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Desejo chegar a uma resposta plausível
para a questão que enche toda essa obra
e domina o momento atual brasileiro: a chamada
"questão social". Se reconhecemos,
em nosso país, a existência de contrastes
excessivos de renda, fortuna, educação,
saúde e cultura - que fazer para corrigir
essa situação? Insisto que a pergunta
"que fazer?" encontra-se tanto no conservadorismo
ético da razão prática de
um Kant, quanto no título de um livro revolucionário
de Lênin.
Pode-se, naturalmente, encolher os ombros diante
da miséria. Podem-se aceitar as desigualdades.
Pode-se mesmo enfatizá-las, glorificá-las
nietzscheanamente, pretender que o darwinismo
social selvagem constituía ideal de progresso:
muita gente, hoje, exasperada com a retórica
de esquerda, já aceitaria como legítima
essa postura (é o caso do egoísmo
heróico e "objetivista" da judia
russa Ayn Rand, favorecida com um verdadeiro culto
no EUA!) No Brasil, esse tipo de reação
é bastante comum - embora quase sempre
silenciosa ou inconsciente. Há gente que
pensa: negro é burro mesmo; o que se deve
fazer é obrigá-lo a trabalhar (uma
ração aliás mais encontradiça
entre gente branca humilde que na classe A...).
Há também gente para a qual a questão
social permanece, como antes de 1930, "uma
questão de política"...
Nos ensaios que se seguem - alguns dos quais reproduzem
textos publicados em meu livro Psicologia do Sub-desenvolvimento,
hoje completamente esgotado - procuro abordar
o problema de moral, levantado pela pobreza e
o atraso, as atitudes contraditórias diante
da riqueza de protestantes católicos, e
a questão mais imediata de nossa "vocação"
para o desenvolvimento. Creio na oportunidade
do tema: pela quarta vez nestes últimos
60 anos (depois das tentativas abortadas de Getúlio
Vargas, de Juscelino Kubitschek e dos militares
de 1964-71) estamos tentando dar nova partida
ao processo de modernização. Talvez
desta vez sejam melhores as perspectivas, pois
o mundo todo sofre os contrachoques da Revolução
neo-liberal que principiou na década passada,
no Ocidente. Acima de tudo, inicio uma abordagem
filosófica dos problemas da Ordem, da Justiça
e da Liberdade, que espero poder tratar mais extensamente
em outra ocasião.
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