| Muita
gente se espanta com o problema do estreitamento
de nossas relações diplomáticas
com a Venezuela e Cuba. Não vejo por que
a surpresa pois Bolívar, o herói
da independência da América espanhola,
detestava o Império brasileiro - razão
a mais para desfazer os mal-entendidos. Antes
de morrer, deprimido e decepcionado no exílio,
o Libertador profetizou que a Venezuela seria
um quartel, a Colômbia uma Universidade
e o Equador um convento.
Conheço bem o Equador e seus claustros
- são obras de arte realmente excepcionais
e o país geralmente pacífico, ao
contrário de seus dois vizInhos. A Colômbia
tem guerra civil e coca mas, com uma grande cultura
universitária, demonstra ser uma das sociedades
mais civilizadas do continente. A Venezuela é
outra coisa. O país foi sucessivamente
governado pelo general Monaga, pelo general Guzman
Blanco, pelo general Joaquin Crespo, o general
Cipriano Castro, o general Juan Vicente Gómez,
o general López Contreras e o general Medina
Angarita, assim confirmando o prognóstico
pessimista de Bolívar. Juan Vicente Gómez
inaugurou um sistema de governo original que foi,
mais tarde, imitado pelo rei das Arábias,
Ibn Saud. Todos os ministros, governadores, generais,
almirantes, senadores, deputados, prefeitos, embaixadores,
diretores de banco e outros altos dirigentes do
país pertenciam à família
do Chefe de Estado. A fidelidade al Tirano
de los Andes estava assegurada e Gómez
morreu na cama, em 1935, depois de governar durante
27 anos.
A partir de Medina Angarita, o país começou
a reduzir as patentes. Veio o coronel Pérez
Jiménez e, em breve fôlego democrático
no governo da Actión Democrática
que se permitiu mesmo criticar nosso regime militar,
o nobre povo bolivariano entrou numa fria ao elevar
ao poder um sargentão, Hugo Chávez
Frias. Passemos, contudo, por cima da meteorologia
e do fácil trocadilho, fazendo votos que
não ocorra um embate mais grave entre o
quartel da Venezuela e a universidade da Colômbia.
Comparando com a Venezuela, é Cuba mais
interessante na imaginação de nossa
Intelectuária da chamada Esquerda Escocesa,
aquela que gosta de uísque. Explica-se.
Sua natureza tropical é a única
que pode, com a nossa, competir em beleza, conga,
samba, alegria e belas praias. Última nação
das Américas a se libertar do domínio
colonial espanhol, com o auxílio dos ianques,
Cuba manifestou seu reconhecimento pela autonomia
conquistada, entregando-se sucessivamente à
ditadura do sargento Batista, que eliminou a oficialidade
do exército, e à do professor, Presidente,
Führer, Duce e Marechal de Campo Fidel Castro,
que eliminou a burguesia produtiva. Um sucesso
incontestável em termos de Justiça
Social…
Em 1962, a cabeça de ponte soviética
nas Américas foi abalada pelo propósito
grandioso de torná-la a base para os festejos
com que Khruschev pretendia comemorar, com um
fogo de artifício nuclear, a indissolúvel
amizade dos sub-desenvolvidos de todo o mundo.
No empenho de restabelecer, pelo turismo, os laços
ambivalentes com o rico parceiro setentrional
ao qual deve a independência, Fidel despachou
para a Flórida doze milhões de “turistas”
descontentes... As exportações cubanas
limitam-se hoje a charutos e fotografias de El
Che Guevara.
Havendo fracassado como Ministro da Indústria
e Comércio de Cuba, o argentino de Rosário,
Ernesto Gael Garcia Bernal de la Serna, filho
de família rica que gostava de motocicletas
(como é o caso de nosso cineasta Walter
Salles) acabou convencendo-se que sua vocação
não era nem para a medicina, na qual se
formara, nem para a administração
pública que Fidel lhe oferecera. Consta
que suas desavenças com Fidel Castro cresceram,
não obstante haver sido bem sucedido na
arte de fuzilar adversários de encontro
a el paredón, a tal ponto que
o longevo ditador cubano resolveu dele livrar-se,
enviando-o para uma missão impossível
na “América Latrina”
(uma expressão corriqueira de diplomatas
aqui sediados). Consistia em subverter todo o
continente. Modificando o famoso apelo de Marx
aos proletários (os de prole numerosa),
proclamou “Sub-desenvolvidos de todo o mundo,
uni-vos!”. Durante dois anos desapareceu,
enquanto aprendia aimara em vez de quéchua,
para se fazer entender dos índios locais,
um erro fatal. Deste modo, após ser martirizado
pelo exército boliviano que o fuzilou,
transformou-se no novo Cristo-Rei da Teologia
da Libertação, estendido no chão
de braços abertos como um Messias crucificado.
Depois da morte, el Che deixou como herança
a Fidel Castro o projeto de subverter a África.
Ali o espírito aventureiro do cubano (que
inaugurou a moda da barba desgrenhada entre os
políticos e diplomatas modernos) conseguiu,
pelo menos, introduzir um novo método de
controle da natalidade, a guerra subversiva de
baixa intensidade. A belicosidade revolucionária
só serve mesmo para o Planejamento Familiar
pois controla a população sem objeções
da Igreja, Arns, Bofe e Beto que o digam. Façam
o amor, não a guerra. El Che bem merece
então o renome de santidade que o cerca
pois seu programa populista, cubano, sul-americano
e africano magistralmente realizado por Fidel,
reduziu, em pelo menos um ou dois milhões,
a prolífica população de
Angola, Moçambique e Etiópia...
Hoje triunfa no imaginário super-aquecido
dos frustrados barbudinhos esquerdóides.
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