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De 5 a 10 de outubro último realizou-se,
em Londres, a reunião anual da Sociedade
do Mont Pèlerin (MPS). Com a participação
de 185 membros efetivos, 144 convidados e mais
110 esposas ou acompanhantes assim como 86 fellows
da Organização, éramos ao
todo 527 participantes da reunião, vindos
de 45 países, alguns tão distantes
como a China (Hong-Kong), o Nepal, o Montenegro
e Sri Lanka. Como seria de esperar, as nacionalidades
presentes mais numerosas foram a americana (231)
e a britânica (71). Nessa cúpula
do pensamento liberal contemporâneo fomos
só quatro brasileiros e mais uma brasileira
- identificados numa conferência que registrou
15 guatemaltecos, 12 venezuelanos, 8 argentinos,
7 chilenos e 4 mexicanos. Francamente, nosso país
não costuma destacar-se em assembléias
internacionais por sua presença esmagadora,
particularmente em ocasiões como esta em
que temas de natureza liberal são discutidos
e a participação não só
não é remunerada, mas se revela
custosa para o bolso dos próprios participantes...
a vida em Londres está cara!
Nossos compatriotas foram José Luis de
Carvalho, professor da Universidade Santa Úrsula
no Rio e entusiástico economista que colabora
com o Instituto Liberal do Rio e participa dos
seminários do Liberty Fund. Ele é
o mais recente membro brasileiro recrutado pela
MPS, Leônidas Zelmanowitz, de Porto Alegre,
que se juntará brevemente à Sociedade,
estava acompanhado de sua esposa. E Gilberto Salgado
foi o terceiro, igualmente ligado ao Instituto
Liberal do Rio. José Luís foi o
segundo palestrante no primeiro painel da conferência,
tendo como tópico a Liberdade e a nova
Tecnologia.Em princípio sou membro da MPS
desde 1993.
Vale lembrar o que é a Mont Pèlerin.
O nome e a instituição recordam
a convocação por Friedrich Hayek,
em 1947, de uma reunião dos mais eminentes
pensadores liberais, principalmente europeus,
num hotel com esse nome, acima de Montreux, no
lac Léman, Suíça francesa.
A intenção de Hayek era promover
o estudo dos meios de prevenir o prosseguimento
do mundo civilizado ocidental no "Caminho
da Servidão" a que se havia referido,
cinco anos antes, num ensaio famoso com esse título.
A primeira reunião no Mont Pèlerin
realizou-se de 1° a 10 de abril e dela participaram
39 economistas, sociólogos e cientistas
políticos, a grande maioria dos quais se
ilustrou posteriormente na cultura e na política
de seus respectivos países - Erhardt, Aron,
Hartwell, Friedman, por exemplo. A escolha do
nome da sociedade simboliza de certo modo o desejo
dos fundadores de não associarem a instituição
criada com determinada tradição,
atividade científica, religião ou
lealdade nacional. O mais amplo espectro de opiniões,
ideologias ou convicções filosóficas
devia presidir ao desejo comum dos que firmavam
a Carta de Princípios original de preservar
o ideal de "preservação de
uma sociedade livre". A convicção
comum era partilhada que "a liberdade individual
só pode ser mantida numa sociedade em que
um mercado competitivo efetivo seja a agência
principal para a orientação da atividade
econômica". No "mercado"
liberal se inclui a troca, num mundo que se globaliza,
de idéias, de mercadorias, avanços
tecnológicos, interesses, opiniões
e visões de uma futura sociedade inteiramente
livre.
O tema geral dos debates da MPS em Londres, 55
anos depois de fundada, foi deliberadamente vago:
"Novos Tempos, Novos Tópicos, Novos
Talentos". Do domingo 6 de outubro, à
quinta-feira seguinte assistimos, segundo a praxe
adotada pela instituição, a painéis
de conferencistas e comentaristas, seguidos de
livre debate facultado ao plenário. A atividade
diária esteve acompanhado de pequenas pronunciamentos
às refeições, homenagens
a determinadas personalidades - como, por exemplo,
aos prêmio Nobel professores James Buchanan
e Milton Friedman (este presente apenas virtualmente
por sua oraçção gravada),
o americano Charles Rawley; Arthur Seldon e lord
Ralph Harris, os dois últimos fundadores
do Institute of Economic Affairs, a instituição
que, havendo inspirado a revolução
liberal inglesa empreendida por ladu Thatcher,
patrocinou a reunião. Aliás, o diretor
geral do IEA, John Blundell, foi o eficiente,
disciplinado e bem humorado organizador da reunião.
Enquanto programas paralelos de turismo foram
postos à disposição das esposas
e companheiras dos participantes, um banquete
de despedida bastante original e animado, em homenagem
a Adam Smith e Benjamim Franklin, se realizou
no Victoria and Albert Museum, não por
acaso talvez na grande sala que contem os ossos
recompostos de um dos maiores dinossauros descobertos
- sendo o Dinossauro uma representação
simbólica adequada do Estado burocrático
obsoleto que combatemos através da instituição
fundada por Hayek. Na mesma tarde de 9 de outubro,
a reunião privativa dos membros tomou conhecimento
do relatório do Presidente em final de
mandato, prestou homenagem aos membros falecidos
nos dois últimos anos e marcou os locais
e datas das três próximas reuniões
regionais em 2003, assim como da reunião
global de 2004, que se deverá realizar
em Salt Lake City, Utah, USA. Foi igualmente eleito
o novo Presidente para o biênio 2003;/2004
- o senhor Leonardo Liggio, Presidente do Institute
of Humane Studies e associado à Atlas Foundation,
um gentleman e velho amigo que há mais
de dez anos me recebe cordialmente em Fairfax,
perto de Washington, onde reside e trabalha.
Uma aprazível excursão fluvial coletiva
a Greenwich encerrou a memorável reunião
na quinta-feira, dia 10. E no dia seguinte, participei
de outra homenagem, mais restrita e fora do programa,
a Lord Peter Bauer, falecido no princípio
deste ano, que se celebrou na famosa cidade universitária
de Cambridge. Economista húngaro que se
refugiou e lecionou na Inglaterra, Bauer, como
se sabe, dedicou sua vida de estudioso aos problemas
do desenvolvimento das nações atrasadas
da África e outros continentes, combatendo
tenazmente a política que consistiu em
generosamente financiar seus governos, não
em benefício dos respectivos povos a quem
era a ajuda destinada, mas em proveito de políticos,
burocratas e ditadores - muito mais ciosos de
encherem os bolsos do que de promoverem o progresso
das populações pobres por eles administradas.
Participei de três reuniões restritas,
no Café da Manhã na sede do IEA,
a duas quadras de Westminster e da "Queen
Elisabeth II Conferece Centre" onde se reuniu
a MPS. Nos plenários de domingo à
quarta, foram debatidos nas sessões da
conferência, além do tema tratado
por José Luís, o problema de sabermos
se "Somos mais ou menos livres" na atualidade;
"O Liberalismo do século XXI";
"A Reconstrução do Estado de
Direito" (the Rule of Law); "O Tamanho
e Forma das Comunidades políticas Futuras";
"Principais Lições da Privatização";
"A Fixação de Normas fora do
Âmbito do Estado"; "A Importância
da História" e "A Guerra das
Idéias: para onde iremos agora?".
Pessoalmente, foram os temas finais, que versam
assuntos de filosofia políticas, aqueles
que mais diretamente me solicitaram a atenção,
pois se encontram na área a que tenho dedicado
estudo e pesquisa em toda minha vida profissional.
Mas é justamente a multiplicidade dos interesses
e posturas dos membros da sociedade, e - por que
não dizê-lo? - as divergências
de opinião dentro do quadro amplo do Liberalismo
moderno o que estimulou o debate. O liberalismo
surge, de fato, de fontes tão diversas
quanto Spinoza, Locke, Hume, Kant, Adam Smith,
Burke, Montesquieu, os Pais Fundadores dos Estados
Unidos, Tocqueville, John Stuart Mill, Acton,
Weber, e os modernos Popper, Aron, Arendt, Mises
juntamente com a chamada Escola Austríaca
e Hayek, Rawls, Nozick, Dahrendorf, Friedman,
Buchanan - para só citar alguns nomes entre
os grandes pensadores da Liberdade nos quatro
últimos séculos - todos eles demonstram
a vitalidade da filosofia humanística que
cultuamos, em contraposição à
mediocridade, incoerência ou opacidade do
pensamento daqueles pró-homens do totalitarismo
- nacionalista e socialista ou seja, o que qualifico
simplesmente, (em A Ideologia do Século
XX) de "Nacional-Socialismo". O Mal
que desgraçou o passado século.
Em conclusão. Na reunião de Londres,
discutiram os liberais os Novos Tópicos
e as Novas Tendências que caracterizam os
"novos tempos", especialmente depois
do trauma do 11 de setembro nos USA. Acredito
que o Ocidente liberal enfrenta seu terceiro grande
desafio totalitário - depois do nazista
na 2ª Guerra Mundial e do comunista na Guerra
Fria. Esse desafio é constituído
pelo fanatismo religioso islâmico que aperfeiçoou
a arma do terror. Mas a ele se juntaram as esquerdas
ocidentais. Frustradas desde a surpreendente e
inesperada derrota no annus mirabilis de 1989,
todos esses marxistas, jacobinos e Verdes europeus,
associados aos "liberals" americanos
da linha "politicamente correta" do
"blame America first", sentiram renascer
suas esperanças. Nos demos conta na reunião
da MPS que o Liberalismo de fato enfrenta mais
uma tenaz e desesperada reação do
socialismo estatizante - semelhante à que
ocorreu, justamente, há cem anos, ao final
do século XIX. É mais uma etapa
de luta na lenta ascensão que nos estimula
no caminho da Liberdade.
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