| O recente
tsunami no Oceano Índico revelou-se um
espetáculo particularmente trágico
pela extensão geográfica de seus
efeitos e o número de vítimas que
causou, provavelmente, trezentas mil. Historicamente,
nunca um desastre de tal magnitude geográfica
atingiu tantas praias e continentes do globo terrestre.
Além disso, dos quatorze grandes terremotos
registrados nos últimos cem anos, foi o
que alcançou o mais alto índice
de magnitude, 9. Em 1976, o de Tangshan na China,
de intensidade 8.2, causou pelo menos 240 mil
mortos porque afetou uma área intensamente
povoada. O de Tóquio em 1923, talvez mais
catastrófico em termos numéricos
absolutos, converteu-se num incêndio monumental
numa cidade de construções de madeira.
Em 1883, o Krakatoa entre Java e Sumatra explodiu,
provocando ondas de trinta metros de altura e
seus efeitos foram sentidos até a costa
oeste da América do Sul, cobrindo de cinzas
o planeta inteiro. Do ponto de vista histórico,
é interessante a erupção
do Vesúvio em 79 de nossa era porque, envolvendo
de cinzas Herculanum e Pompéia, proporcionou-nos
o conhecimento da vida doméstica dos romanos.
Catástrofes mais mortíferas são,
no entanto, conhecidas, especialmente na China
e na Índia. Fome e inundações
do rio Yangtsê carregaram com milhões
de vítimas. Servindo em meu primeiro posto,
Calcutá, assisti aos primórdios
do flagelo na província do Bengal, 1942,
resultado da Guerra. Cito ainda como exemplo o
de 1877, que eliminou um terço da população
do Ceará.
Recuo agora 3500 anos, para mencionar outro momentoso
cataclima que teve implicações mais
graves para o progresso da humanidade. A erupção
e explosão de Thera, hoje Santorini, a
mais meridional das ilhas do mar Egeu, destruiu
a civilização minoana de Creta e
atrasou, por mais de 200 anos, o desabrochar da
Grécia clássica. Uma das faces do
vulcão sobreviveu e permitiu o retorno
da população, que hoje habita no
alto do precipício assim formado.
Thera é notável por haver sido,
segundo a mitologia, o local onde Sisyphus, rei
de Corinto que procurara enganar a Morte, foi
condenado a passar o resto da existência
carregando uma enorme pedra ao alto da montanha
de onde rolava até o mar, obrigando o infeliz
a repetir a jornada indefinidamente. Albert Camus,
o escritor “existencialista” francês,
usou o mito, em 1942, como símbolo da existência
humana, graças ao qual foi homenageado
com o Prêmio Nobel. O cataclisma ocorrido
entre 1500 e 1400 antes de Cristo pode haver,
de fato, provocado um monstruoso tsunami que afetou
não só Creta, mas todo o litoral
do mar Egeu, Síria e Palestina, assim como
o delta do Nilo, não se podendo calcular
o que realmente ocorreu. A população
de Creta desapareceu ou emigrou. É possível
imaginar que a lenda do dilúvio universal
tenha sido construída em torno da memória
arcaica da tragédia. A lembrança
coletiva da existência de uma cultura anterior
na Atlântida, a que o próprio Platão
se refere em seus diálogos metafísicos,
nasceu presumivelmente desse esquecido fenômeno
de generalizada destruição, logo
agravada pelas primeiras invasões das tribos
dóricas que, eventualmente, dominaram a
Grécia clássica. A civilização
minoana, com seus contactos com o Egito e a velha
cultura do Oriente Médio mesopotâmico,
sofreu de qualquer forma de um colapso do qual
só emergeria pelo domínio da cultura
clássica, erguida em torno da península
Ática, no Peloponeso e nas velhas metrópoles
no lado turco do Mar Egeu.
Em Cnossos, evidentemente, os restos dos grandes
palácios, monumentos e decorações
murais da época minona escaparam da destruição
porque suficientemente longe do mar para sofrerem
da inundação. Minos foi ele próprio
foi responsável por outro conjunto de mitos.
O touro era adorado e assim surgiu a lenda do
Minotauro, identificado ou a uma dinastia, ou
a um rei prestigioso que governou a ilha. Um tipo
de tourada era praticado na qual o atleta, homem
ou mulher, agarrava o chifre do animal e por cima
dele saltava, conforme se vê pintado nas
paredes que sobreviveram. Outra lenda relativa
a Minos é a do Labirinto do qual Teseus,
rei de Atenas, conseguiu escapar graças
ao fio que Ariadne lhe proporcionou. A Natureza
não perde ocasião de demonstar seu
poder de destruição, quiçá
para conscientizar-nos de nossa insignificância
diante da imensidão do universo e da precariedade
da vida humana, submetida a forças naturais
que não controlamos.
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