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ISBN: 85-7439-030-5
Editora: UniverCidade editora
Número de páginas: 390
Encadernação: brochura
Lançamento: 2002
 

Da Moral em economia

 

DA MORAL EM ECONOMIA
25/08/2002

Acabei de ler o mais novo rebento da criação intelectual do Embaixador Meira Penna, o livro “Da Moral em Economia”, recém editado pela Editora UniverCidade. É uma obra imperdível, vez que resultado da reflexão filosófica mais refinada de um pensador maduro.

Meira Penna nunca esquece de usar os preciosos conhecimentos psicológicos que adquiriu no Instituto Carl Jung, o que torna a sua abordagem da Economia algo bastante original. A cada parágrafo o leitor depara-se com o uso do instrumental junguiano, sem o que, penso, a análise vista de qualquer anglo das ciências sociais fica empobrecida.

O livro é dedicado ao saudoso Roberto Campos e tem o prefácio de Og Leme, um dos mais ilustres liberais em atividade no Brasil. Tem cerca de quatrocentas páginas e está divido em nove capítulos.

A obra se propõe a desmistificar o que o autor chama de “altruísmo por força de lei”, ou seja, as propostas de cunho socialista e comunista, que são alternativas à visão liberal da economia e, portanto, dos negócios do Estado. É ética a economia de mercado? Sim, afirma Meira Penna, só ela é ética. A sua alternativa coletivista nega a essência do ser humano e produz a falsificação do bem. Meira Penna chega às suas conclusões liberais a partir de madura reflexão sobre a alma humana. A ciência econômica não é algo isolado: tudo se conecta e os fundamentos estão na religião, como veremos mais abaixo.

Se algo há a reparar no livro do ponto de vista teórico é quando ele toma, no primeiro capítulo (“Praxeologia da ação humana”), a classificação feita por Mises sobre a dialética do tomar, do dar e do trocar, equivalentes aos comportamentos egoísta, altruísta e racional que as pessoas podem assumir. Meira Penna, enquanto psicólogo junguiano, perdeu a oportunidade de corrigir essa abordagem, vez que falta um elemento nessa classificação para esgotar a compreensão do homem.

Aliás, sempre que algo toma a forma do número três, é preciso investigar o elemento faltante, para compor a quaternidade, número que dá a plenitude das coisas humanas. Aqui não é diferente. Com efeito, ao lado das ações tomar, dar e trocar, há ainda uma quarta ação relevante, que é receber. Nietzsche já nos lembrava, não sem a amargura de um deus enclausurado na sua solidão (no “Canto Noturno”, a mais bela página escrita no monumental Zaratustra), que “há mais virtude em receber que em dar”. As ideologias coletivistas levaram a pé da letra a expressão do filósofo, esquecendo-se que os homens não são Deus, a fonte dadivosa do Bem.

Receber é uma ação passiva, que pode envolver ou uma situação de dependência, ou de fraqueza ou de puro cinismo. Quando uma criança ou um velho recebe algo dos seus familiares ou da coletividade, é digno, estando implícito um ato de Amor (Ágape). Quando alguém em situação de miséria aceita receber, há aqui também um ato de Amor (Cáritas). Nesses gestos, há um elemento de temporalidade, de excepcionalidade, exceto para aqueles que são os dependentes absolutos, os velhos, os doentes e as pessoas incapacitadas de se engajarem no esforço produtivo. Acudi-los é o que nos torna especificamente humanos.

Já os que recebem por cinismos são os parasitas sociais, homens e mulheres adultos que aceitam receber seu sustento a partir de uma mesada estatal, mesmo estando plenamente aptos para trabalhar. Esse é um ato que se opõe ao egoísmo, visto que este é ativo. Não há aqui nenhuma virtude, muito ao contrário: há aqui o opróbrio do parasita social. Tal e qual o seu análogo na biologia, esse parasita pode eventualmente destruir o seu hospedeiro, estando na raiz das crises fiscais das economias modernas.

O ato de receber corresponde à situação de dependência. Sua lógica tem sido levada aos limites da irracionalidade nas políticas socialistas, que condenam legiões de homens e mulheres a dependerem da mesada estatal, correspondente a uma vida vegetativa e improdutiva, enquanto que os que trabalham pagam a conta, sendo surrupiados de suas riquezas pelos impostos. A ação socialista é a negação da ética. Tudo isso é feito em troca da manutenção do poder nas mãos dos demagogos, que não cansam de fazer discurso pregando a caridade com o bolso do outros, invertendo a ética do trabalho e colocando em seu lugar a ética do ócio.

Essa ética é insustentável no longo prazo, estando reservada para os sistemas econômicos que a adotam a incidência de crises insuperáveis dentro da sua lógica. É imperativo pôr os vagabundos a trabalhar.

A maior virtude do livro de Meira Penna, a meu ver, e o seu toque mais original, está no capítulo segundo (“A falácia romântica”). Curto e denso capítulo. Aqui o autor resgata da história o embate travado por Santo Agostinho contra Pelágio. Esse monge galês poderia ter destruído o Cristianismo nascente se não fosse pela força moral, filosófica e religiosa de Agostinho. Pelágio simplesmente negava e idéia do Pecado Original, o que equivale a negar a missão do Cristo Redentor. Meira Penna brilhantemente conclui:

“Do debate (entre Agostinho e Pelágio) e por longa evolução através dos séculos, emergiria a convicção romântica dos Jacobinos de 1793 que imaginaram a possível correção da natureza humana graças a manipulações institucionais por meios políticos. Marx corrigiu Rousseau, no sentido que tudo depende do modo de produção. O mundo político moderno é, em grande parte, um mundo pelagiano e a moléstia pelagiana se transformou na magia negra da ideologia, analisada por Eric Voegelin. Configura metástase pseudo-religiosa da modernidade socializante”.

O que Pelágio plantou e foi aproveitado por Rousseau foi a idéia de que a culpa não é individual, mas “social”, retirando dos indivíduos a sua responsabilidade diante da existência. Para eles, o homem na natureza é bom, o tal “bom selvagem”. Ao fazer isso, o Estado assume a função de salvador, substituto imanente e falsificado da mensagem transcendente da salvação. O fato é que os homens são pecadores – maus mesmo – e apenas pelo processo de conscientização e revelação é que podem vir a se tornar portadores do Bem.

E levando às últimas conseqüências a sua falácia, Rousseau e seus descendentes comunistas e socialistas transformaram a propriedade privada em algo equivalente ao pecado original. Um evidente embuste. Deriva daí a idéia de que a filantropia deve ser imposta pela polícia e pelos fiscais da Receita.

O livro todo é uma mistura de erudição e competência na arte escrever, mas não quero me alongar. Remeto o leitor às suas ricas páginas. Sublinhar esse capítulo segundo, no entanto, é algo que se impõe: nele está o fundamento último para aqueles que acreditam na doutrina liberal e também a denúncia da falácia de todos os credos coletivistas. A despeito das mentiras sistemáticas que foram repetidas desde a Era Romântica, a verdade está na tradição judaico-cristã e só o liberalismo a exprime de forma adequada na ação dos homens no mundo e na condução política do Estado.

Nivaldo Cordeiro

O autor é economista e mestre em Administração de Empresas pela FGV – SP