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Há uma tendência comum em considerar
como "irracionalistas" os filósofos
que, na linha de Schopenhauer, Kierkegaard e Nietzsche,
se rebelaram contra o absolutismo da Razão
na filosofia idealista de Hegel. O que, na realidade,
surge com Schopenhauer e Kierkegaard, a partir
de um dos aspectos da filosofia de Kant, é
um salto para além da antinomia do Intelecto
e do Coração. É um pulo em
direção ao supra-racional, ao meramente
existencial. A nenhum dos dois caberia a crítica
de Nietzsche aos "alunos demasiadamente dóceis
dos professores de ciência de seu tempo,
que tudo sacrificavam ao romantismo, após
haver abjurado o espírito do Século
das Luzes" (em "Humano, demasiadamente
Humano") - sacrifício, seja dito de
passagem, que Nietzsche também se absteve
de oferecer... Não devemos, pois, considerar
gratuito o desprezo de Schopenhauer pela filosofia
teorética de Hegel e de Fichte, nem a ojeriza
de Kierkegaard ao "sistema" hegeliano.
Pior ainda foi Nietzsche. Contrariando a crença
dos cientistas clássicos num Logos ou numa
ordem racional do Universo, ele afirmou que "o
caráter total do mundo é, de toda
eternidade, o caos" - prevenindo-nos, com
sua habitual heterodoxia, contra a crença
que haja leis na natureza. É na "Gaya
Ciência" que Nietzsche pretende que
"todas as coisas que existem são necessidades;
não há ninguém comandando,
ninguém obedecendo, ninguém transgredindo.
Logo que Você compreende que não
há propósito algum em tudo isso,
Você também percebe que não
há acidentes, eis que a palavra `acidente'
só possui significado quando medida contra
um mundo de propósitos". Como introdução
ao estudo de uma ciência, ou seja, da biologia,
Nietzsche não nos deixa com muita esperança
de compreendê-la. Mas e daí? O máximo
que podemos fazer, nesta altura, é considerar
Schopenhauer, pelo qual ele se interessou no princípio
de sua obra filosófica.
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