistir com a competição e
a seleção darwiniana, devem procurar
superá-las num imperativo categórico
de aceitação global – uma
ética que sustente a noção
platônica de philadelphia ou seja, de fraternidade
e amizade entre todos os homens e mulheres.
O filósofo pôs à nossa frente,
em toda sua complexidade e brutalidade, um desafio
com o qual teremos de lidar, procurando resolvê-lo.
Nietzsche propõe um novo significado, um
sentido novo e transcendental a nossa existência
frustrada e angustiada, vidas enfermas e insignificantes
num Universo vertiginoso no qual nos sentimentos
horrendamente privados de uma presença
divina. Somos todos irmãos num mundo global.
Mas somos órfãos. Num dos aforismo
recolhidos em “A Vontade de Potência”,
Nietzsche argumenta que Platão teria pretendido
que cada um de nós deseja ser o senhor
de todos os demais homens, se somente fosse isso
possível – e, acima de tudo, gostaria
de ser o próprio Senhor Deus. “É
esse espírito que deveria de novo retornar”
- exclama Nietzsche. De certa forma, toda a equação
moral que a Humanidade enfrenta no novo século,
em uma perspectiva social, política e,
principalmente, de caráter ético,
individual, já fora vivida e colocada por
Nietzsche em termos filosóficos, cem anos
atrás. Por tal feito monumental, devemos
honrar sua memória.
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