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DA MORAL EM ECONOMIA
25/08/2002
Acabei de ler o mais novo rebento da criação
intelectual do Embaixador Meira Penna, o livro
Da Moral em Economia, recém
editado pela Editora UniverCidade. É uma
obra imperdível, vez que resultado da reflexão
filosófica mais refinada de um pensador
maduro.
Meira Penna nunca esquece de usar os preciosos
conhecimentos psicológicos que adquiriu
no Instituto Carl Jung, o que torna a sua abordagem
da Economia algo bastante original. A cada parágrafo
o leitor depara-se com o uso do instrumental junguiano,
sem o que, penso, a análise vista de qualquer
anglo das ciências sociais fica empobrecida.
O livro é dedicado ao saudoso Roberto
Campos e tem o prefácio de Og Leme, um
dos mais ilustres liberais em atividade no Brasil.
Tem cerca de quatrocentas páginas e está
divido em nove capítulos.
A obra se propõe a desmistificar o que
o autor chama de altruísmo por força
de lei, ou seja, as propostas de cunho socialista
e comunista, que são alternativas à
visão liberal da economia e, portanto,
dos negócios do Estado. É ética
a economia de mercado? Sim, afirma Meira Penna,
só ela é ética. A sua alternativa
coletivista nega a essência do ser humano
e produz a falsificação do bem.
Meira Penna chega às suas conclusões
liberais a partir de madura reflexão sobre
a alma humana. A ciência econômica
não é algo isolado: tudo se conecta
e os fundamentos estão na religião,
como veremos mais abaixo.
Se algo há a reparar no livro do ponto
de vista teórico é quando ele toma,
no primeiro capítulo (Praxeologia
da ação humana), a classificação
feita por Mises sobre a dialética do tomar,
do dar e do trocar, equivalentes aos comportamentos
egoísta, altruísta e racional que
as pessoas podem assumir. Meira Penna, enquanto
psicólogo junguiano, perdeu a oportunidade
de corrigir essa abordagem, vez que falta um elemento
nessa classificação para esgotar
a compreensão do homem.
Aliás, sempre que algo toma a forma do
número três, é preciso investigar
o elemento faltante, para compor a quaternidade,
número que dá a plenitude das coisas
humanas. Aqui não é diferente. Com
efeito, ao lado das ações tomar,
dar e trocar, há ainda uma quarta ação
relevante, que é receber. Nietzsche já
nos lembrava, não sem a amargura de um
deus enclausurado na sua solidão (no Canto
Noturno, a mais bela página escrita
no monumental Zaratustra), que há
mais virtude em receber que em dar. As ideologias
coletivistas levaram a pé da letra a expressão
do filósofo, esquecendo-se que os homens
não são Deus, a fonte dadivosa do
Bem.
Receber é uma ação passiva,
que pode envolver ou uma situação
de dependência, ou de fraqueza ou de puro
cinismo. Quando uma criança ou um velho
recebe algo dos seus familiares ou da coletividade,
é digno, estando implícito um ato
de Amor (Ágape). Quando alguém em
situação de miséria aceita
receber, há aqui também um ato de
Amor (Cáritas). Nesses gestos, há
um elemento de temporalidade, de excepcionalidade,
exceto para aqueles que são os dependentes
absolutos, os velhos, os doentes e as pessoas
incapacitadas de se engajarem no esforço
produtivo. Acudi-los é o que nos torna
especificamente humanos.
Já os que recebem por cinismos são
os parasitas sociais, homens e mulheres adultos
que aceitam receber seu sustento a partir de uma
mesada estatal, mesmo estando plenamente aptos
para trabalhar. Esse é um ato que se opõe
ao egoísmo, visto que este é ativo.
Não há aqui nenhuma virtude, muito
ao contrário: há aqui o opróbrio
do parasita social. Tal e qual o seu análogo
na biologia, esse parasita pode eventualmente
destruir o seu hospedeiro, estando na raiz das
crises fiscais das economias modernas.
O ato de receber corresponde à situação
de dependência. Sua lógica tem sido
levada aos limites da irracionalidade nas políticas
socialistas, que condenam legiões de homens
e mulheres a dependerem da mesada estatal, correspondente
a uma vida vegetativa e improdutiva, enquanto
que os que trabalham pagam a conta, sendo surrupiados
de suas riquezas pelos impostos. A ação
socialista é a negação da
ética. Tudo isso é feito em troca
da manutenção do poder nas mãos
dos demagogos, que não cansam de fazer
discurso pregando a caridade com o bolso do outros,
invertendo a ética do trabalho e colocando
em seu lugar a ética do ócio.
Essa ética é insustentável
no longo prazo, estando reservada para os sistemas
econômicos que a adotam a incidência
de crises insuperáveis dentro da sua lógica.
É imperativo pôr os vagabundos a
trabalhar.
A maior virtude do livro de Meira Penna, a meu
ver, e o seu toque mais original, está
no capítulo segundo (A falácia
romântica). Curto e denso capítulo.
Aqui o autor resgata da história o embate
travado por Santo Agostinho contra Pelágio.
Esse monge galês poderia ter destruído
o Cristianismo nascente se não fosse pela
força moral, filosófica e religiosa
de Agostinho. Pelágio simplesmente negava
e idéia do Pecado Original, o que equivale
a negar a missão do Cristo Redentor. Meira
Penna brilhantemente conclui:
Do debate (entre Agostinho e Pelágio)
e por longa evolução através
dos séculos, emergiria a convicção
romântica dos Jacobinos de 1793 que imaginaram
a possível correção da natureza
humana graças a manipulações
institucionais por meios políticos. Marx
corrigiu Rousseau, no sentido que tudo depende
do modo de produção. O mundo político
moderno é, em grande parte, um mundo pelagiano
e a moléstia pelagiana se transformou na
magia negra da ideologia, analisada por Eric Voegelin.
Configura metástase pseudo-religiosa da
modernidade socializante.
O que Pelágio plantou e foi aproveitado
por Rousseau foi a idéia de que a culpa
não é individual, mas social,
retirando dos indivíduos a sua responsabilidade
diante da existência. Para eles, o homem
na natureza é bom, o tal bom selvagem.
Ao fazer isso, o Estado assume a função
de salvador, substituto imanente e falsificado
da mensagem transcendente da salvação.
O fato é que os homens são pecadores
maus mesmo e apenas pelo processo
de conscientização e revelação
é que podem vir a se tornar portadores
do Bem.
E levando às últimas conseqüências
a sua falácia, Rousseau e seus descendentes
comunistas e socialistas transformaram a propriedade
privada em algo equivalente ao pecado original.
Um evidente embuste. Deriva daí a idéia
de que a filantropia deve ser imposta pela polícia
e pelos fiscais da Receita.
O livro todo é uma mistura de erudição
e competência na arte escrever, mas não
quero me alongar. Remeto o leitor às suas
ricas páginas. Sublinhar esse capítulo
segundo, no entanto, é algo que se impõe:
nele está o fundamento último para
aqueles que acreditam na doutrina liberal e também
a denúncia da falácia de todos os
credos coletivistas. A despeito das mentiras sistemáticas
que foram repetidas desde a Era Romântica,
a verdade está na tradição
judaico-cristã e só o liberalismo
a exprime de forma adequada na ação
dos homens no mundo e na condução
política do Estado.
Nivaldo Cordeiro
O autor é economista e mestre em Administração
de Empresas pela FGV SP
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