| Em meus
42 anos de carreira diplomática e mais
30 de aposentadoria, tive três vezes a oportunidade,
em ocasiões bem diversas, de visitar Xanghai,
hoje a maior cidade da China e, possivelmente,
a maior do mundo. Quero oferecer alguns comentários
do que guarda minha memória sobre essa
metrópole formidável pelo interesse
e por sua curta, porém movimentada história
– pois nela servi em duas ocasiões
diferentes e por duas outras vezes visitei-a.
E antes de mais nada, agora que nosso país
se clara disposto a criar com a China laços
estreitos e comércio, convém salientar
que foi Xanghai, desde sua criação
há pouco mais de século e meio,
o principal empório do gigantesco país
em seu relacionamento com o exterior;
Better fifty years of Europe than a cycle
of Cathay – “mais valem cinqüenta
anos de Europa do que um ciclo da China”
é o que, em versos famosos, proclamara
Alfred Lord Tennyson, poeta consagrado de Sua
Graciosa Majestade, a Rainha Victoria. Isto, em
meados do século dezenove, o que prova
que a opinião e julgamento do Ocidente
sobre a China têm variado com as estações.
O comércio sempre inicialmente conduziu
o interesse dos europeus pela longínqua
Cathay. Na Antigüidade clássica, os
romanos recolheram notícias de um vasto
e poderoso Império, uma espécie
de misteriosa utopia que existia ao Oriente, nos
limites do mundo, e chamavam-na de Seres.
De lá procedia a seda que luxuosamente
importavam. Há indícios de que,
ao tempo de Trajano ou outro dos Antoninos no
apogeu, vanguardas de uma legião romana
tenham entrado em contacto com pelotões
de tropas chinesas na longínqua Bactriana,
hoje compreendendo áreas do Turquestão,
Tadjiquistão e Afeganistão. Era
então a China governada pela poderosa dinastia
Han, a mais autenticamente chinesa e duradoura
das muitas que dominaram o Império Central.
Até hoje, os próprios chins se intitulam
Han, “o povo de Han”, para se distinguirem
dos manchus, mongóis, tibetanos, turcos
e aborígenes que compõem o atual
“País Central”, Djung Guó
(1). Os primeiros contatos assim supostamente
estabelecidos entre o Império do Ocidente
e o Império do Oriente foram, no entanto,
interrompidos pelas incursões de tribos
nômades da Mongólia e Sibéria
de origem turcomana, provavelmente aparentados
aos Hunos que os chineses denominavam Hsiung
Nu. Os Han haviam repelido invasões
desses bárbaros. Com esse propósito,
terminaram a construção da Grande
Muralha que o Primeiro Imperador Ch’in (ou
Kin) Xi Huangdi havia iniciado. Escarmentados,
os Hunos voltaram-se para o Ocidente e invadiram
o Império romano no quarto e quinto séculos.
Sob o comando de Átila, tornaram-se o terrível
Flagelo de Deus ao destruírem o império
dos Godos e invadirem a própria Itália.
Como consequência, durante mil anos foram
cortadas todas as comunicações entre
Leste e Oeste.
A Rota da Seda continuou ocasionalmente aberta
durante a Idade Média e, através
dela, as formas da escultura grega teriam migrado
e influenciado as representações
do Buda no período em que o Budismo se
estendia e conquistava a Ásia oriental,
China, Coréia, Japão, Vietnam, Tailândia,
Birmânia e, originariamente, o que é
hoje a Indonésia. As invasões de
hunos, turcos, tártaros, mongóis
e inúmeras outras tribos siberianas de
nômades guerreiros que, eternamente, se
movimentavam nas imensas estepes, planuras e planaltos
da Ásia Central, impediram qualquer outro
relacionamento entre as duas civilizações.
O vácuo foi preenchido pelo Islam que,
sob diversas identidades étnicas, dominou
o eixo geopolítico mundial do Oriente Médio.
As invasões mongóis tudo varreram.
Dois netos de Genghiz-khan, Kubilai e Hulägu,
foram respectivamente Imperadores da China e da
Pérsia - construindo impérios estáveis.
Bagdad, então a grande metrópole
maometana, foi destruída e com ela o Califado
e, nessas condições, o angustiado
Sumo Pontífice em Roma alimentou a idéia
de concluir uma aliança com os mongóis,
para atacar os odiados cultores de Mafoma pelas
costas. A seu comando, entre 1245 e 1247, o frade
franciscano João de Piano-Carpini viajou
pela Ásia Central como legado papal e esteve
presente ao grande Kurultai, ou concílio
das tribos mongóis em Karakorum, na Mongólia
- reunião que proclamou Kuyuk, outro neto
de Genghiz Khan, novo Grande Khan e Senhor do
Mundo. A expedição do monge italiano
foi uma das mais impressionantes e momentosas
expedições diplomáticas que
registra a história. Atrás dele,
outros europeus alcançaram a Ásia
oriental, sendo dois particularmente importantes,
o comerciante veneziano Marco Polo, o primeiro
a alcançar Beidjing (Cambaluc ou Khanbalig),
e o jesuíta basco São Francisco
Xavier, o maior de todos os missionários
em terras exóticas e o primeiro a conhecer
e estabelecer um relacionamento permanente com
o Japão no século XVI. Daí
por diante, foram as relações entre
os dois pólos da cultura universal progressivamente
se ampliando e reforçando. A presença
constante de padres jesuítas na corte de
Beidjing teve um efeito superficial do ponto de
vista político, servindo, porém,
para aprofundar o conhecimento que, da Ásia
oriental, obtinha a Europa. Numa célebre
disputa, franciscanos e dominicanos conseguiram
persuadir a Santa Sé que errada e sacrílega
era a tese dos jesuítas segundo a qual
o culto dos mortos, em vigor em toda a Ásia
Oriental, não possuía um caráter
religioso, mas constituía apenas uma prática
de moralidade familiar tradicional. Há
sinólogos que consideram tenha a decisão
do Papa prejudicado irremediavelmente o que se
apresentava como uma perspectiva alvissareira
de conversão do povo de Han ao Cristianismo.
A reputação do Império Central
como poderoso, rico e admiravelmente civilizado
atingiu seu apogeu no século XVIII quando
os philosophes, notadamente Voltaire,
passaram a louvar e enaltecer a China como paradigma
de cultura, sabedoria e poder. Foi a época
em que a moda das chinoiseries invadiu
a França e a Inglaterra. Como resultado
desse crescente interesse europeu pela Ásia
Oriental, a Inglaterra, então em guerra
com a França, enviou à corte de
Beidjing a monumental embaixada de Lord Macartney.
Carregando consigo uma esquadra e dois mil homens
de equipagem, o embaixador britânico demorou
dois anos para conseguir, em 1792, ser recebido
pelo velho imperador Ch'ien Lung (ou Kien Long),
o último dos grande monarcas da dinastia
manchú. A missão terminou em fracasso.
O motivo principal do insucesso dos “Diabos
Narigudos do Ocidente” foi curioso. Enviado
por uma potência que já se considerava
senhora absoluta dos mares, na ponta de lança
da revolução industrial e dona das
Índias e grande parte da América
do Norte, Lord Macartney considerou absolutamente
inaceitável a exigência dos mandarins
chineses de que cumprisse a cerimônia do
kowtow. O coutou, ou “nove
prosternações” diante do Filho
do Céu, era cerimoniosa e imperativamente
praticado pelos reis tributários ao serem
por ele recebidos em audiência geral no
“Centro do Mundo”. Desprezando relógios,
telescópios, bússolas, canhões
e outros bugigangas que do enviado britânico
recebera, o Monarca Celeste enviou ao Rei George
III uma mensagem presunçosa e extremamente
irrealista, denunciando a arrogante auto-satisfação
do velho Império que sempre se considerou
o Centro do Mundo. Vale reproduzir seus termos:
Vós, ó Rei, que viveis além
de muitos mares, inspirado entretanto por vosso
humilde desejo de participar dos benefícios
de nossa civilização, enviastes
uma missão trazendo respeitosamente Vossa
Nota... Governando o mundo inteiro, só
tenho um objetivo em vista: manter um perfeito
governo e cumprir o dever do Estado; os objetos
estrangeiros e custosos não me interessam.
Se ordenei que os tributos por Vós oferecido,
ó Rei, sejam aceitos, foi comente em consideração
ao espírito que Vos inspirou a nô-los
enviar de tão longe. Nossa virtude dinástica
penetrou em todos os países sob o Céu.
Os reis de todas as nações me enviam
custosos tributos por terra e por mar. Como Vosso
Embaixador pode por si mesmo constatar, possuímos
todas as coisas. Não concedo valor algum
às coisas estranhas ou engenhosas e nada
tenho a fazer com os produtos manufaturados de
vosso país. Tal é minha resposta
a Vosso pedido de nomear um Embaixador junto à
minha Corte, requerimento contrário a nossos
costumes dinásticos e de que só
Vos resultariam inconvenientes”.
O extraordinário episódio configura
um momento crucial no secular relacionamento entre
o “País Central” e o Ocidente.
A embaixada Macartney serviu de tema a Alain Peyrefitte
para uma obra monumental intitulada L’Empire
Immobile (2), em que, em quatro volumes,
analisa as peripécias da embaixada Macartney.
A obra cobre as reações dos chineses,
dos ingleses e dos jesuítas que, na época,
ainda habitavam Beidjing como hóspedes
e astrônomos da corte imperial. Notável
político e escritor francês, dez
vezes Ministro de Estado, membro da Academia e
do Institut de France, Peyrefitte compara filosoficamente
a atitude negativa, arrogante e contraproducente
de Ch’ien Lung diante do desafio ocidental,
com a que tomaram os japoneses, meio século
mais tarde, no confronto irresistível com
a realidade moderna. Ao considerarem o aparecimento
do esquadrão do Commodore Peary na baía
de Tóquio com a proposta de que o Império
nipônico se abrisse, o Xôgun mandou
inicialmente examinar o poder dos canhões
da esquadra americana. Constatou a realidade e
se deu conta de seus efeitos e seus perigos. Em
seguida, recebeu os representantes estrangeiros
com todas as mesuras. Mais sábios do que
os chineses, os nipões perceberam, imediatamente,
as ameaças e vantagens que um relacionamento
com o Ocidente comportava e trataram de se adaptar,
absorvendo a tecnologia da Europa e América.
Isso deu início à Era Meiji, a grande
transformação do Japão. Na
verdade, com exceção da crise paranóica
dos anos 30 e 40, os japoneses foram os primeiros
naquelas bandas que se revelaram dispostos a enfrentar
as promessas da modernidade, preparando-se adequadamente
para a globalização e se transformando
no primeiro dos chamados “Tigres Asiáticos”.
Enquanto isso, a negativa chinesa em proceder
do mesmo modo ia custar ao Império Central
cento e cinqüenta anos de violências,
invasões, guerras, aflições
e perplexidades inimagináveis, até
hoje aliás motivo de ásperos debates.
Foi uma resistência comprovadamente inútil
ao fenômeno da inevitável extensão
planetária da civilização
ocidental, procedente da área do Atlântico
Norte. Há muitos tolos que se comportam
do mesmo modo como os chineses dos séculos
XVIII e XIX. Os mais inteligentes imitam os japoneses.
Os efeitos desastrosos de não aceder às
propostas transmitidas por Lord Macartney não
se fizeram esperar. Vinte e cinco anos depois
da embaixada, os ingleses adquiriram Hong Kong
pela força das armas e, em 1842, Xanghai
foi fundada, juntamente com a abertura de quatro
outros portos na costa chinesa ao comércio
britânico. Eventualmente, com a colaboração
da França que obteve sua própria
“Concessão” em Xanghai, as
principais grandes potências européias
conquistaram uma situação privilegiada,
pois essas cidades se converteram numa espécie
de território internacional que, desprezando
totalmente a soberania do Estado chinês,
introduziram no país as sementes da grande
transformação, conduzindo ao processo
global de modernização. As imunidades
e privilégios gozados pelos “Narigudos
Diabos do Ocidente” perduraram até
a IIª Guerra Mundial. Foram abusivas mas
os garantia contra crises periódicas de
xenofobia homicida, a mais grave das quais ocorreu
durante a chamada Revolta dos Boxers
em 1900.
Entretanto, as notícias sobre a decadência
do Império Central já haviam tão
ruidosamente alcançado a Europa que se
podia falar no “sono” da Velha China.
No século XIX, Tennyson não foi
o único a menosprezar o poder e vitalidade
da nação mais numerosa e uma das
mais antigas do planeta. Nos anos vinte, o historiador
alemão Oswald Spengler considerou os chineses
“um povo de felás”, igual aos
egípcios, fadados a sofrer a história,
jamais a influenciá-la... Napoleão
revelou-se muito melhor analista e profeta mais
perspicaz. Comentando as frustrações
do embaixador Macartney, sobre as quais havia
lido, ele preveniu os céticos: “Quand
la Chine s'éveillera... le monde tremblera”...
Em 1817, no exílio de Santa Helena, o prisioneiro
imperial foi cortesmente visitado por Lord Amherst,
o segundo embaixador que a Inglaterra mandara
à China, com resultados ainda mais frustrantes
do que os do primeiro. “Tremerá o
mundo quando a China se acordar” é
o título de um livro de crônicas
do próprio Alain Peyrefitte, publicado
em 1972 após sua primeira visita à
China como enviado da França. Em 1996,
o escritor francês voltou à carga
com outra crônica sobre a era Deng Xiaoping
e seu programa de “Uma Nação,
Dois Sistemas”, e anunciou com convicção:
“La Chine s'est éveillée”...
O sucesso da Singapura, Taiwan, Malásia
e Hong Kong testemunham da capacidade do chinês
de se adaptar à modernidade industrial
- tal como ocorre com os japoneses e os coreanos.
Na verdade, os indicadores de desenvolvimento
publicados pelo Banco Mundial em 2003, já
tornam a China a segunda potência econômica
mundial. Ela teria ultrapassado o próprio
Japão. Calculado na base da metodologia
do PPP (purchasing power parity, a paridade
do poder de compra da moeda), o PIB chinês
alcança cinco trilhões de dólares,
cerca da metade do americano. Não há
dúvida, a China acordou! O futuro provará
quando as Cinco Modernizações de
Deng Xiaoping começarem a render dividendos
com a liberalização progressiva
do regime...
Foi num momento crucial desse processo de “despertar”
da China, que tive a oportunidade de melhor a
conhecer. Por duas vezes lá servi e é
sobre a primeira visita que vou agora discorrer.
Xanghai (3) era uma aldeia que já principiava
a se tornar o principal porto da China setentrional
quando, em meados do século XIX, se transformou
numa entidade internacional com privilégios
de extra-territorialidade para os estrangeiros
das chamadas “potências capitulares”.,
Hoje, ela é uma das maiores metrópoles
do mundo. O que se segue procura demonstra a importância
do tema, pois a cidade merece...Cobre este capítulo
as peripécias que marcaram o segundo posto
em que eu ia servir – peripécias
pessoais e coletivas que os acontecimentos bélicos
impunham. Eu viveria na China duas vezes, a primeira,
de abril de 1941 a junho 42; a segunda vez, de
1947 a 49, no episódio final da guerra
civil que levou Mao Dzedong ao poder.
Como tal, tornar-me-ia o único diplomata
brasileiro – e provavelmente o último
sobrevivente dos Old China Hands. O que
quer dizer, devo ser o último entre meus
compatriotas que conheceram o velho Império
Central ao tempo da Primeira República,
a de Sun Yatsen, da ocupação japonesa
e do governo de Chiang Kaichek - antes portanto
do regime maoísta. E quando, em 1992, retornei
à China em passeio turístico, fui
considerado com pasmo pelos diversos guias oficiais
que nos acompanharam. Era uma espécie de
assombração, algo como chamam os
franceses um revenant, um fantasma da
pré-história, um espectro que retorna
ao mundo dos vivos. Saltando por cima do Maoísmo,
da velha China do Kuomintang e das “Concessões
internacionais”, desembarquei na China novíssima
que "se acorda" e moderniza sob a autoridade
dos Presidentes Jiang Zemin e Hu, segundo e terceiro
sucessores do venerável mandarim Deng Xiaoping...
Deixou-me a China uma impressão profunda.
Durante todo um largo período da vida senti
raízes que me atavam àquele país
por laços existenciais de significado especial.
Além dos três anos e meio que lá
vivi, com duas viagens posteriores, muitos outros
foram dominados pela lembrança de experiências
traumáticas por que passei. No princípio
da carreira acariciara veleidades de me considerar
um expert em coisas chinesas, um sinólogo,
imaginem! E, efetivamente, tão limitado
é o grau de especialização
dos funcionários de nosso serviço
diplomático que poderia reivindicar o privilégio
de ser “o mais entendido” em tal e
qual contexto. Não que me pudesse isso,
de modo algum, valer em termos de progressão
funcional ou prestígio profissional, tão
longe se encontram os interesses brasileiros dos
do país dos antípodas. Durante algum
tempo, cognominaram-me de “chinês”.
Enfim, minha identificação como
“chinês” perdurou por vários
anos entre colegas. Razão de sobra terá
tido Guimarães Rosa de me dedicar (1958)
seu Sagarana com amizade e um certo chiste
irônico, descrevendo-me como um “companheiro
nas etapas lumino-nebulosas do Tao, espírito
aberto às vozes sábias da História
e aos sutis ecos do mar da Mefafísica”...
Quando desembarquei no grande porto em abril
de 1941, encontrava-se a cidade na seguinte situação,
dividida sumariamente em quatro áreas.
Uma parte da chamada Concessão Internacional,
além do córrego de Suzhou e na margem
esquerda do rio Huangpu, era administrada pelos
japoneses. Todos seus arredores sofriam igualmente
sob a brutal ocupação do exército
nipônico que por ali, na primavera de 1937,
iniciara sua segunda tentativa de conquista da
China central. O Settlement propriamente
dito permanecia, como antes, administrado por
um Conselho Municipal sob responsabilidade dos
Cônsules das potências capitulares,
com direitos extra-territoriais. Entre estas Potências,
honrada e discretamente figurava o Brasil. Junto
ao Settlement internacional, a sudoeste,
a Concessão Francesa era administrada por
um Cônsul Geral - o Ministro Roland de Margerie.
Xanghai apresentava-se, em suma, como uma cidade
internacional no sentido administrativo e real
da palavra, com quatro setores distintos: o francês,
o internacional, a área ocupada pelos japoneses
e os bairros chineses do lado de Putung, na margem
direita do rio Uangpu. Nessa época, das
importantes tropas estrangeiras ali concentradas
em 1937, com missão de defender as Concessões
ante o ataque japonês contra a China, só
sobravam um regimento de Marines e alguns fuzileiros
navais franceses. Na polícia internacional,
serviam muitos oficiais britânicos, com
sikhs e gurkas que haviam sido trazidos pelos
ingleses, e um grande número de refugiados
europeus. Os nacionais das potências da
Europa, América Latina e Ásia que
haviam mantido sua neutralidade conseguiram sobreviver,
bem ou mal, aos quatro anos do conflito mundial,
sem sofrerem especialmente da brutalidade das
autoridades ocupantes.
Em fins de 1942, depois das duas partidas do
navio italiano Conte Verde que proporcionou
o êxodo dos diplomatas e mais alguns privilegiados
– a autoridade militar nipônica organizou
campos de concentração para os civis
inimigos que ainda encontraram na cidade - o que
é o tema do magnífico filme de Steven
Spielberg, Empire of the Sun.
De um modo geral, quando lá cheguei, nada
na vida diária do porto parecia indicar
que a China inteira enfrentava uma guerra de conquista
total; nem que, na Europa, alastravam-se as chamas
ardentes do mais violento e sangrento confronto
bélico da história universal. A
Concessão sobrevivia pacificamente, escarmentada
embora pela inconfortável presença
opressora dos súditos do Mikado. Ela demonstrava
a mesma estupenda serenidade e confiança
que sempre a caracterizou, nos cento e setenta
anos de duração da novela singular
que traduz sua crônica cosmopolita. Notai
ainda a circunstância que, em que pesem
as tentativas mais radicais dos revolucionários
maoístas, com seus pendores ruralistas,
de destruí-la após a instalação
do “Governo Popular” em Beidjing,
1950, ela continuou progredindo, pouco sofrendo
com o Grande Salto para a Frente e a Revolução
Cultural. Nessas condições, à
medida que o “Império Central”,
vulgo República Popular, se integra no
movimento geral de globalização
e com uma população já superior
talvez a vinte milhões, Xanghai se destaca
como a maior cidade do mundo, a maior cidade chinesa,
seu principal porto, o núcleo da acelerada
expansão industrial prevista e a magnífica
fachada moderna de imponentes arranha-céus
que pretende apresentar ao mundo como símbolo
da nova China.
Sobre o cais do rio Uangpu, estende-se o famoso
Bund. Seus majestosos edifícios de bancos,
hotéis e grandes firmas internacionais
- o Billion Dollar Row como era chamado
naquele meado do século XX - representavam
o que de mais rico e poderoso concentrava a presença
ocidental no Oriente. “A cidade onde jamais
cessa a agitação” (the
City where trouble never ends) confrontava-se
com as condições de guerra no mesmo
entusiasmo otimista que lhe houvera, no passado,
permitido sobrepujar todas as adversidades. Formidável
formigueiro humano, compreende-se por que Aldous
Huxley, quando a visitou, tenha observado que,
mais do que em qualquer outro lugar do mundo,
faz ali sentido o conceito do élan
vital bergsoniano. Hoje, espantoso é
o crescimento demográfico e econômico.
A renda per capita ultrapassa os cinco mil dólares,
com crescimento maior do que a média nacional.
Só em 2003, calcula-se que três milhões
de imigrantes tenham chegado à cidade,
valendo-se de um certo relaxamento no estrito
controle das migrações internas
exercido pelo governo de Beidjing. Quatrocentos
mil novos empregos foram criados neste único
período de doze meses, o que não
impede tenha o número de desempregados
atingido 300.000. Uma economia e uma demografia
ainda em grande parte sob controle estatal impedem
o surgimento de favelas.
A própria língua franca
local era peculiar, endógena. Mistura do
dialeto da província do Tchekiang com um
pot-pourri de palavras inglesas, portuguesas,
indianas e francesas numa gramática chinesa,
o Pidgin English é facilmente
assimilável e me tornei proficiente em
seu uso. Dizem que a origem do jargão foi
espontânea, nasceu no business
entre negociantes ingleses e compradores
locais. Desde logo compreendi que não adiantava
esforçar-me por estudar o chinês
na versão oficial do Norte. O estudo da
língua escrita, ideográfica, implica,
necessariamente, o conhecimento do maior número
possível dos 40 mil ideogramas que existiriam
– um décimo dos quais, pelo menos,
seriam imprescindíveis para a leitura de
jornais e livros simples. A absorção
mnemônica dos ideogramas não é
fácil mas se torna, aos poucos, um jogo
fascinante. Quanto á gramática,
é a própria simplicidade; não
há verbos, nem sintaxe complexa. Por exemplo:
quando V. encontra na rua uma pessoa amiga e pergunta
como está, a fórmula é nin
hao? (como bom?). Ou hao bu hao?
(bom não bom?). Cabe acrescentar que muitas
palavras portuguesas se integraram ao Pidgin.
A palavra sabe significa ao mesmo tempo saber
e entender. Assim, se quero perguntar a um lojista
local se compreendeu o que eu disse, a questão
é “sabe no sabe?”.
O Pidgin era muito usado em Xanghai com os empregados
domésticos, com os cules que nos transportavam
em seus veículos antropomotores, assim
como nas lojas. Outro termo curioso é maskee,
originário da expressão idiomática
lusitana mas que!, num sentido semelhante
ao francês je m´en fous,
italiano ne me frego, ou russo nitchevo.
Mais complicada foi a tarefa dos primeiros jesuítas,
italianos em sua maior parte, que se estabeleceram
na corte de Peking, século XVII, na esperança
de converter o Filho do Céu e assim cristianizar
de um só golpe a China inteira. A frase
“Deus é amor” mereceu complicas
ginásticas vocabulárias pois o verbo
ser não existe, Deus
teve que ser traduzido pelos católicos
como “Senhor do Céu” e amor,
de modo similar, comporta uma variedade enorme
de termos para as formas específicas, “amor
paterno”, “amor filial”, “amor
sexual”, amor de uma coisa, um lugar ou
uma entidade abstrata qualquer.
Um termo que adquiriu um sentido social e histórico
importante é comprador, merecendo
ser comentada. A palavra designava os primeiros
negociantes chineses que estabeleceram comércio
com os europeus, portugueses para começar;
ela é um exemplo de como se originou o
dialeto. A classe dos compradores foi
formada, desde a época dos primeiros negociantes
europeus que atingiram o sul da China no século
XVI, pelos intermediários chineses ou sino-portugueses
de Macao que, falando uma língua européia,
prosperaram rapidamente nesse comércio
e se tornaram o elemento mais influente da nação
na primeira metade do século XX. Sua base
foi Hong-Kong, Macao, Xanghai e outros portos
“abertos” de intercâmbio e contato.
No final do século XVIII, o Imperador Kien
Long, o mesmo que se recusara a atender às
propostas comerciais de lord Macartney, criou
uma ojeriza especial aos mercadores chineses de
Macao e Cantão, os “compradores”
dos artigos oferecidos justamente pelo embaixador
britânico, porque constituíam uma
ameaça ao isolamento absoluto em que pretendia
manter o Império Celeste. Sempre tenho
defendido a tese que a Revolução
Maoista Chinesa constituiu, realmente, uma revolução
de cunho nacional-socialista, totalmente
heterodoxa do ponto de vista do Marxismo teórico
puro. O movimento foi dirigido não tanto
contra um feudalismo rural, que pouco existia
no contexto chinês, mas contra a burguesia
das grandes cidades portuárias “contaminadas”
pelo espírito ocidental. Foi, assim, primariamente
uma revolução contra a classe dos
Compradores e seus líderes, cognominados
Taipan. Se há um aspecto em que
se pode falar em “luta de classes”
na Revolução chinesa, seria esta
configurada pela tendência do campesinato,
essencialmente conservador em suas atitudes e
interesses, em aceitar a idéia de “Portas
Abertas”. A proposta implicava o fim do
isolamento. A classe rural concordou assim em
ser mobilizado e liderado por outro camponês,
mais instruído e de virtudes carismáticas,
o camarada Mao, a fim de derrubar os “corruptos
compradores” da alta “burguesia”
que, juntamente com suas mercadorias importadas,
traziam também idéias novas e costumes
estrangeiros, oriundos de um mundo totalmente
alheio ao centralismo obstinado do Império
Central. Em outras palavras, foi a “Revolução”
chinesa, na realidade, uma reação
ou contra-revolução do conservadorismo
rural contra a classe dominante dos compradores,
encabeçados pelo Kuomintang.
Não era a primeira vez que uma nova “dinastia”
seria estabelecida dessa maneira, Na terminologia
chinesa, uma forte personalidade dotada de carisma
recebia o “mandato do Céu”,
Ming, que legitimava seu governo. Posteriormente,
o novo regime passou a ser administrado, como
sempre fora, pela burocracia “imperial”.
Para esta Nomenklatura, os portugueses
também haviam adequadamente inventado o
termo Mandarim - aquele que manda.
Estes, hoje como outrora, continuam residindo
principalmente Beidjing. A China oferece, de fato,
o exemplo supremo de uma sociedade que sempre
foi governada por uma classe burocrática,
um sistema que data do aparecimento de Confúcio
(Kung Fu Tsê), no quinto século
antes de Cristo. O burocrata é o homem
que “manda” em nome do soberano, qualquer
que seja o poder tradicional do Imperador, da
dinastia por ventura reinante e da intervenção
ocasional dos soldados nas crises graves de sua
história. É o membro dessa aristocracia
civil, outrora necessariamente versada nos “Clássicos”
de sua filosofia, quem estabelece como se deve,
oficialmente, falar “mandarim”, literalmente
a “língua do funcionário público”,
kuan-huá, está programada
para, pouco a pouco, eliminar todos dialetos locais
e se transformar no único idioma chinês.
A burocracia weberiana, que no caso é herdade
da tradição clássica de Confúcio
seus discípulos, particularmente Mencius
(Meng-Tzê), o principal teórico
político, continua a ser a elite dirigente
do país, Xanghai seria, por conseguinte,
o principal cenário do confronto entre
os “compradores” e os “mandarins”.
Os compradores são hoje, também,
eficientíssimos vendedores e isso é
a principal novidade da China moderna.
O típico Xanghailander era cosmopolita,
alegre, dinâmico, empreendedor, livre de
preconceitos. Esquecia seu país de origem
para só se lembrar que era ou um “Senhor
Branco” (White master), ou um Taipan,
um Grande Patrão, comprador de mercadorias
e idéias estrangeiras. De um lado, o ocidental,
solidário com os de sua raça e amante
dessa colossal Babilônia erguida como por
encanto sobre o lamaçal do rio Uangpu;
do outro, o chinês da cidade que sempre
foi rebelde contra a imutabilidade conservadora
da sua sociedade - e ambos prosperando na mistura
exótica de culturas aparentemente inassimiláveis.
Hoje, o cidadão de Xanghai é o campeão
da abertura e da globalização que
os mandarins de Beijding, ainda presos a seus
preconceitos marxistas que tão bem se adaptam
à milenar tradição burocrática
do “Despotismo Oriental”,
procuram conter num conservadorismo granítico.
Nessa atmosfera excitante, de confrontos múltiplos,
em que o adversário a combater era um invasor
imperialista igualmente asiático, fui contagiado
logo ao chegar. Na verdade a atração
que a cidade exercia sobre o estrangeiro, o charme
misterioso com que o Oriente cativa os que nele
viveram, não é a de um recanto burguês
pacato, com paisagem familiar. A Ásia acorrenta
numa perspectiva de aventura, perigo e exotismo.
O fascínio é do extraordinário
quotidiano que alimenta a imaginação,
o campo livre onde se deleitavam os inescrupulosos,
os ambiciosos, os audaciosos e os inimigos da
rotina dos filisteus. Um verdadeiro Xanghailander
já sobressaía, muito antes da chamada
“globalização neoliberal”
que marca o início deste novo século,
como um internacionalista ou cidadão do
mundo no sentido que a coletividade a que pertencia
só era limitada pela relativa diferença
fisionômica e lingüística entre
as etnias. Para ele, na China, tudo era permitido.
Se alguns carregavam aos ombros a ilusão
kiplinguiana obsoleta do “fardo
do Homem Branco”, a missão civilizadora
que a si próprios confiara, sem pedir licença
ao “nativo” - essa velha arrogância
do conquistador se foi pouco a pouco diluindo
no mercado global. O europeu ou o americano que
para lá se mudasse, ou para Hong-Kong,
ou para Singapura, não estava disposto
a “estabelecer-se” com casa, mulher
e filhos, como o faria em alguma cidadezinha do
Sussex, da Provence, do Kansas ou do Texas. O
que ansiava era viver nietzscheanamente, viver
perigosamente. Clima penoso tanto física
quanto politicamente, era um lugar privilegiado
para se assistir aos grandes espetáculos
humanos, à tremenda turbulência das
massas e aos contrastes insolentes da vil riqueza
com a mais sórdida miséria - um
palco teatral na crosta ocidental da China.
Nas obras que o celebrizaram, Les Conquérants
e La Condition Humaine, soube André
Malraux captar o fundo trágico e muito
humano da vida neste empório do Oriente.
O cenário histórico da obra de Malraux
é a crise dos anos vinte, a Segunda Década
da grande Revolução Chinesa que
se desenvolve com múltiplos atores e surpreendentes
reviravoltas, cindindo o movimento entre o Kuomintang,
à direita, e o “Exército Popular”
de Mao Dzedong, à esquerda. O romancista
francês escolheu o momento crucial em que,
procedente de Cantão com as tropas “nacionalistas”
que comandava, o “Generalíssimo”
Chiang Kaichek aliou-se à classe dos Compradores,
casando com a herdeira de uma de suas mais ricas
e poderosas famílias, os Sung (4). A família
Sung é interessante porque personifica
toda a problemática política, social
e econômica das quatro décadas decisivas
da Revolução (1911-1950). Um rico
industrial com conexões americanas, Sung.
foi o fundador da linhagem e seus três filhos
são responsáveis pelos rumos contraditórios
que tomou o processo de transformação
do país. A filha mais velha, Chingling
casou com Sun Yatsen, o patriarca da República.
Depois da morte do marido, aderiu aos maoístas,
recebeu o Prêmio Stáline e, vivendo
em Beidjing, suportou sem grandes transtornos
as turbulências da Revolução
Cultural, morrendo com toda a glória entre
os comunistas. O irmão, T.V. Sung, foi
Ministro da Fazenda do Kuomintang e dos Negócios
Estrangeiros durante a guerra, sendo considerado
em certo momento o homem mais rico do mundo. Negociante
inveterado, ouvi dizer durante minha passagem
pela base aérea de Natal em 1944, que mesmo
as condições especiais da guerra
mundial e sua alta hierarquia não o impediam
de realizar transações locais com
cigarros americanos e relógios suíços.
A terceira, Meiling, casou com Chiang Kaichek,
exatamente no momento em que o “Generalíssimo”
rompia com seus aliados comunistas e suprimia,
a ferro e fogo, a greve revolucionária
de Xanghai comandada por Chou Enlai. Iniciando
e terminando vitoriosamente o combate aos diversos
“Senhores da Guerra” que dominavam
as províncias, Chiang chegou praticamente
a unificar a China, salvo as áreas setentrionais
controladas pelos Maoístas depois da famosa
“Longa Marcha”. Na complicada intriga
de que se valeu Malraux para a redação
de La Condition Humaine, os dois irmãos,
T.V. Sung e Sung Meiling, desempenharam um papel
crucial como representantes de Xanghai e de sua
classe dos Compradores.
Em certo momento e por motivos de tratamento
de saúde, Meiling viveu numa ilha da baía
de Guanabara, Brocoió. Tive ainda ocasião
de conhecê-la quando de uma viagem oficial
a Taiwan realizada em 1966, em que eu acompanhava
o Ministro Juracy Magalhães – episódio
de que tratarei em parte posterior destas Memórias.
Após a morte de Chiang e sempre cercada
de prestígio, Meiling foi viver em Nova
York onde faleceu em 2003, com 106 anos de idade.
Como resquício da cisão ocorrida
na Revolução chinesa entre “nacionalistas”
do Kuomintang e “comunistas” do PCC,
persiste ainda o problema de Taiwan que o “Governo
Popular” de Beidjing continua a reivindicar
como parte da nação.
Quanto a Chou Enlai, este típico intelectual
de vocação mandarínica, ex-Comissário
Político do PCC na cidade, por pouco escapou
ao pelotão de fuzilamento mas perdeu para
sempre a perspectiva de alcançar a posição
suprema e se tornar o Número Um
da Revolução, como merecia. Ele
se recuperaria suficientemente, no entanto, para
ocupar o posto der Primeiro Ministro depois de
1950 no governo comunista. Mandarim-Mor sob as
ordens de Mao, sobreviveu à Revolução
Cultura e foi mentor de seu fiel sucessor Deng
Xiaoping, herdeiro de um programa mais racional
do que o do alucinado campônio populista.
Por duas vezes, quase perdeu a vida, mas Mao o
respeitava como melhor conhecedor do mundo exterior.
A intriga que então se desdobrou (1925/27)
iria condicionar o progresso da Revolução
chinesa, através de vinte e cinco anos
de novas guerras civis, entremeadas de oito anos
de uma guerra selvagem contra o inimigo japonês
que custaria cinco milhões de mortes –
ao todo 50 milhões de vítimas até,
finalmente, cessar a turbulência depois
da morte do Grande Timoneiro. Temos aí
nas três “famílias” ideológicas
– 1) a pro-americana dos “compradores”,
dos Sung; 2) a originariamente mandarínica
e marxista de Chou Enlai; e 3) a “ruralista”,
populista ou camponesa reacionária de Mao,
exposta no célebre “Livrinho
Vermelho” – os três eixos
que orientaram a Revolução no fulcro
do tufão de Xanghai. Tudo terminaria, em
que pese o despotismo dos que, em 1989, mandaram
fuzilar centenas de estudantes nos arredores da
paradoxalmente chamada Praça da Paz Celestial
(Tien-An-Men) - na atual tentativa de
conciliação que se resume no slogan
“uma nação, dois sistemas”,
nas mãos do terceiro herdeiro de Deng,
Hujintao.
Desde seu nascimento, entretanto, tivera Xanghai
uma existência movimentada. Em meados do
século XIX, a metrópole enfrentou
o pesadelo da revolta dos Tai-Ping - um movimento
anárquico, xenófo, anti-manchu e
com vagas influências cristãs que
terminou com um saldo de trinta milhões
de mortos. Possivelmente o episódio mais
brutal daquela centúria relativamente pacífica,
a crise dos Tai-Ping durou anos e só foi
debelada com a ajuda dos europeus. Na passagem
do XIXº para o XXº século, Xanghai
assistiu de longe ao trauma dos Boxers
- os primeiros guerrilheiros xenófobos
que a poderosa e perversa Imperatriz Viúva
Tzu Hsi, tia do “Último Imperador”,
cultivou, a fim de resistir a qualquer mudança
enquanto tentava preservar sua própria
família no Trono do Dragão. A cidade
já crescia desmesuradamente. Fora, até
a guerra, o primeiro porto da Ásia e absorvia
centenas de milhões de dólares em
exportações e importações,
como entreposto do Eldorado chinês. Fortunas
fenomenais foram acumuladas, nem sempre honestamente,
e a prosperidade alcançou cifras jamais
atingidas. Concebiam-se as possibilidades futuras
como imprevisíveis. A China é um
país de imensos recursos, fabulosas riquezas
do subsolo, abundantes matérias primas
para a indústria da Europa e América
– o maior mercado potencial, a mais numerosa
população trabalhadora e mesmo,
como já alguns antecipam, a primeira potência
econômica do planeta. O espetáculo
da fortuna fácil que se esbanja em caprichos
e vícios, no quadro da miséria e
podridão humana, arrastando-se pelas sarjetas
– todas as manifestações multiformes
da vida urbana, florescendo como em parte alguma
neste planeta em plena crise da Grande Depressão
– tal foi o quadro com que, mal saído
de um Rio de Janeiro ainda provinciano, me deparei
para deleite, perplexidade e, logo em seguida,
horror - horror com o que aconteceria no inverno
de 1941/42.
Tema curioso que desejo tocar antes de prosseguir
com estas reminiscências se me apresenta
como o do transporte na cidade. Pode-se dizer
que a história do desenvolvimento da China
pode ser descrita, em termos de progresso tecnológico,
por uma série de etapas nos meios de transporte.
O cavalo nunca exerceu um papel importante em
sua economia. Só foi largamente utilizado
militarmente, por influência, suponho, das
tribos siberianas que regularmente usaram a cavalaria
em suas invasões da China setentrional.
A dinastia Tang estendeu o Império até
seus mais distantes limites de domínio
e influência para o sul (Vietnam e Birmânia),
para oeste (Tibet e Turquestão) e para
o norte (Sibéria e Coréia), pelo
uso amplo da arma hipomóvel. A intensa
a urbanização chinesa sempre preferiu,
para as grandes comunicações pesadas,
o transporte fluvial em rios e canais. A besta
de carga principal foi o próprio homem,
ou sua variedade nativa, o cule. A evolução
se processou do seguinte modo. Originariamente,
o mandarim ou qualquer membro da elite dominante
e sua família eram transportados em liteiras
ou palanquins. Dois cules, um na frente, outro
atrás. O primeiro notável progresso
foi realizado pelos ingleses que introduziram
o rickshaw ou jinrickshó
– literalmente, “veículo a
tração humana” – e não
sei se há tradução portuguesa
para essa espécie de carrinho de mão.
Inventado ao que se diz por um Sahib da Índia
e usado, em certa época, por toda a Ásia
oriental, inclusive no Japão, o veículo
configurou um enorme avanço tecnológico
- um único ser humano carregando um outro,
ou mesmo dois ou três. Muito me servi desse
meio em Xanghai e, posteriormente, em Beidjing,
empregando-o no lugar de inexistentes táxis.
O nome no dialeto local era pronunciado, aproximadamente,
uhambatzó, mas desconheço
os respectivos ideogramas. Foi sendo substituído
aos poucos pelo pedicab cujo puxador,
ao invés de correr a pé, usa rodas.
É, em outros termos, uma tricicleta. O
progresso do individualismo democrático
é notável, de dois para um a
um para dois ou mais de dois. Finalmente,
na fase atual do desenvolvimento chinês,
como se pode apreciar por qualquer fotografia
de tráfego nas ruas chinesas, é
a própria bicicleta, um para um. A
bicicleta configura o transporte ideal para pequenas
distâncias, sem poluição,
sem engarrafamentos e proporcionando um saudável
exercício diário ao indivíduo
atento à saúde de seu coração.
A instalação de uma grande indústria
automobilística é fenômeno
recente, com conseqüência imprevisíveis
não só para o trânsito, mas
para o consumo do petróleo nessa gigantesca
economia.
Todavia, eram estas as condições
que a Xanghai granjearam, já quando a conheci,
a fama de Paris do Oriente...Vivi na China, precisamente,
num dos momentos mais dramáticos da imensa
transição do colonialismo imperialista
para a sociedade globalizada da modernidade. Eu
era jovem. Tinha vinte e poucos anos. Era a primeira
experiência de liberdade e ainda sofria
da louca irresponsabilidade, sofreguidão
e insegurança da juventude. Nunca sentiria
a realidade do turbulento mundo moderno tão
intensamente como nesse ano e meio em que participei
diretamente de eventos históricos, entre
os mais salientes do século... Experiência
ímpar que, confrontada com algo semelhante
em meu próprio país, me foi sumamente
instrutiva ao cotejar a evolução
das duas nações nos antípodas,
à luz do fenômeno de globalização
da economia, cultura e poder político euro-americano.
Vale recordar que, no primeiro período
em que servi em Xanghai, assisti á fracasssada
tentativa dos japoneses de ampliar seu Lebensraum
através da conquista da China – o
que descreviam como colocar “Os Quatro
Cantos do Mundo sob um Mesmo Teto”.
A agressão à China, que precedeu
o expansionismo nazista e provocou a II ª
Guerra Mundial no cenário asiático,
foi inicialmente conduzida por grupos de militares
do Exército da Manchúria, agindo
de modo aparentemente independente e dominando
as políticos hesitantes do governo de Tóquio.
O general Araki Sadao. chefe de uma facção
ultra-nacionalista que propunha a Via Imperial,
Kodo Há - um movimento ideológico
de natureza nazista. Araki e outros colegas de
farda, samurais aventureiros, puseram-se na cabeça
que seria possível conquistar a China,
conquista-la inteiramente, fazer o mesmo do que
os mongóis e os mandchús que haviam
estabelecido suas próprias dinastias. Hirothito
seria colocado no Trono do Dragão. Na batalha
em torno das concessões internacionais
de Xánghai, em fins de 1937, os adversários
se empenharam no primeiro grande confronto bélico
da Segunda Guerra Mundial. Num bombardeio aéreo
por engano dentro do próprio Settlement,
antecipou-se os horrores da nova forma de terror
coletivo.
Cortadas as artérias vitais de comunicação
com o vale do Yang-Tzê, destruído
seu comércio, suspensa a navegação
e irremediavelmente comprometido o domínio
econômico ocidental, convenceram-se finalmente
os Taipans europeus de sua sorte. Se vencesse
o Japão, monopolizaria a vida econômica
do porto; se a China, como aconteceu, as tropas
vitoriosas, nacionalistas ou comunistas, entrariam
nas concessões sem se deter e varreriam
interesses, concessões e privilégios
dos financistas e mercadores estrangeiros. Tudo
culminou em 1949 no sucesso do populismo nacional-socialista
de Mao Dzedong.
A presença de nossa Consulado Geral em
Xanghai não representava, por conseqüência,
senão um símbolo inútil,
sem qualquer valor prático que o justificasse.
Um pouco de bom-senso e atenção
de nosso Ministério teria determinado,
ainda em 1940 ou 41, o fechamento tanto dessa
repartição, quanto da Legação
que ainda mantínhamos – realmente
para que? - em Peking . Não seria a primeira
vez que, secretamente, no mais íntimo de
minha mente, surgia a dúvida sobre se as
repartições brasileiras existem
para dar emprego a funcionários, e não
os funcionários para atender às
necessidades políticas e administrativas
das repartições.
Mas sem poder prever o que aconteceria, o espetáculo
da presença dominante dos japoneses em
torno da cidade e alguns incidentes que testemunhei
estavam aos poucos determinando minha própria
atitude, progressivamente mais envolvida nos acontecimento
bélicos que se sucediam e que terminaram,
ao final das contas, com a sobrevivência
e sucesso dos aliados em luta pela liberdade e
a democracia. Recordo-me de haver assistido, ainda
ao final do verão de 41, a uma exibição
marcial de fuzileiros navais japoneses num terreno
baldio, área aberta na esquina do Bund.
O objetivo da demonstração era,
obviamente, impressionar a população
local com o poder de seus novos Senhores. Os fuzileiros
se exercitavam, enterrando a baioneta no corpo
de um “inimigo”, feito de palha, e
a cada gesto, a companhia inteira soltava um rugido
selvagem, gutural, de tigres ferozes. Em dado
momento, obedecendo às ordens de um oficial,
meia dúzia de fuzileiros puseram-se a afastar
com brutalidade a audiência de chins que,
curiosos mas imprudentes, se haviam acumulado
para presenciar o treinamento de seus invasores.
Vários populares caíram ao chão,
com a cabeça ensangüentada. Pareceu-me
que um deles estava com o crânio rachado.
Foi então que, pela primeira e talvez única
vez, ouvi o hino nacional, o Kimi-ga-yô
– cantado em coro, lento, melancólico,
exótico, com suas sentenças de tom
religioso cuja tradução aproximada
é a seguinte:
Que Te seja dado viver dez mil anos felizes.
Vive, meu Augusto Senhor, até que os
pedregulhos,
Reunidos pelos séculos em grandes rochedos
Sejam os veneráveis flancos de musgo
recobertos.
O hino é mais uma oração
ou renovação da declaração
de profunda e eterna fidelidade ao Tennô
Heika. No local, além dos fuzileiros,
havia também uma aglomeração
de súditos do Mikado. A cerimônia
terminou com o berro estrondoso, três vezes
repetido, os braços lançados para
o alto, Banzai! Banzai! Banzai! –
grito de viva, literalmente “Dez Mil”
(Dez mil anos), o que tanto em chinês (Wan
Sui) quanto em japonês, sugere a eternidade.
Confesso que um arrepio me percorreu o corpo.
Poucos dias depois, passeando pela Nanking road,
entrei numa pequena loja de fotografia e assisti
a outro espetáculo, ainda mais desagradável.
Um japonês muito irritado e em trajes civis,
talvez algum antigo oficial do exército
– com eles não se topava freqüentemente
do lado de cá dos limites da Concessão
internacional – discutia com o dono da China
Marvellous Photo Shop. Provavelmente, sobre
o preço de uma máquina alemã
Zeiss Ikon, ou coisa semelhante. Estavam falando
chinês, fiquei esperando. De repente as
coisas desandaram. O freguês ficou amouco,
o termo malaio-indonésio é amok,
“furor homicida e suicida” - aquele
furor que seria demonstrado durante toda a guerra.
Gritou e atirou brutalmente o aparelho em plena
cara do gordo vendedor. O sangue espirrou e o
chinês se espatifou no chão. Discretamente,
bati em retirada para não assistir às
seqüelas do entrevero. Como por acaso, naquela
mesma semana um dos meus amigos “russos
brancos”, me proporcionou uma série
de fotos tiradas por ocasião do massacre
ou Rapto de Nanking, de fevereiro de 1938, um
dos episódios mias horrandos da Segunda
Guerra Mundial, em que se calcula tenham perecido
entre 200 e 300 mil civis e soldados chineses..
Compreendam assim que, embora admirando o caráter
inflexível dos japoneses, minhas simpatias
se estavam rápida e radicalmente se consolidando
para o lado dos chineses e de seus aliados ocidentais.
Estes eram os americanos que, desde 1937, prestavam
assistência discreta à resistência
do Kuomintang e, desde sempre, favoreciam a política
globalizante das “portas abertas”
(Open door policy). O propósito
era diametralmente contrário à monopolização
do mercado chinês, potencialmente o maior
do mundo, por uma única potência
dominante.
De qualquer forma, que estava a guerra por chegar,
até eu sabia, sem recurso a qualquer Serviço
de Inteligência, a não ser a minha
própria. Nos primeiros dias de dezembro
de 1941 fomos assistir às despedidas do
IVº Regimento dos Marines. Eles
partiam para as Filipinas. Graças a meu
chefe, o cônsul geral Mee, me havia tornado
amigo de vários oficiais desse último
destacamento americano na Concessão internacional,
inclusive de seu comandante, o coronel, posteriormente
general Howard. Tenho uma fotografia tirada no
momento em que Howard dá os cumprimenta
de despedida ao comandante japonês da praça,
do outro lado dos limites do Settlement.
E guardei a carta que escrevi no mesmo dia a minha
Mãe, no Rio, prevenindo-a da iminência
da guerra e pedindo que não se preocupasse
se, a partir daquela, não mais recebesse
correspondência minha. As comunicações
seriam cortadas por um prazo indefinido. Com o
despertar, violento porém não inesperado,
de Pearl Harbor e da ocupação de
todo o Settlement internacional de Xanghai
na noite de 8 de dezembro, me dei conta do envolvimento
em que nos encontrávamos em acontecimentos
gigantescos diante dos quais nossa própria
sorte insignificante, nossos pequenos projetos,
mesmo nossas vidas se reduziam à expressão
mais simples. Minhas remniscências me asseguram
que, naqueles dias de dezembro de 1941, li de
uma só vez o livro de Anatole Frence Les
Dieux ont Soif. É uma história
que se passa durante a Revolução
Francesa. O panorama que se descortina é
o do terror e da irracionalidade. A leitura do
autor francês introduziu-me ao ambiente
do mundo totalitário do século XX
em que eu iria encontrar, anos depois, as obras
seminais de Huxley, Orwell, Kafka, Koestler, Isaiah
Berlin e Popper, um outro francês, Julien
Benda, e alguns outros eminentes autores que foram
sensíveis à tragédia da civilização
moderna. Em Xanghai, era a mesma atmosfera num
horizonte diverso, com o acréscimo do exotismo
da Ásia Orienta. A impressão de
impotência diante de dois imponderáveis,
a massa chinesa e o Leviatã nipônico,
deixou-me com uma sensação desagradável
de insegurança que, realmente, só
cessaria depois de nossa volta ao Brasil, repatriado
com os outros diplomatas das nações
aliadas em julho de 42 pelo navio sueco Gripsholm.
Quero, porém, relatar um aspecto especial
nessa minha memorialística. O inverno de
42 foi particularmente severo naquela parte do
mundo. Nevou bastante em Xanghai e isso contribuiu
para tornar ainda mais precárias as condições
de vida da enorme massa chinesa, deixada ao Deus
dará. O regime de racionamento nunca foi
estabelecido porque, como alguém reparou,
sempre houve racionamento na China. Ele vigorou
até a Revolução comunista,
por força do poder aquisitivo de cada um:
quem tinha dólares no bolso, sempre encontrava
o de que comer no mercado negro. Quem não
tinha, morria de fome. Após o triunfo de
Mao Dzedong, a míngua continuou valendo
para as massas, mas não para o mandarinato
do partido. De novo, milhões morreram de
fome no período de comunização
das terras, do mesmo modo como outros milhões
faleceram como resultado do "Grande Salto
para a Frente". No inverno de 1942 e em regime
de semi-internamento sofremos apenas, os diplomatas,
da deterioração no abastecimento
de certos alimentos, principalmente carne de vaca
que sempre foi rara na culinária chinesa.
Nada que comprometesse a saúde. A situação
tornou-se bem mais trágica para os pobres.
A "indizível miséria"
de que fala Teilhard de Chardrin ao percorrer
os campos desorganizados da China, era ainda mais
evidente nas cidades. Tendo vivido vinte anos
na China, inclusive todo o período da Guerra
– quando estudou o “Homem de Peking”
e escreveu Le Phénomène Humain
- Teilhard conheceu profundamente os sintomas
da carência generalizada que, até
a idade moderna, sempre configurou o sistema.
Naquele inverno, o frio e a fome criaram uma calamidade
na cidade, superlotada de refugiados de aldeias
vizinhas e escarmentados pela luta de guerrilha.
Em uma madrugada de fevereiro, as autoridades
das Concessões internacionais recolheram
mais de trezentos cadáveres nas ruas. E
numa noite frígida, passando numa calçada
não longe de meu apartamento, tropecei
num cadáver recoberto de neve e caí.
Era difícil distinguir no lusco-fusco.
Contei o ocorrido ao jovem Bertrand de Margerie
– filho do Cônsul Geral francês
e futuro jesuíta que lecionou muitos anos
no Rio de Janeiro, no Colégio Santo Inácio,
e ele me citou os versículos do Livro de
Jó, capítulo 14:
Consome-se o homem como a podridão,
Como um vestido roído pela traça.
Nascido de mulher, tem a vida curta e de tormentos
repleta.
É como a flor que se abre e logo murcha,
E foge como sombra sem parar...
Um dia, passeando à noite pela Jofi Lu,
a Avenue Joffre cerca de nosso hotel, com uma
amiga que falava chinês, assisti ao espetáculo
constrangedor de um miserável que, estendido
na neve junto a um companheiro, morria presumivelmente
de frio e fome. Compramos alguma comida quente
que encontramos não longe e oferecemos
aos dois. O que estava vivo riu, pronunciou em
chinês algumas palavras que significavam
haver entendido nossos motivos e nos informou:
“Não adianta, ele está morrendo”.
O vivo aguardava a morte do amigo para dele se
apossar da indumentária, dos sapatos e
de toda a comida que demos. Como interpretar o
riso impenetrável e a indiferença
de um mendigo para com o outro? Numa multidão
como a da China, com seus 600 ou 700 milhões
de indivíduos - a população
naquela época, metade do que é hoje,
mais de 60 anos depois - é natural que
a vida humana conte por pouco. Nossas emoções
de Ocidentais e Cristãos também
são incompreensíveis para um chinês,
treinado em esconder seus sentimentos e só
sentindo obrigação moral para com
os próprios parentes e amigos mais próximos.
Os transeuntes, impassíveis, continuavam
a tropeçar em velhos raquíticos
e crianças despidas, a gemer e gritar de
frio e de fome, tal a quantidade de desamparados
na imensa metrópole ocupada. O banditismo
constituía outro sintoma do caos latente
– que pouco interessava à guarnição
nipônica, só atenta à sua
segurança militar. O bandido comum não
hesitava em matar para roubar cem dólares.
Muitos estrangeiros, inclusive um russo a que
eu fora apresentado pouco tempo antes, foram assassinados
por simples ladrões de bicicletas, gatunos
noturnos e arrombadores de janelas. Afinal de
contas, o mesmo tipo de violência ocorre
hoje no Rio e em São Paulo, sem guerra
alguma, e também toleramos o agravo com
o simples álibi que "a culpa é
da sociedade"! Os ricos chineses protegiam-se,
com guarda-costas russos, contra organizações
que nada deixavam a desejar aos gangsters
e seqüestradores na habilidade e audácia,
superando-os porém pelo número.
Crianças em tenra idade tiveram suas barrigas
abertas para nelas serem escondidas as barras
de ouro e armas de fogo, contrabandeadas nos limites
da cidade.
Outro problema era o terrorismo, variante do
primeiro embora com um sentido diverso. Dele tinham
a sofrer principalmente os civis japoneses e os
"colaboracionistas" do governo títere
de Wang Chingwei em Nandjing. O terrorismo indiscriminado
era parcialmente contido graças ao velho
sistema chinês de policiamento, chamado
Pau Chia. Consistia na responsabilidade
coletiva de todos os habitantes do quarteirão
onde se acreditava o culpado estivesse refugiado.
O quarteirão era isolado; seus habitantes
não se podiam locomover, nem trabalhar
ou receber alimentos, eletricidade ou água,
até que o suposto criminoso aparecesse.
O sistema oferecia às vezes aspectos cômicos.
Um pegue-e-pague da época foi bloqueado
durante 48 horas, com todos os fregueses que se
encontravam em seu interior obrigados a passar
dois dias sem comer...
Os inimigos e as "massas", era isso
o que a nós todos, ocidentais, preocupava.
A palavra “massas” voltaria incessantemente
no vocabulário marxista e, particularmente,
no maoísta. Ela possui uma tonalidade de
sentido transcendente, mas naquele momento seu
significado era bastante específico. A
China é governada pelas "massas".
As "massas" fariam a “Revolução
Popular”, a cujo término eu teria
outra oportunidade de assistir em 1947/49. As
massas são uma realidade estatística
numa nação de 1,3 bilhões
de habitantes. Em Xanghai, as massas constituíam
uma realidade concreta, uma monstruosidade palpável.
Cidade que tinha uns três ou quatro milhões
de habitantes quando a conheci, a massa humana,
no seu colorido cinzento-azulado, comprimida em
uma das maiores densidades demográficas
do planeta, agitada e, ao mesmo tempo, curiosamente
pacífica e silenciosa, oceano humano que
oprimia e afogava - quantas vezes durante a guerra,
numa época em que quase não existia
tráfego de automóveis, eu sentia
essa sensação estranha de estar
sendo absorvido ou engolido ou me afogando dentro
de um ciclópico ser coletivo, um Behemoth.
Eu temia ser estrangulado pelas "massas".
Há duzentos anos, já escrevia Lord
Macartney, o primeiro embaixador inglês,
que "essa imensa população
gosta de viver ao ar livre, em número infinito".
A sensação de um formigueiro ou
de uma torre de cupim é muito real. Volta-nos
constantemente ao espírito as duas palavras
francesas grouiller, pulluler...
Quero terminar com a seguinte consideração.
O ponto a salientar é a limitada inclinação
histórica de uma sociedade tão introvertida
quanto a chinesa pela expansão ultramarina.
Essa introversão vem de par com uma atitude
histórica essencialmente conservadora e
defensiva que, na minha opinião, não
permite antecipar se transforme a China, eventualmente,
com seu crescimento econômico e demográfico,
numa superpotência globalmente agressiva.
Acredito que se o espírito de Xanghai e
de Hong Kong vingar por todo o imenso país
– o que quer dizer que, se as modernizações
de Deng Xiaoping amadurecerem, não haverá
por que temer a China senão como grande
concorrente, jamais com um misterioso Dr. Fu Manchu
agressivo. A China que se acordou, se levanta
simplesmente |