| Uma
recente visita à Espanha me trouxe à
memória o impacto que, sobre todos aqueles
que eram jovens ou adolescentes nos anos 30, exerceu
a Guerra Civil de 1936/39, prelúdio ominoso
ao mais sangrento e extenso conflito da história,
a Segunda Guerra Mundial. Em Madrid, achei desde
logo curiosas as mudanças que sofreu o
nome de sua principal avenida comercial, a Gran
Via. Quando, menino ainda, acompanhei meu Pai
numa excursão turística à
Espanha, visitando as exposições
internacionais de Barcelona e Sevilha, a Gran
Via homenageava Pi y Margall. Era um anarquista,
discípulo de Proudhon, que se salientou
no período da Primeira República
espanhola, século XIX. Notai que o caos
político endêmico só podia
ser contido por um autoritarismo grosseiro, pois
dos dois lados da cerca os próprios partidos
se fracionavam e se combatiam. Naquela centúria
aliás, o país, atrasado e ingovernável,
registrou uma das mais agitadas vidas políticas
de sua história, um estado tedioso de desordem
e violência marcado por pronunciamientos
de generais, de fazer inveja a qualquer republiqueta
de banana.
O temperamento espanhol é ardente, impetuoso,
brutal e não por acaso são as touradas
uma invenção hispânica! Monarquistas
legitimistas, fundamentalistas católicos
de Navarra, ‘carlistas’, republicanos
conservadores ou extremistas, regionalismos locais
de catalães e bascos, aqueles levados ao
anarquismo, estes ao terrorismo, ofereciam o espetáculo
de um caos quase impenetrável. Notai que
a desordem endêmica só podia ser
contido por um autoritarismo arbitrário,
pois dos dois lados da cerca os próprios
partidos se fragmentavam e combatiam. A Guerra
Civil foi provocada pelo assassinato do líder
da oposição, Calvo Sotelo, e de
centenas de padres e freiras Durante algum tempo,
a Gran Via foi chamada pelo nome do fundador da
Falange e filho do general Primo de Rivera (+1930),
José Antonio, fuzilado pelos Rojos.
Como na página inteira deste jornal (12.12.2004),
reproduzindo artigo do Los Angeles Times,
vê-se que a ignorância e a desinformação
sobre esses eventos confusos se estendem até
hoje. Surgiu, nessa ocasião, o termo detestável
de Fascismo, como conveniente simplificador
geral de todos as opiniões de quem não
se curva ao PC da esquerda. Notem que, em pleno
conflito, mini-guerras civis se registraram do
lado dos Rojos, uma em Barcelona (1937),
outra em Madrid (1939), ambas iniciadas por comunistas
no empenho de dominar a situação.
O abominável episódio é
importante por outros motivos: quatro dos mais
notáveis escritores do século combateram
do lado perdedor, George Orwell, Arthur Koestler,
André Malraux e Ernest Hemingway. Hemingway
se distinguiu como o porta-voz da versão
estatizante, ou social-democrática, do
liberalismo que hoje conquista o mundo. Malraux
tornou-se o braço direito de De Gaulle
mas foram Koestler e Orwell que se notabilizaram
como os mais ardentes inimigos do totalitarismo,
escrevendo algumas das obras fundamentais do século
no confronto ideológico que acompanhou
a Guerra Fria.
É interessante destacar esses fatos pois
o bom senso e o equilíbrio parecem, finalmente,
haver dominado o temperamento combativo dos espanhóis,
e o atual nome da indigitada avenida simboliza
o desejo quase universal de esquecimento do pavoroso
fratricídio que os envolveu. A Espanha
de hoje é a Espanha de Franco. Franco,
um galego muito pragmático e desprovido
de fortes convicções, foi quem a
cuidadosamente configurou, ao preparar sua sucessão
na pessoa do rei Juan Carlos, educado para tal
missão. O que os espanhóis hoje
procuram é a Gran Via do desenvolvimento.
Com um PIB percapita de US$ vinte mil e um mais
rápido crescimento do que seus parceiros
da Comunidade Européia, o país oferece
sinais admiráveis de prosperidade, junto
com uma intensa criatividade e originalidade no
campo da cultura. O cinema espanhol já
superou o de seus vizinhos continentais. Desapareceu
a sombria religiosidade hispânica, fechada,
inquisitorial, dedicada ao culto do sofrimento,
do martírio e da cruz. Sobe à tona
a notória sensualidade da mulher espanhola,
que tenta corrigir o relutante machismo do toreador
paranóico e sua inclinação
ao sadismo – herança quiçá
do longo passado mourisco. Neste sentido, um papel
importante venha caber ao feminismo, à
criatividade que ainda está por produzir,
na península, uma figura de mulher, digna
do gênio espanhol.
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