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Desafio Islãmico

Freud, a Kabalá e a "Morte de Deus"

 
 
     

Londres, outubro de 2002
Reunião da sociedade do Mont Pélerin

 
 

De 5 a 10 de outubro último realizou-se, em Londres, a reunião anual da Sociedade do Mont Pèlerin (MPS). Com a participação de 185 membros efetivos, 144 convidados e mais 110 esposas ou acompanhantes assim como 86 fellows da Organização, éramos ao todo 527 participantes da reunião, vindos de 45 países, alguns tão distantes como a China (Hong-Kong), o Nepal, o Montenegro e Sri Lanka. Como seria de esperar, as nacionalidades presentes mais numerosas foram a americana (231) e a britânica (71). Nessa cúpula do pensamento liberal contemporâneo fomos só quatro brasileiros e mais uma brasileira - identificados numa conferência que registrou 15 guatemaltecos, 12 venezuelanos, 8 argentinos, 7 chilenos e 4 mexicanos. Francamente, nosso país não costuma destacar-se em assembléias internacionais por sua presença esmagadora, particularmente em ocasiões como esta em que temas de natureza liberal são discutidos e a participação não só não é remunerada, mas se revela custosa para o bolso dos próprios participantes... a vida em Londres está cara!
Nossos compatriotas foram José Luis de Carvalho, professor da Universidade Santa Úrsula no Rio e entusiástico economista que colabora com o Instituto Liberal do Rio e participa dos seminários do Liberty Fund. Ele é o mais recente membro brasileiro recrutado pela MPS, Leônidas Zelmanowitz, de Porto Alegre, que se juntará brevemente à Sociedade, estava acompanhado de sua esposa. E Gilberto Salgado foi o terceiro, igualmente ligado ao Instituto Liberal do Rio. José Luís foi o segundo palestrante no primeiro painel da conferência, tendo como tópico a Liberdade e a nova Tecnologia.Em princípio sou membro da MPS desde 1993.
Vale lembrar o que é a Mont Pèlerin. O nome e a instituição recordam a convocação por Friedrich Hayek, em 1947, de uma reunião dos mais eminentes pensadores liberais, principalmente europeus, num hotel com esse nome, acima de Montreux, no lac Léman, Suíça francesa. A intenção de Hayek era promover o estudo dos meios de prevenir o prosseguimento do mundo civilizado ocidental no "Caminho da Servidão" a que se havia referido, cinco anos antes, num ensaio famoso com esse título. A primeira reunião no Mont Pèlerin realizou-se de 1° a 10 de abril e dela participaram 39 economistas, sociólogos e cientistas políticos, a grande maioria dos quais se ilustrou posteriormente na cultura e na política de seus respectivos países - Erhardt, Aron, Hartwell, Friedman, por exemplo. A escolha do nome da sociedade simboliza de certo modo o desejo dos fundadores de não associarem a instituição criada com determinada tradição, atividade científica, religião ou lealdade nacional. O mais amplo espectro de opiniões, ideologias ou convicções filosóficas devia presidir ao desejo comum dos que firmavam a Carta de Princípios original de preservar o ideal de "preservação de uma sociedade livre". A convicção comum era partilhada que "a liberdade individual só pode ser mantida numa sociedade em que um mercado competitivo efetivo seja a agência principal para a orientação da atividade econômica". No "mercado" liberal se inclui a troca, num mundo que se globaliza, de idéias, de mercadorias, avanços tecnológicos, interesses, opiniões e visões de uma futura sociedade inteiramente livre.
O tema geral dos debates da MPS em Londres, 55 anos depois de fundada, foi deliberadamente vago: "Novos Tempos, Novos Tópicos, Novos Talentos". Do domingo 6 de outubro, à quinta-feira seguinte assistimos, segundo a praxe adotada pela instituição, a painéis de conferencistas e comentaristas, seguidos de livre debate facultado ao plenário. A atividade diária esteve acompanhado de pequenas pronunciamentos às refeições, homenagens a determinadas personalidades - como, por exemplo, aos prêmio Nobel professores James Buchanan e Milton Friedman (este presente apenas virtualmente por sua oraçção gravada), o americano Charles Rawley; Arthur Seldon e lord Ralph Harris, os dois últimos fundadores do Institute of Economic Affairs, a instituição que, havendo inspirado a revolução liberal inglesa empreendida por ladu Thatcher, patrocinou a reunião. Aliás, o diretor geral do IEA, John Blundell, foi o eficiente, disciplinado e bem humorado organizador da reunião.
Enquanto programas paralelos de turismo foram postos à disposição das esposas e companheiras dos participantes, um banquete de despedida bastante original e animado, em homenagem a Adam Smith e Benjamim Franklin, se realizou no Victoria and Albert Museum, não por acaso talvez na grande sala que contem os ossos recompostos de um dos maiores dinossauros descobertos - sendo o Dinossauro uma representação simbólica adequada do Estado burocrático obsoleto que combatemos através da instituição fundada por Hayek. Na mesma tarde de 9 de outubro, a reunião privativa dos membros tomou conhecimento do relatório do Presidente em final de mandato, prestou homenagem aos membros falecidos nos dois últimos anos e marcou os locais e datas das três próximas reuniões regionais em 2003, assim como da reunião global de 2004, que se deverá realizar em Salt Lake City, Utah, USA. Foi igualmente eleito o novo Presidente para o biênio 2003;/2004 - o senhor Leonardo Liggio, Presidente do Institute of Humane Studies e associado à Atlas Foundation, um gentleman e velho amigo que há mais de dez anos me recebe cordialmente em Fairfax, perto de Washington, onde reside e trabalha.
Uma aprazível excursão fluvial coletiva a Greenwich encerrou a memorável reunião na quinta-feira, dia 10. E no dia seguinte, participei de outra homenagem, mais restrita e fora do programa, a Lord Peter Bauer, falecido no princípio deste ano, que se celebrou na famosa cidade universitária de Cambridge. Economista húngaro que se refugiou e lecionou na Inglaterra, Bauer, como se sabe, dedicou sua vida de estudioso aos problemas do desenvolvimento das nações atrasadas da África e outros continentes, combatendo tenazmente a política que consistiu em generosamente financiar seus governos, não em benefício dos respectivos povos a quem era a ajuda destinada, mas em proveito de políticos, burocratas e ditadores - muito mais ciosos de encherem os bolsos do que de promoverem o progresso das populações pobres por eles administradas.
Participei de três reuniões restritas, no Café da Manhã na sede do IEA, a duas quadras de Westminster e da "Queen Elisabeth II Conferece Centre" onde se reuniu a MPS. Nos plenários de domingo à quarta, foram debatidos nas sessões da conferência, além do tema tratado por José Luís, o problema de sabermos se "Somos mais ou menos livres" na atualidade; "O Liberalismo do século XXI"; "A Reconstrução do Estado de Direito" (the Rule of Law); "O Tamanho e Forma das Comunidades políticas Futuras"; "Principais Lições da Privatização"; "A Fixação de Normas fora do Âmbito do Estado"; "A Importância da História" e "A Guerra das Idéias: para onde iremos agora?". Pessoalmente, foram os temas finais, que versam assuntos de filosofia políticas, aqueles que mais diretamente me solicitaram a atenção, pois se encontram na área a que tenho dedicado estudo e pesquisa em toda minha vida profissional. Mas é justamente a multiplicidade dos interesses e posturas dos membros da sociedade, e - por que não dizê-lo? - as divergências de opinião dentro do quadro amplo do Liberalismo moderno o que estimulou o debate. O liberalismo surge, de fato, de fontes tão diversas quanto Spinoza, Locke, Hume, Kant, Adam Smith, Burke, Montesquieu, os Pais Fundadores dos Estados Unidos, Tocqueville, John Stuart Mill, Acton, Weber, e os modernos Popper, Aron, Arendt, Mises juntamente com a chamada Escola Austríaca e Hayek, Rawls, Nozick, Dahrendorf, Friedman, Buchanan - para só citar alguns nomes entre os grandes pensadores da Liberdade nos quatro últimos séculos - todos eles demonstram a vitalidade da filosofia humanística que cultuamos, em contraposição à mediocridade, incoerência ou opacidade do pensamento daqueles pró-homens do totalitarismo - nacionalista e socialista ou seja, o que qualifico simplesmente, (em A Ideologia do Século XX) de "Nacional-Socialismo". O Mal que desgraçou o passado século.
Em conclusão. Na reunião de Londres, discutiram os liberais os Novos Tópicos e as Novas Tendências que caracterizam os "novos tempos", especialmente depois do trauma do 11 de setembro nos USA. Acredito que o Ocidente liberal enfrenta seu terceiro grande desafio totalitário - depois do nazista na 2ª Guerra Mundial e do comunista na Guerra Fria. Esse desafio é constituído pelo fanatismo religioso islâmico que aperfeiçoou a arma do terror. Mas a ele se juntaram as esquerdas ocidentais. Frustradas desde a surpreendente e inesperada derrota no annus mirabilis de 1989, todos esses marxistas, jacobinos e Verdes europeus, associados aos "liberals" americanos da linha "politicamente correta" do "blame America first", sentiram renascer suas esperanças. Nos demos conta na reunião da MPS que o Liberalismo de fato enfrenta mais uma tenaz e desesperada reação do socialismo estatizante - semelhante à que ocorreu, justamente, há cem anos, ao final do século XIX. É mais uma etapa de luta na lenta ascensão que nos estimula no caminho da Liberdade.