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Editora: Univer Cidade
ISBN: 85-7439-054-2
Encadernação: brochura
Páginas: 174
Lançamento: 2004

 

Nietzsche e a Loucura

 

PREFÁCIO
A filosofia de Nietzsche pouco conhecida ainda é no Brasil. Ela aqui chegou por intermédio de traduções francesas e obras de pensadores franceses que, na época do apogeu do “existencialismo” de Sartre e das divagações confusas de Foucault, Derrida, Deleuze, Kristeva e Irigaray desembarcaram de contrabando em nosso litoral em que lutam tupinambás e tupiniquins. O primeiro francês a escrever uma vida de Nietzsche, num precioso ensaio crítico, foi Daniel Halévy. Sua obra é de 1909: Nietzsche morrera havia pouco tempo. Além de Guy de Pourtalès, que escreveu entre as duas Guerras Mundiais; Louis Corman, que abordou Nietzshe como Psychologue des Profondeurs, em1982; Paul-Laurent Assoun, que realizou um confronto entre Freud et Nietzsche em 1980), e dos já mencionados Foucault e Deleuze, há uma coletânea das discussões havidas no Centre Culturel International de Cerisy-la-Salle, em julho de 1972, do qual, além de alguns estrangeiros ilustres, entre os quais Karl Löwith, participaram Eric Blondel, Eric Clémens, Jeanne Delhomme, Edouard Gaède, Sarah Kofman, Philippe Lacoue-Labarthe, Jean Maurel, Norman Palma e Paul Valadier em torno do tema específico “Nietzsche Aujourd-hui?”. De algumas dessas obras tenho conhecimento e, no presente ensaio me vali, com bastante esforço cartesiano.

Em 1985, ocorreu em nosso país uma onda intelectual a respeito do filósofo germânico. Wilson Coutinho discutiu o fenômeno e menciona um simpósio sobre Nietzsche na Faculdade Cândido Mendes do Rio. Alguns “filósofos”, artistas e críticos da cultura que escrevem em vários jornais, participaram dos debates. A obra foi então traduzida e publicada numa coletânea da Editora Brasiliense, sob o título Nietzsche Hoje? A crise de “Nietzschemania”, porém, durou pouco. Conheço igualmente o ensaio de Cecil Meira, “O Eterno Retorno de Frederico Nietzsche”, de 1989, que li com muito interesse. Mas as “ondas” no Brasil podem ser altas e até servir para o surfe de intelectuários, atraídos pela celebridade momentânea. Entretanto, não me atrevo a afirmar com autoridade, mas acredito que o livro “Nietzsche – o Sócrates de nosso Tempo”, de Mário Vieira de Mello, é de longe o que de melhor se escreveu em nossa terra sobre o pensador germânico. Não se trata de uma mera biografia ou da exposição sucinta da obra enorme de Nietzsche. É a defesa de uma tese. Mário enfatiza um aspecto em geral não muito desenvolvido pelo número considerável de críticos que, nos últimos anos, se debruçaram sobre essa obra: a importância da educação no pensamento de Nietzsche.

Na verdade, é particularmente o papel pedagógico que Nietzsche pode aqui desempenhar o que merece ser contemplado em toda tentativa de transplantar seu pensamento para esta nossa terra tropical, cheia de encantos mil e habitada por um povo tão pouco sério, é verdade, mas já naturalmente dionisíaco. Se Nietzsche tanto admirava e apreciava os italianos por sua espontaneidade, alegria e impulso vital, não se teria igualmente afeiçoado ao Brasil, como contraponto da decadência que percebia na civilização européia do século XIX? Se, em vez de Oaxaca no México, houvesse pensado em Petrópolis como distante refúgio para sua solidão e criatividade intelectual, o que poderia haver acontecido?
O mais curioso é que pode Nietzsche ser apontado como um antecipador do Tropicalismo que, no Brasil, só se tornou consciente e inspirador de tendências teóricas após a Semana de Arte Moderna, de São Paulo, e da obra de Gilberto Freyre. É óbvio que o tropicalismo está associado ao erotismo dionisíaco dos povos morenos meridionais, vivendo em clima quente: Nietzsche certamente se deu conta disso em sua breve experiência na Costa Amalfitana, um dos locais mais belos e afrodisíacos do litoral do Mediterrâneo. Na obra de 1886, "Além do Bem e do Mal", profeticamente assinalou Nietzsche que virtualmente todos os moralistas de antanho descobriram qualquer coisa de sedutoramente demoníaco na atmosfera quente das florestas tropicais. No verdadeiro ódio aos seres dos trópicos, "quer seja isso lançado à conta da enfermidade ou degenerescência do homem ou a seu próprio inferno e tormento próprio", Nietzsche se pergunta por que ocorre tal ojeriza: para benefício dos "homens das zonas temperadas? Para a moral? Para a mediocridade?". Grande amante da atmosfera da Itália, o filósofo descobre nas áreas quentes do planeta o dionisismo que promove triunfalmente o Übermensch de sua filosofia. Nietzsche obviamente esquecera a idealização da Grécia e do trópico paradisíaco que alucinou os grandes descobridores da época da Renascença... O fato é que, retornando ao Brasil como aposentado no princípio dos anos 80, me dei conta que havia uma natural e elogiável curiosidade em nossa terra pelo filósofo tedesco, em que pese uma compreensível reação a respeito dos aspectos mais extravagantes de um pensador, dado como profeta da violência, da desigualdade, do elitismo e do ateísmo, aspectos que naturalmente repugnam às tendências dominantes em nossa cultura intelectual.

No novo milênio, o interesse por Nietzsche parece pouco a pouco se firmar no Brasil. O “Caderno de Cultura” d’O ESTADO DE SÃO PAULO publicou, a 7.X.2001, um pequeno estudo de Regina Schöpke que anuncia novas traduções de Nietzsche para nossa língua, assim como discute o livro de Rüdiger Safranski, “Nietzsche – Biographie Seines Denkens”, 2000. Esta obra teria mesmo inspirado um filme sobre a crise de loucura de Nietzsche do cineasta brasileiro Júlio Bressane. Não posso comentar o filme, porque não os conheço. O livro de Safranski, “Nietzsche, uma Biografia Filosófica”, que li na tradução inglesa de 2002, é uma das melhores que julgo já haverem sido publicadas sobre a personalidade excepcional do pensador, entre outras coisas por fazer uso amplo da correspondência de Nietzsche, entrando assim na intimidade do filósofo. O estilo epistolar era muito comum na época e as cartas do filósofo são numerosas e excepcionalmente reveladores de suas preocupações e seu caráter.

. Do que ocorre na própria Alemanha, poucas informações possuo. Entretanto, no final dos anos 70 conheci, em Oslo, um jovem professor de origem vienense, Hans Eric Lampl, que também lecionava literatura latino-americana na Universidade local. Era um entusiasta de Nietzsche e membro de uma sociedade alemã que, anualmente, se reúne para longas discussões sobre o filósofo, precisamente em Sils Maria, cantão dos Grisões na Engadine suíça, onde Nietzsche viveu alguns anos e escreveu algumas das maiores obras do acervo.
Isso me faz crer que a memória de Nietzsche é ainda cultivada com fervor em seu país natal, depois de haverem expurgado a idéia aberrante de qualquer associação espiritual entre o pensamento do filósofo e as ideologias totalitárias, nacionalistas e socialistas, que dominaram a Alemanha na maior parte do século XX. Visitei certa vez Sils-Maria, pois costumo ir freqüentemente à Suíça onde, como Cônsul Geral em Zurique, vivi quatro anos de intensas experiências intelectuais, inclusive como estudante no Instituto C.G. Jung de Psicologia que, estando Jung ainda em vida (ele faleceu em 1961), funcionava na Gemeindestrasse, bem perto do centro da cidade. Tenho assim a honra de haver conhecido um dos principais intérpretes do filósofo e o local onde escreveu algumas de suas obras mais formidáveis.

A verdade é que, como os leitores disso se darão conta neste ensaio, é sobretudo nos Estados Unidos e, particularmente, em suas Universidades, que Nietzsche é hoje estudado. Não só a estrutura do poder econômico e do poder militar se localiza hoje nos USA, mas também é o centro da cultura em processo de globalização. Por conseqüência, é sobretudo de autores de língua inglesa que me vali para preparar as três conferências, com o título “The Mystery of Nietzsche´s Breakdown”, que no Instituto C.G. Jung, agora localizado em Küsnacht, perto de Zurique, pronunciei em maio do ano 2000. Essas conferências constituem o cerne do argumento que desenvolvo neste ensaio.

Os intelectuais brasileiros muito teriam a aprender com a leitura de Nietzsche, é o que concluí e o que pretendo defender como tese neste ensaio. Por sobre a barreira da língua, do estilo exuberante e difícil, da desinformação e calúnias que sofreu, e das más traduções existentes de seus livros, que seja ele lido com cuidado. A mensagem de Nietzsche é o de uma nova moralidade, de um novo mito, de uma “transfiguração de todos os valores”, de um individualismo heróico como pretende Leslie Paul Thiele – em suma, uma mensagem apropriada para o mundo globalizado que está surgindo sob nossos olhos, neste início de milênio. Não acreditava Nietzsche que sua obra fora escrita para a posteridade, que ele nascera muito antes de seu tempo? Um de seus primeiros trabalhos tem como título “Meditações Extemporâneas”, que melhor talvez traduziríamos como “Meditações Prematuras”. Certamente a transfiguração que Nietzsche nos propõe pode servir de fermento nesta Terra dos Papagaios, precisamente porque inteiramente nova é ainda nossa cultura, sendo fácil contrapor-se e corrigir os vícios da inteligência e dos sentimentos que ainda dominam a frágil e insegura elite intelectual do país – seriamente contaminada por um vírus “romântico” que posso condensar na figura perversa de Jean-Jacques Rousseau.

Antes de tudo que se saiba que Nietzsche não é pós-moderno (o que quer que signifique essa expressão esdrúxula). Ele não é ideológico, nem à esquerda, nem à direita. É, em grau supremo, o que se chamaria ‘politicamente incorreto’; mas representa, estou certo, uma das maiores forças intelectuais e morais no mundo em gestação, não tanto pelo que disse mas, como observa Karl Jaspers, pelas questões desafiantes que brutalmente nos endereçou. Noto que muitos dos amigos intelectuais que mais prezo possuem uma visão destorcida do pensamento nietzscheano. Gostaria de poder corrigir os mal-entendidos. É por isso que me atrevo a colaborar no verdadeiro dilúvio de publicações que hoje aparecem sobre o pensamento e a personalidade desse homem excepcional.