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É uma curiosidade de nossa época
que a morte se tornou tabu e o sexo deixou de
sê-lo. Outrora, era o contrário.
A transição se processou no correr
de minha geração. Como grande era
antes a natalidade nas famílias enormes,
intensa era também a mortalidade e baixa
a expectativa média da vida, assistindo-se
tão comumente à morte de pessoas
familiares que a presença da megera se
tornava banal, companheira constante da vida.
Também havia mais fé, da qual hoje
carecemos num século de quase universal
apostasia. Outrora, pensávamos na morte,
memento mori, porque o destino chamava para o
céu, o purgatório ou mesmo para
o inferno, para o qual nossos inimigos nos ordevam.
E julgávamos conveniente uma preparação
adequada. Nas classes mais cultas das nações
avançadas, poucos hoje ainda sinceramente
acreditam na imortalidade pessoal... quiçá
até o "momento da verdade". Na
literatura, no cinema, nos jornais, nas conversas
de boa sociedade, ninguém muito hesita
em retirar o sexo da extrema privacidade em que
existia para uma publicidade ostensiva, explícita
- enquanto o fim se tornou um escândalo,
uma vergonha, um tema extremamente desagradável,
revoltante, imoral, quase obsceno, É, de
qualquer forma, algo "numinoso" em que
não se deve tocar. Morre-se agora na mais
absoluta solidão, freqüentemente em
hospital, longe da família, num ambiente
feio e frio como tememos.
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